Mundo de ficçãoIniciar sessãoEles achavam que era apenas desejo. Descobriram que era uma sentença. No topo do mundo, cercados pelo aço de um arranha-céu em construção, Elena e Julian jogam um jogo perigoso de poder e negação. Ele é o caos em forma de ordem; ela é a luz que ele nunca soube que precisava. Uma noite de tempestade. O isolamento absoluto a centenas de metros de altura. O que começou como um toque proibido para queimar a tensão se tornou uma obsessão que nenhum dos dois consegue controlar. O corpo foi apenas a porta de entrada para algo muito mais profundo — e muito mais letal. Entre lençóis e segredos, nasce uma conexão que desafia a razão. Mas o amor tem um preço, e o de Julian custará o passado de Elena. Quando os planos dele ameaçam demolir o único lugar que ela ainda chama de lar, a paixão se torna um campo de batalha. Até onde você iria por alguém que tem o poder de te completar e te destruir ao mesmo tempo?
Ler maisChicago, 1984.
A cidade não acordava; ela apenas emergia, relutante, de um nevoeiro tingido pelo neon azul e rosa dos letreiros que piscavam cansados após uma noite de excessos. O ar era uma mistura gélida de metal, fumaça de cigarro e o cheiro doce de neve iminente. Eu caminhava pela Michigan Avenue com a alça da minha Leica M4 apertando o ombro — uma pressão familiar, quase reconfortante. Minha câmera era meu único filtro contra a crueza do mundo. Através da lente, a dor era estética; o caos era composição.
Eu estava prestes a entrar na boca do lobo.
A "Torre Vane". O nome ecoava pelas colunas sociais e cadernos de economia como uma promessa de divindade arquitetônica. Para mim, era apenas uma cicatriz de concreto e vidro que ameaçava engolir o que restava do meu passado.
— Elena Rossi? — A voz do segurança no canteiro de obras era áspera, competindo com o rugido das betoneiras. — Você é a fotógrafa que o Sr. Thorne contratou?
— Sou eu — respondi, minha voz saindo mais firme do que eu me sentia. Ajustei a gola da minha jaqueta de couro, sentindo o frio penetrar as camadas de lã.
Ele me entregou um capacete amarelo que parecia grande demais para o meu rosto, mas não reclamei. Atravessei o portão de ferro, e o mundo mudou. Ali, o glamour de Chicago desaparecia, substituído pelo esqueleto de aço de um gigante. O prédio subia, desafiador, as vigas cruzando o céu cinzento como costelas de uma criatura pré-histórica renascendo.
Eu precisava focar. Precisava encontrar o ângulo que fizesse aquele monumento à arrogância parecer... humano. Ou pelo menos, suportável.
Foi quando eu o vi.
Ele estava parado perto de uma mesa de plantas, cercado por engenheiros que pareciam satélites orbitando um planeta solitário. Julian Vane. Eu já tinha visto fotos dele, claro. Mas o papel impresso não conseguia capturar a densidade da sua presença. Ele era alto, de uma forma que fazia o espaço ao redor parecer insuficiente. O terno azul-marinho, impecavelmente cortado, era uma afronta à sujeira e à poeira que nos cercavam.
Ele não estava apenas olhando para as plantas; ele as estava comandando.
Aproximei-me, o instinto de fotógrafa assumindo o controle. Ergui a câmera. O visor enquadrou o perfil dele: o maxilar tão nítido quanto uma linha de projeto, os cabelos loiro-cinzentos perfeitamente alinhados, apesar do vento cortante. Apertei o disparador.
Click.
O som foi pequeno, mas no silêncio da minha concentração, pareceu um disparo.
Julian congelou. Ele não virou a cabeça imediatamente; ele terminou de dar uma instrução a um subordinado e então, com uma lentidão calculada, seus olhos buscaram os meus. Eram azuis. Mas não o azul do céu de verão; era o azul das geleiras profundas, onde a luz morre antes de tocar o fundo.
— Eu não autorizei nenhuma foto ainda, Srta. Rossi — disse ele. A voz era uma barulhenta de barítono, calma e perigosamente controlada.
— Eu não peço permissão para a luz, Sr. Vane — respondi, baixando a câmera, mas mantendo o olhar. — Ela simplesmente acontece. E eu estava sob a impressão de que fui contratada para documentar a realidade, não uma sessão de retratos posados.
Um silêncio tenso se instalou entre nós. Os engenheiros ao redor trocaram olhares desconfortáveis, como se estivessem esperando que o prédio desabasse sobre mim por tal audácia. Julian deu um passo à frente. O cheiro dele me atingiu: sândalo, papel novo e algo frio, como metal limpo.
