Muito Além de Atração
Muito Além de Atração
Por: Charles Wilde
1 - Algo sobre o abismo.

Chicago, 1984.

A cidade não acordava; ela apenas emergia, relutante, de um nevoeiro tingido pelo neon azul e rosa dos letreiros que piscavam cansados após uma noite de excessos. O ar era uma mistura gélida de metal, fumaça de cigarro e o cheiro doce de neve iminente. Eu caminhava pela Michigan Avenue com a alça da minha Leica M4 apertando o ombro — uma pressão familiar, quase reconfortante. Minha câmera era meu único filtro contra a crueza do mundo. Através da lente, a dor era estética; o caos era composição.

Eu estava prestes a entrar na boca do lobo.

A "Torre Vane". O nome ecoava pelas colunas sociais e cadernos de economia como uma promessa de divindade arquitetônica. Para mim, era apenas uma cicatriz de concreto e vidro que ameaçava engolir o que restava do meu passado.

— Elena Rossi? — A voz do segurança no canteiro de obras era áspera, competindo com o rugido das betoneiras. — Você é a fotógrafa que o Sr. Thorne contratou?

— Sou eu — respondi, minha voz saindo mais firme do que eu me sentia. Ajustei a gola da minha jaqueta de couro, sentindo o frio penetrar as camadas de lã.

Ele me entregou um capacete amarelo que parecia grande demais para o meu rosto, mas não reclamei. Atravessei o portão de ferro, e o mundo mudou. Ali, o glamour de Chicago desaparecia, substituído pelo esqueleto de aço de um gigante. O prédio subia, desafiador, as vigas cruzando o céu cinzento como costelas de uma criatura pré-histórica renascendo.

Eu precisava focar. Precisava encontrar o ângulo que fizesse aquele monumento à arrogância parecer... humano. Ou pelo menos, suportável.

Foi quando eu o vi.

Ele estava parado perto de uma mesa de plantas, cercado por engenheiros que pareciam satélites orbitando um planeta solitário. Julian Vane. Eu já tinha visto fotos dele, claro. Mas o papel impresso não conseguia capturar a densidade da sua presença. Ele era alto, de uma forma que fazia o espaço ao redor parecer insuficiente. O terno azul-marinho, impecavelmente cortado, era uma afronta à sujeira e à poeira que nos cercavam.

Ele não estava apenas olhando para as plantas; ele as estava comandando.

Aproximei-me, o instinto de fotógrafa assumindo o controle. Ergui a câmera. O visor enquadrou o perfil dele: o maxilar tão nítido quanto uma linha de projeto, os cabelos loiro-cinzentos perfeitamente alinhados, apesar do vento cortante. Apertei o disparador.

Click.

O som foi pequeno, mas no silêncio da minha concentração, pareceu um disparo.

Julian congelou. Ele não virou a cabeça imediatamente; ele terminou de dar uma instrução a um subordinado e então, com uma lentidão calculada, seus olhos buscaram os meus. Eram azuis. Mas não o azul do céu de verão; era o azul das geleiras profundas, onde a luz morre antes de tocar o fundo.

— Eu não autorizei nenhuma foto ainda, Srta. Rossi — disse ele. A voz era uma barulhenta de barítono, calma e perigosamente controlada.

— Eu não peço permissão para a luz, Sr. Vane — respondi, baixando a câmera, mas mantendo o olhar. — Ela simplesmente acontece. E eu estava sob a impressão de que fui contratada para documentar a realidade, não uma sessão de retratos posados.

Um silêncio tenso se instalou entre nós. Os engenheiros ao redor trocaram olhares desconfortáveis, como se estivessem esperando que o prédio desabasse sobre mim por tal audácia. Julian deu um passo à frente. O cheiro dele me atingiu: sândalo, papel novo e algo frio, como metal limpo.

— A realidade nesta obra é ditada por mim — ele murmurou, aproximando-se o suficiente para que eu pudesse ver as pequenas linhas de cansaço ao redor de seus olhos. — E a minha realidade não inclui interrupções estéticas.

— Engraçado — eu disse, sentindo meu coração martelar contra as costelas, uma mistura de irritação e algo elétrico que eu me recusava a nomear. — Eu achava que um arquiteto vivesse de estética. Ou este prédio é apenas um bloco de insegurança disfarçado de progresso?

Seus olhos faiscaram. Por um segundo, a fachada de vidro dele trincou. Houve um lampejo de algo selvagem ali, uma faísca de reconhecimento que me deixou sem fôlego. Era como se, por um breve instante, tivéssemos despido nossas armaduras e nos visto como realmente éramos: dois seres solitários colidindo no centro de um furacão.

Ele abriu a boca para responder, mas o som de um rádio o interrompeu.

— Sr. Vane? O serviço de meteorologia confirmou. A frente fria mudou de curso. A nevasca vai atingir o centro em menos de duas horas. Vai ser das grandes.

Julian olhou para o céu, a expressão voltando à sua máscara impenetrável.

— Srta. Rossi — ele disse, voltando sua atenção para mim. — Se você quer "documentar a realidade", sugiro que suba comigo agora. Vou inspecionar o 40º andar antes que fechemos o canteiro. É a sua única chance de ver a cidade antes que ela desapareça sob o branco.

— O elevador de carga ainda está funcionando? — perguntei, sentindo um frio na espinha que não tinha nada a ver com a temperatura.

— Comigo, tudo funciona — ele respondeu, com uma arrogância que me fez querer socá-lo e beijá-lo ao mesmo tempo. — Você vem ou vai ficar aí embaixo tentando fotografar o invisível?

Eu não respondi com palavras. Apenas ajustei a alça da Leica e caminhei em direção à gaiola de metal do elevador.

Enquanto subíamos, o vento uivando através das vigas abertas, eu olhei para Julian. Ele não olhava para mim; olhava para o horizonte cinzento, as mãos firmes nos cabos de aço. Eu sabia, com uma intuição visceral que me apavorava, que aquela subida não era apenas sobre o prédio.

Estávamos subindo para um lugar onde as regras da gravidade e da razão deixariam de existir. E quando o elevador parou, com um tranco violento, e os primeiros flocos de neve começaram a cair, pesados e silenciosos, eu soube que não haveria descida fácil para o que acabara de começar.

O céu escureceu de repente, um véu de chumbo caindo sobre Chicago.

— O elevador... — comecei, vendo a luz indicadora apagar.

Julian tentou acionar o painel, mas não houve resposta. Um silêncio sepulcral, quebrado apenas pelo uivo do vento, envolveu o 40º andar. Estávamos a centenas de metros do chão, envoltos em aço e escuridão, com a maior tempestade da década batendo à nossa porta.

Ele se virou para mim no escuro, e eu pude ver apenas o brilho dos seus olhos.

— Parece que temos todo o tempo do mundo agora, Elena.

O gancho estava lançado. Eu estava presa com meu inimigo no topo do mundo, e a única coisa que queimava mais que o frio era a consciência de que eu nunca estive tão perto de um perigo tão absoluto.

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