Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 07
Dante Guimarães Já fazem alguns dias que Helena está na minha casa. Dias em que o Sargento Eduardo Silveira tem virado o Rio de Janeiro de cabeça para baixo atrás dela, vasculhando becos, movimentando gente, fazendo barulho. E mesmo assim… Nem um rastro. Eu sou melhor. Desci para tomar café, como faço todas as manhãs, e ela estava lá, sentada à mesa, as mãos em volta da xícara como se tentasse aquecer a alma, e os olhos sempre distantes. Ela não faz perguntas, não pede nada, não exige explicações. Ela apenas sobrevive. Ela tem sido uma ótima sobrevivente. — Bom dia, Helena — falei, quebrando o silêncio. Ela levantou lentamente o olhar. — Bom dia, Dante. Seu tom sempre é o mesmo: medido, contido, quase vazio. Mas eu enxergo o que existe por trás. Medo. Confusão. E uma chama quase apagada, que eu pretendo reacender com fogo e sangue. — Após o café, temos algumas coisas para alinhar — informei, bebendo um longo gole. — Já deu tempo de acalmar os nervos. Ela engoliu seco. Não respondeu. Não precisa. O silêncio dela diz tudo. Depois do café, ela apenas me seguiu até o escritório. Sempre em passos curtos, sempre sem saber o que esperar, sempre tentando manter a pose, aquela falsa calma que ela aprendeu para sobreviver. — Senta — ordenei. Ela obedeceu, mesmo com o olhar denunciando que estava à beira de desabar. Eu me encostei na mesa, cruzando os braços. — Aquele bostinha do teu marido se meteu onde não devia… — comecei, vendo o leve tremor correr pelas mãos dela. — E com isso acabou entregando coisas minhas que ele não devia ter visto. Comecei a seguir ele, entender suas rotinas… e por sorte estava lá como seu Uber naquele dia. Os olhos dela escureceram. Era medo… e expectativa. Ela esperou explicações a vida inteira. Aproximei-me devagar, sentindo o ar entre nós eletrificar. — Que seu marido é um bosta corrupto você já sabe, mas o que talvez não saiba é que eu não gosto de ser passado pra trás. E gosto menos ainda de abusadores filhos da puta. — Inclinei a cabeça, observando cada mínimo movimento dela. — Você deve estar se perguntando onde eu quero chegar, certo? Ela respirou fundo. — Sim. Vou ser moeda de troca? — perguntou sem desviar o olhar, mesmo com a voz trêmula. Sorri. Lento. Cruel. — Quase isso. Mas no seu caso… seria mais um tesouro, não acha? Abaixei o rosto até ficar tão próximo que eu podia sentir sua respiração roçar na minha pele. Ela ofegou. Perigo. Desejo. Revolta. Tudo misturado. — Eu quero ver você acabar com ele — continuei, a voz baixa, arrastada. — Quero ver ele pagar por tudo o que te fez. Quero ver ele destruído. E quem ficar ao lado dele? Vai cair junto. Ela piscou rápido. — Eu não estou entendendo o que quer de mim, Dante… — Quero que se una a mim. — Minha boca quase tocou a dela. — O começo da humilhação dele vai ser ver a esposa ao lado do bicheiro. A minha rainha. A mulher que vai ter o poder de destruição nas mãos. Os olhos dela se arregalaram. Choque. Medo. Uma pontinha de algo que ela tenta negar. — Achei que você ia me entregar pra ele — ela sussurrou. — Em troca de conseguir o que queria. Passei o dedo pelo queixo dela, erguendo seu rosto. — Você ainda não entendeu que ele nunca mais vai te tocar? — rosnei. — Eu não vou permitir isso. Aproximei tanto dela que bastava um milímetro para nossos lábios se encontrarem. Ela tremia. Mas não se afastava. E foi nesse instante, exatamente quando o mundo parecia encolher para caber entre nós dois... Que a maldita porta do escritório se escancarou. — Dante! Por que você não me buscou no aeroporto?! A voz inconfundível da minha mãe cortou a tensão como uma navalha. Helena congelou. Eu recuei um passo, virando-me totalmente para ela. — Dona Sônia Guimarães… você não chegaria amanhã? — perguntei, tentando manter a compostura. Minha mãe entrou, elegante e afiada como sempre, os olhos dela indo de mim para Helena, analisando, julgando, montando suas próprias conclusões em segundos. — Helena, pode sair — murmurei, sem desviar o olhar de minha mãe. — Terminamos depois. Aproveite para pensar. Ela se levantou tão rápido que quase tropeçou. Acenou para minha mãe, constrangida, e saiu como um vendaval, não sei se fugindo do medo… ou do que estava nascendo entre nós, ou talvez dos dois. Minha mãe esperou a porta fechar para cruzar os braços. — Quem é essa moça tão linda? — perguntou, com aquele sarcasmo irritante. — Certamente não é uma dessas vagabundas que você costuma trazer pra cá. Rolei os olhos. — Mãe, faz mais de dez anos que você não aparece aqui. O que acha que sabe da minha vida? — Tudo — respondeu, firme. — Sei que você está perdido. Sei que nunca vou ter netos desse jeito. Sei absolutamente tudo o que você faz, Dante. Sorri torto. — Bom… se sabe tudo, deve saber quem é Helena então. — Não. — Ela franziu a testa. — Só sabia que você estava escondendo alguém aqui. Mas não sabia quem… nem por quê. Soltei minha risada anasalada. Claro que ela não sabia. Ela só sabe o que eu deixo saber. E Samara, a funcionária que minha mãe contratou para ser seus olhos e ouvidos, só vê o que eu permito que ela veja. Mas antes que eu pudesse responder, o celular da minha mãe vibrou. Ela atendeu na minha frente. E o sangue dela pareceu gelar. — Dante… — ela murmurou, desligando devagar. — Precisamos conversar. Agora. Algo nos olhos dela… algo que raramente vejo… Medo. Um temor silencioso, profundo, carregado de urgência. Um temor que só pode significar uma coisa: Algo aconteceu com meu irmão...