— A realidade nesta obra é ditada por mim — ele murmurou, aproximando-se o suficiente para que eu pudesse ver as pequenas linhas de cansaço ao redor de seus olhos. — E a minha realidade não inclui interrupções estéticas.
— Engraçado — eu disse, sentindo meu coração martelar contra as costelas, uma mistura de irritação e algo elétrico que eu me recusava a nomear. — Eu achava que um arquiteto vivesse de estética. Ou este prédio é apenas um bloco de insegurança disfarçado de progresso?
Seus olhos faiscaram. Por um segundo, a fachada de vidro dele trincou. Houve um lampejo de algo selvagem ali, uma faísca de reconhecimento que me deixou sem fôlego. Era como se, por um breve instante, tivéssemos despido nossas armaduras e nos visto como realmente éramos: dois seres solitários colidindo no centro de um furacão.
Ele abriu a boca para responder, mas o som de um rádio o interrompeu.
— Sr. Vane? O serviço de meteorologia confirmou. A frente fria mudou de curso. A nevasca vai atingir o centro em menos de duas horas. Vai ser das grandes.
Julian olhou para o céu, a expressão voltando à sua máscara impenetrável.
— Srta. Rossi — ele disse, voltando sua atenção para mim. — Se você quer "documentar a realidade", sugiro que suba comigo agora. Vou inspecionar o 40º andar antes que fechemos o canteiro. É a sua única chance de ver a cidade antes que ela desapareça sob o branco.
— O elevador de carga ainda está funcionando? — perguntei, sentindo um frio na espinha que não tinha nada a ver com a temperatura.
— Comigo, tudo funciona — ele respondeu, com uma arrogância que me fez querer socá-lo e beijá-lo ao mesmo tempo. — Você vem ou vai ficar aí embaixo tentando fotografar o invisível?
Eu não respondi com palavras. Apenas ajustei a alça da Leica e caminhei em direção à gaiola de metal do elevador.
Enquanto subíamos, o vento uivando através das vigas abertas, eu olhei para Julian. Ele não olhava para mim; olhava para o horizonte cinzento, as mãos firmes nos cabos de aço. Eu sabia, com uma intuição visceral que me apavorava, que aquela subida não era apenas sobre o prédio.
Estávamos subindo para um lugar onde as regras da gravidade e da razão deixariam de existir. E quando o elevador parou, com um tranco violento, e os primeiros flocos de neve começaram a cair, pesados e silenciosos, eu soube que não haveria descida fácil para o que acabara de começar.
O céu escureceu de repente, um véu de chumbo caindo sobre Chicago.
— O elevador... — comecei, vendo a luz indicadora apagar.
Julian tentou acionar o painel, mas não houve resposta. Um silêncio sepulcral, quebrado apenas pelo uivo do vento, envolveu o 40º andar. Estávamos a centenas de metros do chão, envoltos em aço e escuridão, com a maior tempestade da década batendo à nossa porta.
Ele se virou para mim no escuro, e eu pude ver apenas o brilho dos seus olhos.
— Parece que temos todo o tempo do mundo agora, Elena.
O gancho estava lançado. Eu estava presa com meu inimigo no topo do mundo, e a única coisa que queimava mais que o frio era a consciência de que eu nunca estive tão perto de um perigo tão absoluto.
Às vezes, eu me pergunto se a felicidade é apenas a ausência de ruído, ou se ela tem um som próprio, um murmúrio constante como o de um rio que finalmente encontrou seu curso.Enquanto observo Julian através da lente da minha câmera, percebo que a maior lição que Chicago me ensinou não estava nos livros de arquitetura ou nos manuais de revelação. Eu aprendi que a vida não é feita de estruturas inabaláveis, mas da coragem de permanecer de pé quando tudo ao redor desmorona. Aprendi que a verdade pode até queimar como ácido, mas é a única coisa que limpa a lente da alma para que possamos enxergar o que realmente importa.Jamais pensei que lutas tão intensas, tantas erupções emocionais, pudessem mudar tanto a vida de uma pessoa. Existem coisas que só seremos capazes de aprender na prática, no calor da batalha, no frio da perda e no silêncio da reconstrução.Julian está no jardim dos fundos do nosso centro comunitário, ensinando um grupo de jovens a entender a resistência dos materiais
