Capítulo 02

Capítulo 02

Helena Baldin

Ele acelerou tão rápido que os pneus chiaram no asfalto.

Eu só consegui fechar os olhos e tentar respirar.

Alguns minutos depois, o celular vibrou na minha mão.

Uma mensagem:

“O motorista está cancelando a corrida por tempo de espera.”

Meu sangue gelou.

Meus olhos subiram lentamente para o retrovisor.

Eu entrei no carro errado.

Não era o Uber.

Não era ninguém que eu conhecia.

E agora, presa ali, no meio da madrugada, com um estranho que não pediu explicações…

Eu não fazia ideia do que iria acontecer.

O celular escorregou da minha mão. Não senti o impacto quando bateu no carpete do carro, o choque percorria meu corpo inteiro, gelando meu sangue, travando meus músculos.

Eu não estava no Uber.

Eu estava no carro de um desconhecido.

E ele estava dirigindo rápido demais.

A respiração ficou presa na garganta. Era como se eu estivesse me afogando no ar que tentava puxar.

Lentamente, o homem levou a mão até a tela no painel e desligou o Bluetooth, silenciando a música que ecoava pelo carro.

Nenhuma expressão no rosto.

Nada que revelasse se ele estava irritado, curioso… ou satisfeito.

As luzes dos postes passavam pela janela iluminando, por breves instantes, partes do rosto dele mandíbula marcada, barba por fazer, tattoos subindo pelo pescoço.

Ele não parecia um homem que se surpreendia com muita coisa.

Nem um homem que costumava ouvir “não”.

O tipo de presença que exigia silêncio, controle, obediência… sem precisar falar nada.

Senti minha garganta arranhar quando tentei engolir o medo.

— Eu… — minha voz falhou, saindo frágil demais. — Eu achei que você fosse…

— Um Uber. Eu percebi. — Ele me cortou, sem sequer olhar para mim. A voz grave era um contraste com o silêncio do carro, quase uma ordem. — E não era?

Minhas mãos se fecharam sobre os joelhos. A verdade me golpeou com força.

Eu precisava sair dali.

Eu precisava fazer alguma coisa.

— Então… pode me deixar em qualquer lugar. Qualquer esquina serve — tentei, a voz rouca, quase implorando. — Eu desço.

Ele virou o rosto pela primeira vez para me encarar diretamente.

O olhar dele não era curioso.

Não era irritado.

Era calculado.

Como se estivesse me lendo, e entendendo mais do que eu estava dizendo.

Um olhar de quem já viu desespero muitas vezes… e sabia quando ele era real.

— Não vou te deixar na rua — disse simplesmente.

A frase, para qualquer outra pessoa, poderia soar gentil.

Mas naquele tom… não era.

Era uma sentença.

Uma decisão tomada por ele, não por mim.

Meu estômago afundou.

O carro virou numa rua que não reconheci. Casas antigas, faróis apagados, um bairro em que eu jamais colocaria os pés sozinha.

— Você está machucada — ele disse, os dedos batendo no volante com impaciência contida. — Sangue no canto da sua boca. Pulso vermelho. Respiração curta. Alguém quase te matou hoje.

Meu peito travou.

Ele viu tudo isso sem nem olhar diretamente para mim?

Quem diabos era esse homem?

— Não é da sua conta — sussurrei, porque era a única defesa que eu tinha.

Ele riu.

Baixo.

Sem humor.

Aquele tipo de riso que arrepia a espinha.

— Você entrou no meu carro como se estivesse fugindo de um incêndio — a voz dele estava tão contida que parecia perigosa. — Isso te faz da minha conta, sim.

Meu coração bateu tão forte que eu senti a pulsação nas têmporas.

— Eu não deveria estar aqui — meus olhos ardiam. — Eu só queria ir embora…

— E foi exatamente isso que você fez — ele rebateu. — Entrou no primeiro carro aberto, sem olhar, sem pensar. Isso não é fuga. Isso é desespero.

O silêncio que veio depois não era vazio.

Era afiado.

Cortava, sufocava.

O carro começou a desacelerar.

Eu prendi a respiração, o pânico crescendo em ondas.

Ele avançou a mão para o painel e acionou o bloqueio das portas.

O som seco do travamento sacudiu meu estômago.

— O que você está fazendo? — minha voz saiu num fio, quebrada.

Ele virou o rosto de novo, dessa vez sem pressa.

Seu olhar desceu para minha roupa desalinhada, depois para meu pescoço marcado, meus pulsos tremendo.

Havia algo diferente ali.

Não era luxúria.

Não era piedade.

Não era bondade.

Era posse.

Algo gelado, preciso.

Uma decisão que ele tomou sem me consultar.

— Estou te levando para um lugar seguro.

— Eu não te conheço.

— Mas você entrou no meu carro. — A voz dele era um golpe suave. — E eu não deixo ninguém sair no meio do caminho.

Um arrepio subiu pela minha coluna, queimando a pele.

Ele virou a esquina e o carro entrou em um galpão antigo, que só percebi quando o portão automático começou a subir.

Luzes fracas iluminaram uma garagem enorme, silenciosa, com outros carros pretos estacionados em série.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

Ele estacionou, desligou o motor e então me olhou com uma intensidade que parecia atravessar todas as camadas que eu tentava proteger.

— Antes de sair do carro, Helena… — meus pulmões travaram quando ele disse meu nome, mesmo eu nunca tendo dado. — Você vai respirar fundo.

Ele inclinou a cabeça, os olhos fixos nos meus.

— E não vai mentir pra mim.

Eu não respondi.

Não conseguia.

Ele abriu a porta, contornou o carro lentamente… e veio até o meu lado.

Cada passo dele parecia aproximar meu destino de algo que eu nem entendia ainda, mas sentia na pele.

Quando ele abriu minha porta, estendeu a mão para mim.

Não era um convite.

Era um comando silencioso.

— Sai — ele disse baixo. — A sua vida antiga acabou no momento em que você entrou no meu carro.

E, por mais que eu quisesse negar, parte de mim sabia que ele estava certo.

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