Pedi um Uber, me tornei rainha da máfia do jogo do bicho
Pedi um Uber, me tornei rainha da máfia do jogo do bicho
Por: Ravena
Capítulo 01

Capítulo 01

Helena Baldin

Acordei com o coração disparado, como se tivesse sido arrancada de um pesadelo mas a verdade é que eu vivia nele.

O relógio do celular marcava pouco depois das três da manhã. Tive um segundo de alívio: ele não estava em casa.

Um dia a menos de guerra.

Um dia a menos de ser usada, machucada, diminuída.

Minha mente implorava perdão a Deus por desejar, tantas vezes, que ele nunca mais voltasse. Por sonhar, mesmo que por um fragmento de pensamento, com a liberdade que só a ausência dele seria capaz de me dar.

Mas comemorei cedo demais.

A porta da frente abriu com força aquele estalo seco que atravessava meu peito como uma lâmina.

Virei para o lado, fechei os olhos e fingi dormir. Minha única defesa era a imobilidade. Se eu não respirasse fundo, talvez ele acreditasse. Talvez ele simplesmente deitasse e apagasse.

Mas os passos subindo a escada eram como marteladas no meu estômago, cada pisada carregando o peso de uma ameaça silenciosa.

Senti minha respiração falhar, por mais que eu tentasse mantê-la calma.

Ele entrou no quarto.

E a escuridão pareceu se tornar mais densa ao redor da cama.

Deitou sobre mim, pesado, o cheiro de whisky forte misturado a perfume barato atingindo meu nariz como veneno.

Eu sabia dizer o cheiro de cada mulher com quem ele se deitava antes de vir para casa me usar.

Cada fragrância diferente marcava mais um dia em que eu deixava de existir.

Com brutalidade, ele rasgou meu pijama.

A calcinha veio junto, arrancada como se meu corpo não fosse nada além de um objeto descartável.

Meu estômago revirou, e uma náusea profunda subiu pela minha garganta.

Eu não chorava mais, meu corpo já tinha aprendido que chorar só piorava.

Cada dia, eu morria um pouco mais por dentro.

Cada dia, eu sentia mais ódio de mim por suportar aquilo. Por ainda respirar.

Ele me forçou, empurrando seu corpo contra o meu, e a repulsa tomou conta de mim por inteiro.

Tentei virar o rosto quando ele desceu para me beijar, e isso foi o suficiente para despertar nele aquela fúria animalesca.

O tapa veio seco, forte o bastante para que o gosto metálico do sangue se espalhasse pela minha boca.

Meus olhos arderam, mas eu me neguei a chorar.

Ele agarrou meu rosto com violência, seus dedos enterrados na minha pele enquanto seu olhar vidrado, transtornado, me encarava.

Era o olhar de alguém capaz de matar.

E pela primeira vez, eu realmente acreditei que naquela madrugada eu não sairia viva.

Ele começou a me sufocar, as mãos apertando meu pescoço, enquanto continuava a me invadir e machucar.

A visão começou a escurecer pelas bordas.

Senti meus dedos formigarem, um zumbido distante tomava meus ouvidos.

Eu estava apagando.

Numa última tentativa desesperada, usei forças que eu nem sabia que ainda existiam. Tateei a mesa de cabeceira, os dedos tremendo até encontrarem a superfície fria do vaso de cristal.

Levantei o braço com o pouco ar que restava e golpeei a cabeça dele.

O impacto ecoou no quarto.

Ele caiu pesado sobre mim, inerte, sujo, sufocante, e o sangue dele escorreu no meu rosto e peito, quente, viscoso, me cobrindo como um aviso do que fiz.

Empurrei o corpo dele com dificuldade, o coração batendo tão rápido que eu mal conseguia coordenar meus movimentos.

Eu queria que ele estivesse morto.

Eu desejava que ele estivesse morto.

Mas eu nunca tive sorte o suficiente para isso...

Tropecei até o armário, puxei a primeira roupa que encontrei e vesti sem nem olhar no espelho. Minhas mãos estavam sujas, meus braços tremiam, meu corpo inteiro parecia querer desmoronar ali mesmo.

Peguei o celular.

Nada mais.

Nenhum documento, nenhuma bolsa, nenhuma lembrança.

Eu estava fugindo da minha vida, e aquilo era tudo.

Saí do quarto e desci as escadas quase correndo, cada passo ecoando como se ele pudesse acordar a qualquer momento.

No corredor, pedi um Uber para o primeiro endereço que apareceu. Não me importava para onde.

Só queria ir embora.

Corri para fora da casa, o ar gelado batendo no meu rosto quente e machucado.

Segui até a esquina onde, por erro do GPS, os carros costumavam parar.

Um sedan preto estava ali.

Abri a porta e entrei sem pensar. Minhas mãos tremiam tanto que cheguei a derrubar o celular.

Meu corpo inteiro estava em estado de choque.

O motorista, um homem tatuado, olhar frio, me observou pelo retrovisor como se minha presença ali fosse uma surpresa… ou um problema.

— Posso ajudar? — a voz dele era baixa, grave.

— Eu… eu preciso sair daqui. Agora. Por favor — minha própria voz soou estrangulada, trêmula, diferente de mim mesma.

Ele olhou mais uma vez pelo retrovisor, avaliando cada detalhe.

— Pra onde a senhora quer ir?

Eu engoli seco.

— Pra longe — respondi quase sem voz. — Longe daqui. Qualquer lugar. Só… vai.

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