Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 04
Helena Baldin Eu estava perdida, com o coração batendo descompassado e a mente girando em círculos. Ele realmente iria me entregar para aquele desgraçado? Mal percebi o amanhecer, e o tempo parecia escorrer pelos meus dedos como água suja. Havia uma coisa da qual eu tinha certeza: a sorte de escapar dele não estava do meu lado. —Samara, leve a Helena lá pra cima, instale ela no quarto de hóspedes. Vou receber esse porra! A voz firme, carregada de comando, fez meu corpo tremer. —Você não vai me entregar pra ele? — perguntei, a voz trêmula, tentando agarrar alguma certeza. —Entregar você? Por que eu faria uma merda dessas? Sobe, anda! Depois conversamos. Subi as escadas, cada degrau pesado como se carregasse todo meu medo e exaustão. Uma mistura de alívio e confusão me consumia, mas eu não conseguia entender nada daquilo. —Aqui, senhorita. Pode ficar à vontade. —É Samara, né? Quem é ele? Me diz por favor, estou segura aqui? As palavras saíram atropeladas, desesperadas, quase um grito sufocado. —Não posso falar nada sobre o seu Dante, mas se você está aqui, debaixo do teto dele, está segura. Só isso posso dizer. A mulher de meia-idade saiu, deixando-me com as perguntas retorcidas na garganta e o coração acelerado. Olhei em volta do quarto luxuoso, com tons escuros e silenciosos, como se a vida tivesse se esquecido de existir ali. As paredes grossas me isolavam do mundo, mas não da angústia. Encostei-me à porta, tentando ouvir qualquer som lá fora, qualquer conversa que me desse pistas sobre ele ou sobre o Eduardo. Mas não havia nada. Só o eco do meu próprio medo. Andei pelo quarto, incapaz de ficar parada. Cada passo ecoava em meu peito, cada sombra parecia ameaçar me engolir. Qualquer vida parecia melhor do que a que eu tinha com o Eduardo. O celular estava quase sem bateria. Digitei o nome "Dante", mas a tela me devolveu mil resultados inúteis antes que eu conseguisse filtrar algo. Desligou. Merda. Sentei na cama, sentindo o cansaço e a exaustão me dominarem, e apaguei. “Helena… Helena…” O chamado me despertou com um sobressalto. Meu corpo encolheu instintivamente. O trauma da violência sempre fala primeiro, antes da razão. Mas era ele. O homem tatuado, imponente e silencioso. Pelo menos agora eu sabia seu nome: Dante. —Ele já foi, podia ter tomado um banho, descansado de verdade — comentou, a voz grave, como se nada pudesse ser simples quando ele estava por perto. —O que ele queria aqui? Como ele sabia que eu estava aqui? — perguntei, tentando engolir o medo que subia pela garganta. —Ele não sabe. Ele veio cuidar de negócios… E me contou uma história triste: a mulher dele é ciumenta, bateu nele esta noite por ciúmes e depois foi embora. Coisa que ela sempre faz, pra justificar o corte na testa… —Ciúmes? Meu sonho sempre foi que ele arrumasse outra e me deixasse em paz… — falei, baixando a cabeça, a vergonha e o desespero misturados. Ele me fitou, atento, como se tentasse ler não apenas minhas palavras, mas minha alma. —Eu sei. Já investigo esse noia há muito tempo. Mas me diz… mata minha curiosidade, por que não saiu antes? —Porque nem uma denúncia eu posso fazer. Ele manda na porra da polícia! — Minha voz falhou, e os olhos arderam. Segurei as lágrimas, respirando fundo para não desmoronar. Ele permaneceu em silêncio, analisando cada gesto, cada sombra que meu corpo projetava, procurando algo mais profundo nas entrelinhas do que eu dizia. —E você quer mesmo sair dessa vida? — sua voz era baixa, mas carregada de intensidade, fazendo meu coração apertar. —Até a morte é melhor do que ser violada, machucada, destruída todos os dias — respondi, firme, apesar do tremor que ainda percorria meu corpo. Ele me olhou, e por um instante senti que enxergava cada cicatriz, cada medo, cada fragmento do que eu havia sido. Então, sem dizer mais nada, levantou-se e saiu do quarto. Mas parou na porta. —Tome um banho e descanse. Samara vai trazer roupas limpas para você. —Espera! Eu vou ficar presa aqui? — perguntei, a ansiedade explodindo em minha garganta. —Você não está presa, está segura. Quer ir para onde? Fiquei em silêncio, o coração martelando, a mente confusa. —Foi o que imaginei! — disse ele, com aquele tom de quem entende cada sombra da alma alheia. Eu não sabia se o medo diminuía ou se apenas mudava de forma. Mas uma coisa era clara: ali, sob o mesmo teto que Dante, aparentemente eu estava inalcançável por aquele monstro que um dia jurei amar até que a morte nos separasse.






