Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 06
Dante Guimarães O mundo sempre pareceu dividir-se entre os que têm poder e os que não têm. Eu aprendi isso cedo, muito cedo. Aos dezoito anos, meu pai estava prestes a matar minha mãe. Eu o vi levantar a mão para um golpe final, e então algo dentro de mim quebrou, sem qualquer limite de hesitação. Não pensei. Não senti medo. Só agi. Ele morreu pelas minhas mãos. Vivi minha infância toda, vendo ele bater, trair, abusar, dela, mas naquele instante eu só vi o ódio me consumir, apenas agi. E naquele dia, herdei tudo: o império do jogo do bicho do Rio de Janeiro, e os inimigos, e também o poder, e toda a responsabilidade. Minha mãe se mudou para fora do país logo depois, deixando para trás o legado de sangue e a violência que ela não suportava. Vive a vida que quer, longe de tudo isso, e não a culpo. Eu mesmo, no entanto, aprendi a confiar apenas em mim. A polícia? Não passam de peças jogando num tabuleiro que conheço melhor que ninguém. Pago, observo, e manipulo. Mas jamais confio. Nenhum deles é confiável. Nenhum. Bando de noia vagabundo. Foi assim que comecei a observar o Sargento Eduardo. No início, parecia apenas mais um obstáculo, alguém que cruzou errado meu caminho sem perceber o perigo que representava. Mas quando percebi seus malditos movimentos, a forma como levava informações para os inimigos sorrateiramente, comecei a investigar cada detalhe da sua vida pessoal. Precisava entender o que ele mais prezava, o que ele mais abominava, para poder usar isso contra ele. E então encontrei o que precisava. O reflexo mais podre daquilo que eu considerava intolerável: Eduardo abusava da própria esposa. Ela, indefesa, fechada em um ciclo de violência diária. Aquilo me fez sentir algo que há muito tempo eu não sentia, uma espécie de justiça antecipada. Havia muitas formas de destruir alguém, mas quando a arma é a própria consciência do inimigo, não há defesa possível. E eu vou acabar com ele. E como uma jogada do destino ela caiu no meu colo de bandeija, Helena. Depois de mais um ciclo de violência ela saiu de casa e entrou no meu carro, vindo a mim sozinha, como um presente dos Deuses... Foi ela quem me fez confirmar tudo. A forma como ele a tratava, a humilhação, a violência silenciosa, os gritos sufocados. Eu sabia que ela fugiria dele na primeira oportunidade, mas a sorte estava do meu lado nesse dia. E agora quando enfim percebeu ela estava viva, vulnerável, e agora sob meu teto, entendi que a oportunidade era perfeita. A arma agora estava posicionada. Observei-a enquanto almoçava. Cada gesto era medido, cada movimento revelava medo, fragilidade e, ao mesmo tempo, uma força que ainda não tinha descoberto. Ela não sabia, mas havia algo nela que me fascinava. Não era só beleza; era resistência. Uma chama que insistia em permanecer acesa mesmo sob a pressão esmagadora da vida. Fui paciente. Sempre fui paciente. Nada se conquista apressadamente quando se tem o poder. E a verdade é que Helena, por mais indefesa que parecesse, agora estava sob minha proteção. Não por bondade, nunca fiz nada por bondade, mas porque precisava dela inteira para que Eduardo conhecesse o verdadeiro significado do medo. Ela se assusta facilmente, é verdade. Mas há algo na forma como seus olhos evitam os meus, que me provoca algo que vai além do simples desejo de proteger ela. A curiosidade que surge quando percebe que não pode me decifrar, que não consegue prever meus movimentos, é perigosa. Mas também… extremamente excitante. Não sou homem de tocar antes do necessário. A confiança se conquista com estratégia, não com gestos impulsivos. E Helena ainda não sabe nada sobre o que se aproxima. Mas quando tudo começar, quando a peça final estiver no tabuleiro, ela entenderá: eu sempre controlo o jogo. Sempre. Agora, minha mente volta completamente para Eduardo. Ele será destruído. Pela pessoa que ele julgava fraca demais, é simplesmente a arma perfeita pra destruir um merda como ele. Helena… bem, ela é a arma mais forte contra esse corrupto de merda. Mas ao mesmo tempo me pergunto, o porquê algo nela meche tanto comigo, existe algo nela que me cativa de um jeito que nenhuma outra já fez, nunca me apeguei a mulher alguma, mas ela tem isso, tem algo diferente, espero que isso não me atrapalhe quando eu precisar dar o cheque mate. Subi no ponto de observação, e olhei a cidade do alto por algum tempo, sentindo o calor do sol filtrado pelas cortinas pesadas, e uma certeza crescia dentro de mim: nada e nem ninguém, nem mesmo a polícia ou os inimigos, vão escapar do meu controle. E Helena… ela estava prestes a descobrir o preço de cruzar com o bicheiro Dante Guimarães.






