Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 03
Helena Baldin Tentava gravar cada detalhe que via, em uma tentativa quase ridícula de descobrir como sairia viva dessa enrascada que me enfiei. Mas aquela pergunta martelava na minha cabeça como um tambor insistente: “Como ele sabia meu nome?” Tentava me convencer de que talvez fosse coincidência, ou até mesmo que eu pudesse ter imaginado isso. Mas a voz dele… profunda, calma, como se dissesse algo mais do que apenas meu nome. “Helena…” Não era um eco, não era casual. Era intencional. Conhecia cada centímetro do meu medo, cada ponto frágil do meu corpo. Eu fechei os olhos, respirando com dificuldade, tentando montar teorias, umas mais absurdas que as outras: Será que ele era policial? Não, muito mais organizado. Será que é alguém do trabalho do Eduardo? Não, parecia muito maior que isso. Será que… meu marido deixou algum rabo por aí e ele me rastreou? O pensamento fez meu estômago revirar. Ou ele apenas é alguém perigoso demais que não precisa de motivo para me conhecer? Não havia respostas. A única certeza era que eu estava completamente à mercê dele. A casa que entramos era como uma fortaleza silenciosa, cercada por muros altos e luzes discretas. O portão abriu sozinho, e o carro deslizou para dentro de um pátio amplo, quase assustador. Uma mansão luxuosa, moderna, mas de algum modo fria, calculada, como se cada detalhe tivesse sido projetado para impor respeito, medo e controle. Depois que ele estacionou e desligou o motor. O silêncio do carro era quase palpável, pesado demais para respirar. — Fique aqui — disse ele, a voz baixa, firme. — Não faça nada até eu avisar. Eu senti as pernas bambas quando aquele homem saiu do carro. Cada passo dele reverbera como um aviso. E, por alguns instantes, eu percebi que não conseguia me mover. Que minha liberdade não existia ali. Que, talvez, nunca mais existiria. A porta da frente se abriu quase imediatamente, e uma empregada apareceu. Ela parecia conhecer o homem como a palma da própria mão, sem surpresa, sem medo, apenas obediência. — Traga a caixa de primeiros socorros. — A ordem dele foi curta, cortante. A empregada desapareceu tão rápido quanto surgiu, e eu fiquei ali, tentando entender como ele podia controlar tudo sem esforço nenhum aparente. Cada gesto, cada olhar, cada comando parecia natural para ele, mas esmagador para mim. Quando a mulher voltou, trouxe um kit simples, mas eficaz. Ele pegou com cuidado, analisando o corte no canto da minha boca. — Não posso acreditar que você se machucou tentando escapar de uma coisa tão… pequena. — A voz dele era calma, mas carregava uma força que congelava a espinha. Ele se aproximou, e senti o ar desaparecer do meu corpo. Cada movimento dele era medido, cada toque parecia carregar intenções que eu ainda não conseguia decifrar. — Deixe-me cuidar disso — disse ele, pegando delicadamente um pano úmido. O contato do tecido frio sobre a pele ferida me fez tremer. Era quase tato médico, mas havia algo mais, um peso não dito na forma como ele me olhava, como se eu fosse frágil demais para suportar a verdade. Enquanto limpava o corte, minha mente voltou involuntariamente à horas atrás, à violência que eu acabei de fugir. Mas ele… ele não era Eduardo. Ele não me ameaçava. Não ainda. E, de algum modo, isso era ainda mais perigoso. — Você está bem agora? — perguntou ele, sem olhar diretamente, apenas limpando o sangue. Engoli em seco, incapaz de responder. Cada fibra do meu corpo gritava para correr, mas algo dentro de mim dizia para ficar. E foi nesse instante que vi, através da janela, o movimento na rua. Um policial corrupto, bem vestido, com postura rígida, mas que parecia se contorcer sob alguma pressão invisível. O meu coração congelou. O corpo gelou imediatamente. Minha mente disparou. Era ele. Não podia ser outro. Meu marido. Eduardo. Senti o pânico crescer, misturado à raiva, ao medo e a uma estranha percepção: ele não podia saber que eu estava aqui. Mas o homem tatuado, ao meu lado, continuava calmo, observando cada gesto, cada sombra que cruzava a casa. Cada detalhe que eu mal podia processar. — Foi ele que te machucou? — ele perguntou, finalmente, quebrando o silêncio. A voz era grave, baixa, quase um sussurro, mas havia algo nela que me fazia sentir como se tivesse que obedecer. — Eu… — engasguei, tentando juntar palavras — Sim, foi ele. Ele apenas me olhou, silencioso, e no olhar dele havia algo que me deixou sem ar: não havia surpresa, apenas a certeza de que ele sabia mais do que eu imaginava. E naquele segundo percebi que tudo que conhecia, e o que não conhecia estavam prestes a colidir com algo que eu não tinha controle. E o pior? Algo em mim gritava que ele era solução para todos os meus problemas, ele o homem tatuado e misterioso...






