Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 08
Dante Guimarães Fiquei encarando minha mãe, esperando que falasse logo o que estava acontecendo. Mas, ao invés disso, ela se serviu de um whisky, virou o copo inteiro como se estivesse criando coragem. Isso nunca era bom sinal. — Você sabe que tirei o Vittorio daqui porque não queria que ele seguisse essa vida — começou ela, voz cansada. — Aliás, nem você queria que seguisse essa vida, mas… — Mas o que esse bostinha aprontou agora? — rosnei, já sentindo a dor de cabeça crescer. Ela respirou fundo. — Ele tem se envolvido com a máfia italiana… — Eu não tenho poder na Itália, mãe! — bati a mão na mesa, irritado. — Eu sei, Dante… mas e se você tentar alguma aliança? Eu preciso impedir que ele continue com isso. Fechei os olhos por um segundo, tentando controlar o impulso de quebrar alguma coisa. — O que exatamente o Vittorio está fazendo? — perguntei entredentes. — Ele está… namorando a bisneta do Don Massimo. E esse homem não aceita ninguém de fora. Ou morre, ou entra para a máfia. Soltei uma risada sem humor. — As coisas lá são diferentes demais, mãe. O Vittorio nunca participou de NADA do nosso mundo. Ele não sabe onde está se metendo. Ele definitivamente não tem culhão pra segurar essa família… quem dirá uma dona Sônia versão italiana. — Exatamente! Mas ele não me escuta, Dante. Ele não me escuta! — ela parecia desesperada. — Eu preciso que você resolva. Afastei a cadeira, passei a mão no rosto. Eu já estava atolado até o pescoço com milícia corrupta, polícia vendida, Helena na minha casa… e agora a porra da máfia italiana? — É sério isso? — perguntei, rindo de desespero. — Eu tô cheio de nó pra desatar aqui e ainda vou ter que enfrentar mafioso da Itália porque o filhinho da mamãe só faz merda? Fitei minha mãe por alguns segundos. No fundo, eu sabia que ia ajudar. Família é uma âncora e uma algema — e eu sempre fui fiel às duas coisas. — Esse merda pelo menos veio? — perguntei. — Não. Ele não desgruda da garota… Revirei os olhos. — Claro. Tomou o primeiro chá da vida e ficou assim. Se tivesse deixado o moleque viver que nem homem, não tava desse jeito. Ela bufou e virou o celular na minha direção. Uma foto da menina apareceu. Eu me aproximei. E, pela primeira vez naquela conversa, fiquei sem palavras. — Porra… — murmurei. — Garoto esperto. A menina parece uma princesa. Uma… Branca de Neve. — Exatamente assim que chamavam a avó dela — respondeu minha mãe. — Ah, o bom gosto é de família então — resmunguei. Passei a língua nos dentes e devolvi o celular. — Avisa ele que quero ele aqui em 24 horas. Se não vier, eu mando metade dos meus homens buscar ele… e aí, sim, eu começo uma guerra com a Itália. Meu tom era baixo. Perigoso. — Dante… — Se quer ser homem, vai aprender primeiro. — Ele não vai querer vir — ela insistiu, quase suplicante. Eu a encarei com dureza. — Mãe… eu não dei opção. Ou vem… ou eu faço ele vir. Mas antes de qualquer merda, preciso ouvir dele o que tá acontecendo. Ela concordou, derrotada. — Está bem, filho. Eu vou ligar pra ele. Ela se aproximou, beijou minha testa, como fazia quando eu era criança, o único gesto capaz de me desmontar um pouco. Quando saiu, fiquei sozinho na sala. Passei a mão no queixo, respirei fundo. Problema pouco é besteira mesmo. Além de enfrentar uma milícia corrupta… agora tenho que lidar com a máfia italiana também. Só podia ser zueira comigo. Mas o que realmente me desconcertou não foi nada disso. Foi o pensamento que veio logo em seguida, rápido demais, incômodo demais: E se isso respingar nela? E se Helena for pega no meio dessa tempestade que está vindo? A imagem dela, sentada naquela mesa hoje cedo, calada, tentando sobreviver… me atravessou como um soco. Eu me levantei imediatamente. Eu tinha que ver como ela estava. Não por pena. Não por obrigação. Mas porque… algo em mim fazia questão disso. Subi as escadas com passos firmes, cada um aumentando a pressão no peito. Parecia que quanto mais eu tentava manter distância dela… mais minha mente voltava pro mesmo ponto. Quando parei diante da porta do quarto dela, respirei fundo, fechando a mão na maçaneta. O cheiro leve dela escapava pela madeira. Doce. Suave.Perigoso. Merda… isso não é bom. Bati duas vezes, baixo. — Helena… podemos conversar? E então abri a porta.






