Mundo ficciónIniciar sesiónDepois de anos vivendo sob ameaças, humilhações e agressões, Helena finalmente fez o que sempre achou que não teria coragem: reagiu. Numa noite em que seu marido um policial corrupto conhecido por “fazer sumir” qualquer denúncia contra si, passou dos limites, ela golpeou-o na tentativa desesperada de sobreviver. Com as mãos tremendo e o rosto marcado, fugiu levando apenas o celular, a roupa do corpo e a sensação de que agora ninguém, absolutamente ninguém, iria ajudá-la. Sem conseguir distinguir modelos ou placas, Helena pediu um Uber e entrou no primeiro carro preto que parou. Não era o Uber. Era Dante Guimarães, o chefe mais temido do jogo do bicho no Rio de Janeiro, conhecido no meio como o Cobra. Ao perceber o desespero dela, Dante fez apenas uma pergunta: — Pra onde, senhora? — Pra longe. Por favor, pra bem longe. Mas fugir de um policial violento e influente é quase impossível. E proteger uma mulher como Helena pode colocar Dante em guerra com toda uma corporação que ele já aprendeu a não confiar. O que começa como uma carona errada se transforma em uma aliança improvável: ela, tentando sobreviver; ele, tentando entender por que aquela mulher desperta nele algo que ele jurou nunca sentir. Helena acha que caiu no carro errado. Dante tem certeza de que ela entrou no único carro capaz de salvá-la. Entre perseguições, segredos, lealdades quebradas e um sentimento que cresce sem permissão, os dois vão descobrir que às vezes fugir não é covardia, é o primeiro passo para recomeçar.
Leer másCapítulo 01
Helena Baldin Acordei com o coração disparado, como se tivesse sido arrancada de um pesadelo mas a verdade é que eu vivia nele. O relógio do celular marcava pouco depois das três da manhã. Tive um segundo de alívio: ele não estava em casa. Um dia a menos de guerra. Um dia a menos de ser usada, machucada, diminuída. Minha mente implorava perdão a Deus por desejar, tantas vezes, que ele nunca mais voltasse. Por sonhar, mesmo que por um fragmento de pensamento, com a liberdade que só a ausência dele seria capaz de me dar. Mas comemorei cedo demais. A porta da frente abriu com força aquele estalo seco que atravessava meu peito como uma lâmina. Virei para o lado, fechei os olhos e fingi dormir. Minha única defesa era a imobilidade. Se eu não respirasse fundo, talvez ele acreditasse. Talvez ele simplesmente deitasse e apagasse. Mas os passos subindo a escada eram como marteladas no meu estômago, cada pisada carregando o peso de uma ameaça silenciosa. Senti minha respiração falhar, por mais que eu tentasse mantê-la calma. Ele entrou no quarto. E a escuridão pareceu se tornar mais densa ao redor da cama. Deitou sobre mim, pesado, o cheiro de whisky forte misturado a perfume barato atingindo meu nariz como veneno. Eu sabia dizer o cheiro de cada mulher com quem ele se deitava antes de vir para casa me usar. Cada fragrância diferente marcava mais um dia em que eu deixava de existir. Com brutalidade, ele rasgou meu pijama. A calcinha veio junto, arrancada como se meu corpo não fosse nada além de um objeto descartável. Meu estômago revirou, e uma náusea profunda subiu pela minha garganta. Eu não chorava mais, meu corpo já tinha aprendido que chorar só piorava. Cada dia, eu morria um pouco mais por dentro. Cada dia, eu sentia mais ódio de mim por suportar aquilo. Por ainda respirar. Ele me forçou, empurrando seu corpo contra o meu, e a repulsa tomou conta de mim por inteiro. Tentei virar o rosto quando ele desceu para me beijar, e isso foi o suficiente para despertar nele aquela fúria animalesca. O tapa veio seco, forte o bastante para que o gosto metálico do sangue se espalhasse pela minha boca. Meus olhos arderam, mas eu me neguei a chorar. Ele agarrou meu rosto com violência, seus dedos enterrados na minha pele enquanto seu olhar vidrado, transtornado, me encarava. Era o olhar de alguém capaz de matar. E pela primeira vez, eu realmente acreditei que naquela madrugada eu não sairia viva. Ele começou a me sufocar, as mãos apertando meu pescoço, enquanto continuava a me invadir