O tribunal de Chicago, que por tanto tempo pareceu um mausoléu de madeira escura e destinos selados, estava banhado por uma luz de primavera que insistia em desafiar a gravidade dos fatos. Hoje, o ar não cheirava a poeira de arquivo, a mofo de processos antigos ou ao suor frio do desespero; ele cheirava a encerramento, a terra molhada pela chuva matinal e a uma liberdade que eu ainda tateava com incredulidade.As paredes altas, com seus painéis de carvalho que testemunharam décadas de crimes e mentiras arquitetadas, pareciam menos imponentes sob aquele sol que atravessava as janelas superiores. Era como se a luz estivesse realizando sua própria perícia, expondo as partículas de pó que outrora ocultavam a verdade.Sentada na primeira fila, senti a mão de Julian envolver a minha. Seus dedos não estavam mais tensos como cabos de aço sob pressão extrema; estavam relaxados, quentes, ancorando-me ao presente. Era um toque sólido, uma fundação que não dependia de cálculos matemáticos, ma
O barulho que preenchia o Distrito Sul agora não era mais o estalo seco de disparos ou o rugido ameaçador de escavadeiras na calada da noite. Era o som rítmico, quase musical, de colheres de pedreiro batendo contra tijolos e o chiado constante das betoneiras. O ar, que durante meses cheirou a queimado e medo, agora carregava o perfume rústico de serragem e cimento fresco.Eu estava sentada em um caixote de madeira, observando o esqueleto do que seria o novo centro comunitário. Minha Leica nova — um presente de Julian para substituir a que se estilhaçara no confronto com Victor — repousava no meu colo.É estranho estar aqui sem precisar olhar por cima do ombro, pensei, sentindo o sol da manhã aquecer minha nuca. Passei tanto tempo operando em modo de sobrevivência que a paz parece um idioma estrangeiro. Olho para o Julian e me pergunto: quem somos nós quando não estamos fugindo de monstros? O amor que forjamos no fogo vai aguentar a luz comum de uma terça-feira à tarde?Julian esta
O céu sobre o Distrito Sul não era mais o manto dourado da hora mágica; era uma massa de nuvens cor de chumbo que parecia descer sobre nós como um teto prestes a colapsar. O vento trazia o cheiro de ozônio e terra molhada, aquele prenúncio de tempestade que, em Chicago, sempre soava como um aviso de guerra.Julian dirigia com os olhos fixos na estrada, a mandíbula tão tensa que eu temia que seus dentes se estilhaçassem. Ao nosso lado, no banco de trás, a bolsa com as cópias dos documentos que Bianca nos dera parecia emitir um calor próprio.— Victor não está atrás de papéis, Elena — Julian disse, sua voz cortando o silêncio do carro como uma serra elétrica. — Ele é um animal de rua. Ele quer o que é sólido. O que pode ser trocado por uma fuga ou por uma vida nova.Ele tem razão, pensei, sentindo o suor frio humedecer a alça da minha Leica. Victor nunca se importou com a verdade arquitetônica ou com o legado dos Vane. Ele foi criado no ressentimento, alimentado pelas sobras do impé
O silêncio do hospital Memorial de Chicago tinha uma textura diferente do silêncio do armazém. Não era o peso do metal morto, mas o zumbido elétrico da vida tentando se manter agarrada aos fios. O sol da manhã entrava pelas persianas da unidade de terapia intensiva, fatiando o quarto de Bianca em tiras de luz e sombra, como se o mundo fosse apenas um grande negativo esperando para ser revelado.Julian estava sentado na poltrona de vinil ao lado do leito, a cabeça baixa, as mãos entrelaçadas. Ele não parecia mais o gigante que desafiara Thorne entre as vigas de aço; parecia um homem que finalmente descobrira que a gravidade também se aplica ao coração.Eu o observo da porta, pensei, sentindo o peso da minha Leica na bolsa — uma presença constante, mas que hoje parecia estranhamente silenciosa. Ele passou a vida tentando ser o pilar que sustenta o nome Vane, e agora que o nome foi reduzido a pó, ele parece estar aprendendo a respirar de novo. Mas o medo ainda está lá, escondido na cu
O armazém de aço da família Vane não era apenas um prédio; era um sarcófago de ferro fundido. O cheiro de metal oxidado e poeira estagnada nos atingiu como uma presença física assim que cruzamos o limiar da porta entreaberta. O silêncio lá dentro era diferente do silêncio da rua; era denso, carregado pelo peso de segredos que esperavam trinta anos para serem exumados.Caminhamos pelo corredor central, onde as sombras das vigas se projetavam no chão como costelas de um gigante morto. Minha Leica pendia no meu pescoço, mas minhas mãos estavam vazias, tateando o ar gélido em busca de um equilíbrio que parecia impossível.— Ele está aqui — Julian sussurrou. Sua voz não tremeu, mas o tom de barítono estava tão baixo que parecia vir do chão de concreto.Ele sente o cheiro do pai neste lugar, pensei, observando como o corpo de Julian se retraía a cada rangido do telhado de zinco. Este armazém é o lugar onde a infância dele foi moída para virar alicerce. Ele olha para essas paredes e não vê a





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