Mundo ficciónIniciar sesiónNa mansão Savoia, ninguém ama sem pagar um preço. Serena Bittencourt é contratada como babá na mansão Savoia em um momento crítico. A família acaba de sofrer uma perda suspeita, e quase toda a equipe foi dispensada após um testamento devastador colocar o império à beira da ruína. Daniel Savoia, um empresário de 45 anos, governa a casa com frieza e controle absoluto. Em luto, endividado e emocionalmente fechado, ele vê Serena apenas como mais uma funcionária temporária e descartável. Mas Serena não é. Ao se tornar o único apoio emocional de Clara, uma menina de cinco anos marcada pela ausência da mãe, Serena passa de invisível a indispensável. Mesmo enfrentando a hostilidade da governanta que acredita ser a verdadeira dona da casa, ela permanece quando todos vão embora. E quando Daniel decide cortar ainda mais os custos, Serena faz a escolha que muda tudo... Aceita ficar sem salário para que Clara não sofra ainda mais. Entre ruína financeira, dominação emocional e silêncio, a convivência forçada transforma resistência em desejo. Um sentimento intenso e perigoso nasce onde não deveria existir ameaçando o controle de Daniel e a própria segurança emocional de Serena. O que nenhum deles sabe é que o maior perigo ainda está oculto. A esposa de Daniel não está morta. Ela observa à distância. E quando decidir voltar, nada nem o amor, nem a criança, nem a verdade estará a salvo
Leer más— Tem dois dias para sair da minha casa!
A porta ainda estava entreaberta quando o senhorio falou as palavras que cortaram minha vida ao meio. Não houve discussão, súplica ou chance de defesa. Apenas um decreto duro, definitivo e selado com a frieza de quem nunca se importou com nada além do dinheiro. Eu estava chorando, mas ele nem sequer hesitou. O aluguel estava atrasado havia seis meses e embora nada daquilo fosse realmente minha culpa, o mundo não costuma ter misericórdia de quem não pode pagar. Uma verdade dura que poucas pessoas gostam de ouvir.
Quando o senhorio virou as costas, levou embaixo do braço minha televisão. A única coisa que eu ainda possuía.
Nos últimos meses, meus pertences foram desaparecendo um a um, cada atraso convertido em resgate. Agora, tudo o que restava naquele apartamento onde vivi desde os dezoito anos era uma cama velha e o celular que eu apertava contra o peito como se pudesse me salvar de alguma coisa.
Tentei chamá-lo de volta, protestar, dizer qualquer frase que me parecesse digna, mas nada saiu. E mesmo que saísse, ninguém escutaria.
Sentei-me no chão frio, com o corpo tremendo, e comecei a buscar vagas de emprego. Não importava o que fosse, quando se está à beira do abismo, qualquer caminho parece aceitável, até os que você nunca imaginou percorrer.
Foi quando li em voz baixa.
— Babá?
Eu havia pensado em faxina, recepção, vendas… algo prático e previsível. Nunca em ser babá. Era completamente distante do que eu sabia fazer. Eu nunca tinha cuidado de uma criança antes, mesmo assim, cliquei e enviei o meu currículo. Três páginas de formações diversas. Sempre fui viciada em estudar. Arte, literatura, culinária. Coisas que, de certa forma, seriam convenientes para se cuidar de uma criança, eu acho.
Meu estômago roncou. Já estava há mais de um dia sem comer nada, apenas bebendo água da torneira, porque nem água mineral eu poderia comprar. Saí de casa para esfriar a cabeça e buscar respostas ou qualquer resquício de esperança.
Abriguei a dor em uma lembrança, algo que sempre foi a minha verdadeira paixão, a dança. O balé clássico foi meu primeiro amor e também o primeiro a me rejeitar. Lembro do dia em que ouvi, após um teste:
— Moça, você é gorda. Como alguém vai se emocionar com uma bailarina como você? Só faria alguém chorar de rir.
A lembrança veio como um tapa. Havia doído muito na hora, mas depois parada diante do espelho cheguei a uma conclusão que me quebrou ainda mais. Ele estava certo. Eu era baixinha, tinha o corpo cheio de curvas que não serviam para nada além de lutar contra a gravidade.
Quando o sol se escondeu atrás dos prédios, me sentei na praça em frente à academia de balé clássico. Eu sempre parava ali. Assistia às meninas entrando e saindo, leves e disciplinadas, vivendo o sonho que também era meu, mas que nelas parecia possível. Devo confessar que isso é um pouco masoquista, mas era como se eu pudesse viver o meu sonho, através de outras pessoas. Patético, eu sei.
Pedi um cigarro a um senhor que alimentava pombos. Ele me entregou sem hesitar e acendi sem agradecer. Foi aí que percebi o quão lamentável estava minha vida.