e machucar. A visão começou a escurecer pelas bordas. Senti meus dedos formigarem, um zumbido distante tomava meus ouvidos. Eu estava apagando. Numa última tentativa desesperada, usei forças que eu nem sabia que ainda existiam. Tateei a mesa de cabeceira, os dedos tremendo até encontrarem a superfície fria do vaso de cristal. Levantei o braço com o pouco ar que restava e golpeei a cabeça dele. O impacto ecoou no quarto. Ele caiu pesado sobre mim, inerte, sujo, sufocante, e o sangue dele escorreu no meu rosto e peito, quente, viscoso, me cobrindo como um aviso do que fiz. Empurrei o corpo dele com dificuldade, o coração batendo tão rápido que eu mal conseguia coordenar meus movimentos. Eu queria que ele estivesse morto. Eu desejava que ele estivesse morto. Mas eu nunca tive sorte o suficiente para isso... Tropecei até o armário, puxei a primeira roupa que encontrei e vesti sem nem olhar no espelho. Minhas mãos estavam sujas, meus braços tremiam, meu corpo inteiro parecia querer desmoronar ali mesmo. Peguei o celular. Nada mais. Nenhum documento, nenhuma bolsa, nenhuma lembrança. Eu estava fugindo da minha vida, e aquilo era tudo. Saí do quarto e desci as escadas quase correndo, cada passo ecoando como se ele pudesse acordar a qualquer momento. No corredor, pedi um Uber para o primeiro endereço que apareceu. Não me importava para onde. Só queria ir embora. Corri para fora da casa, o ar gelado batendo no meu rosto quente e machucado. Segui até a esquina onde, por erro do GPS, os carros costumavam parar. Um sedan preto estava ali. Abri a porta e entrei sem pensar. Minhas mãos tremiam tanto que cheguei a derrubar o celular. Meu corpo inteiro estava em estado de choque. O motorista, um homem tatuado, olhar frio, me observou pelo retrovisor como se minha presença ali fosse uma surpresa… ou um problema. — Posso ajudar? — a voz dele era baixa, grave. — Eu… eu preciso sair daqui. Agora. Por favor — minha própria voz soou estrangulada, trêmula, diferente de mim mesma. Ele olhou mais uma vez pelo retrovisor, avaliando cada detalhe. — Pra onde a senhora quer ir? Eu engoli seco. — Pra longe — respondi quase sem voz. — Longe daqui. Qualquer lugar. Só… vai.Capítulo 40Um Ano DepoisHelena BaldinParece pouco quando se fala, mas quando se vive… é uma eternidade inteira.E, pela primeira vez na minha vida, uma eternidade boa.A casa Guimarães, nossa casa, parecia respirar de um jeito diferente. Quando cheguei aqui, eu estranhava o silêncio, o espaço, os corredores longos. Agora, tudo era preenchido pela risada de Léo, pelo barulho dos cachorros correndo atrás dele, pelas conversas rápidas que Dante e eu tínhamos entre um compromisso e outro.Eu nunca imaginei voltar a ter rotina.Muito menos uma feliz.Mas ali estava eu, com a xícara de café quente entre as mãos, olhando pela varanda para o quintal enquanto meu filho corria com Thor e Nina, os dobermans gigantes que tinham virado seus guarda-costas pessoais. Léo gritava, ria, caía, levantava. A luz do fim de tarde desenhava ouro no cabelo dele.Ele estava tão diferente de quando chegou.Mais leve.Mais solto.Mais criança.Um ano de amor faz milagres que mesmo toda a dor do mundo não con
Capítulo 39Dante GuimarãesGabriel e Vittorio chegaram cedo, cada um carregando uma pasta preta, expressão de missão cumprida e cansaço guardado atrás dos olhos. O tipo de olhar que só homens que enfrentam monstros conseguem carregar.Eu sabia o que significava.Hoje, o filho de Helena, deixaria de existir apenas na dor, no silêncio e nas memórias roubadas.Hoje, ele seria dela, seria nosso.De verdade.No papel, no mundo.Entrei na sala de estar e encontrei Helena sentada no tapete com Léo, o menino desenhando um dinossauro torto enquanto ela narrava a história com aquela voz baixa que acalmava até meu inferno interno.Ela levantou os olhos para mim.Aquele sorriso pequeno, cansado e vitorioso ao mesmo tempo.— Eles chegaram? — ela perguntou.— Chegaram. — estendi a mão para ela levantar.Léo segurou meus dedos antes que eu pudesse me mover.Automático.Instintivo.Como se sempre tivesse feito isso.Quase fez.Levei os dois comigo. Nada mais de segredos. Nada mais de portas fechadas
Capítulo 38Helena BaldinA Casa Torricelli estava silenciosa demais.Não o silêncio de calmaria.Mas o tipo de silêncio que vem antes de uma revelação que pode mudar a vida de alguém para sempre.Cada passo meu ecoava no mármore como se gritasse que eu não estava pronta, mesmo sabendo que não existia preparação possível para o que viria.Meu filho.Meu menino.Cinco anos perdido de mim.Cinco anos vivendo um nome que não era dele.Cinco anos ouvindo uma mulher que nunca o quis de verdade, chamá-lo de “arrependimento”. E agora eu sei que nem foi por amor, malditos.Eu precisava ser forte por ele.Mais forte do que fui em qualquer dia da minha vida, até mesmo nesses últimos dias.As portas duplas da sala se abriram quando uma das empregadas me viu se aproximar. Ela fez uma pequena reverência — um gesto quase automático desde que Dante assumiu a casa — e então sorriu com um carinho tímido.— Ele está esperando, senhora.Meu coração se apertou.Eu respirei fundo.E entrei.Ele estava sen
Capítulo 37Helena BaldinO cheiro de pólvora ainda ardia no ar quando o disparo ecoou pela última vez.Um som seco.Final.Irreversível.Eduardo cambaleou para trás com os olhos arregalados, as pupilas dilatadas como se estivessem tentando capturar a realidade que, pela primeira vez, ele não conseguia controlar.A boca dele se abriu.Uma bolha de sangue surgiu no canto dos lábios.Depois outra.E outra.O vermelho escorreu pelo queixo, quente, espesso, quase negro sob a luz fraca do galpão. Ele ergueu a mão algemada, como se quisesse me tocar ou me atingir pela última vez, eu não sabia dizer.Talvez nem ele soubesse.— Você… — ele tentou falar, mas a palavra morreu na garganta junto com ele.Eu não recuei.Não tremi.Não fechei os olhos.Eu encarei.Vi o fim acontecer bem na minha frente.Vi o homem que me quebrou… quebrar.E só então percebi que eu estava respirando rápido demais, fundo demais, como se meus pulmões estivessem tentando recuperar todos os anos que passei sufocada.Edu
Capítulo 36Helena BaldinO galpão abandonado cheirava a ferrugem, pólvora velha e podridão humana.Era o cenário perfeito para um fim.Ou para um renascimento.Eu entrei primeiro.Meus passos ecoaram no chão de cimento rachado, marcando cada batida do meu coração. Atrás de mim, Dante acompanhava de perto, o olhar afiado, postura preparada. Ele era a muralha ao meu redor.Mas não era o escudo.Não hoje.Porque hoje eu não precisava de proteção.Eu precisava de testemunhas.Eduardo estava no centro do galpão, algemado, mas de pé. Dois dos homens de Gabriel o mantinham sob controle. Ele levantou o rosto quando me ouviu entrar. E sorriu.O mesmo sorriso que me destruiu anos atrás.Mas agora…agora era diferente.— Helena… — ele disse, como se meu nome fosse um sabor. — A mulher que eu fiz. A mulher que eu moldei. A mulher que sempre foi minha obra-prima, a esposa perfeita e casta.Meu estômago virou, mas não desviei os olhos.— Eu não sou sua obra — respondi, firme. — Eu sou o seu erro,
Capítulo 35Dante GuimarãesO sol se escondia atrás das encostas da costa amalfitana quando começamos a descida. As estradas estreitas de Sorrento serpenteavam como lâminas afiadas contornando o penhasco, e a cada curva eu sentia a tensão aumentar.Não era medo.Era expectativa.Era a sensação clara de que a caça depois de tanto tempo finalmente encostava no canto.Helena estava ao meu lado, olhando pela janela escurecida do carro como se estivesse calculando a própria respiração.Não disse uma palavra durante todo o trajeto.Mas não precisava.Ela não pensava em si.Não pensava em mim.Não pensava em nada além do que estava prestes a fazer.E eu sabia:se eu vacilasse um segundo, ela se jogaria sozinha na boca do lobo.— Dante, estamos a quinze minutos da propriedade. — A voz de Gabriel estourou no fone de ouvido do carro. — Nosso pessoal já está no perímetro. Nada do Eduardo perceber.Helena inclinou o rosto, pegando o fone pela minha mão como se fosse dela.— Ele tentou despistar?
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