— Você está bem, mocinha?
O senhor perguntou com uma doçura que quase me desmontou. Respirei fundo, tentando conter as lágrimas inúteis. Não! Estou com fome, não tenho onde morar. E, com todo respeito… o senhor não tem nada a ver com isso. Mas claro, não disse nada do que minha mente gritou.
— Obrigada pelo cigarro.
Ele me observou por um instante, antes de responder algo que, na época, eu não compreendi, mas que marcou minha vida para sempre.
— Você é muito bonita para ficar chorando por coisas que não te pertencem. Vire a página da sua vida, deixe que o mundo te devolva o que realmente é seu, na hora certa.
Não tive forças para discutir. Baixei a cabeça e continuei fumando, como se a fumaça pudesse preencher os buracos dentro de mim. Peguei o celular apenas para olhar a hora, mas acabei me surpreendendo com uma notificação que brilhava na tela.
Prezada Serena Bittencourt,
Após análise do seu perfil, gostaríamos de convidá-la para uma entrevista referente à posição de babá.
A entrevista será conduzida pelo Sr. Daniel Savoia, CEO do Savoia Group.
Li e reli, sem respirar, apertando o celular até meus dedos travarem. Olhei para o senhor e, pela primeira vez em muito tempo, sorri.
— Eles me chamaram! É amanhã! Torce por mim? Por favor.
Ele sorriu de volta, como se soubesse algo que eu ainda não sabia.
Voltei para casa e passei a noite inteira me preparando. Separando a melhor roupa, repassando cada detalhe na minha mente, estudando a história do grupo Savoia e quando já estava me preparando para dormir, me deparei com algo que me chamou a atenção. A matéria que noticiava a morte de Luciana Savoia. A esposa do CEO, o carro carbonizado, o erro fatal do motorista… a tragédia que estava estampada em todos os sites.
Levei a mão à boca, chocada. Eles estavam em busca de uma babá por causa de algo tão trágico. Aquela garotinha havia perdido a sua mãe.
— Meu Deus, e se eu não der conta?
Eu estava assustada, mas meus olhos se prenderam na foto da família Savoia. Mais especificamente, nele. A imagem que ilustrava a notícia era deles em um parque. Não consegui ignorar os braços definidos, o rosto perfeito e o olhar protetor que Daniel Savoia lançava para a filha. Um arrepio inesperado percorreu meu corpo e puxei a manta, tentando convencer a mim mesma de que era apenas frio.
Aquela noite eu não dormi. Ao amanhecer, já estava dentro do primeiro ônibus para Brookline, horas antes da entrevista. Era minha única chance e eu não podia perder. Morar no emprego, para alguém sem teto, aquilo era mais do que uma vaga, era sobrevivência.
Saí do ônibus e me apoiei na parede do prédio imponente por um instante, tentando aliviar a dor causada pelo maldito sapato que havia escolhido. Mas quando me afastei, ouvi o barulho da tinta fresca marcando minha roupa. A única roupa decente e apresentável que eu tinha. Faltavam apenas dez minutos para a entrevista que definiria o rumo da minha vida. Não dava tempo de voltar para casa, nem tempo para chorar eu tinha. Respirei fundo, passei as mãos pela roupa, ergui a cabeça e segui em frente.
Entreguei meu documento ao segurança e meu corpo estremeceu ao ouvir o portão de bronze se abrir com um rangido pesado. Era como um aviso. Que a partir daquele momento, não haveria mais volta.
No primeiro passo, o salto virou e o outro pé, justamente aquele que deveria me salvar, também me traiu. Caí com a velocidade de uma fruta madura ao se desprender da árvore. A dor subiu pelo meu tornozelo e tudo ficou distante por um segundo. Quando ergui o rosto, ainda sentada no chão, vi dois pares de sapatos parados diante de mim. Uma mulher se inclinou, nervosa. O homem, não.
Ele apenas me olhou.
E eu soube exatamente quem era Daniel Savoia.
Meu coração errou as batidas, o suor frio nasceu em meu rosto antes que eu pudesse digerir aquelas palavras.Eu estava em um depósito abafado e à minha frente uma mulher que se autodeclarava a esposa morta do meu atual patrão.Tudo ao meu redor escureceu e por um segundo eu acreditei que fosse desmaiar, mas não tive tempo, a porta se abriu atrás de mim e o desespero de Claudete me puxou de volta à realidade.— CLARA CAIU DA ESCADA! CHAMA UM MÉDICO.Saí correndo. Mesmo que a descoberta tivesse me abalado, imaginar que Clara estivesse ferida me dilacerou. Ela não era apenas a minha responsabilidade, era também uma menininha linda que eu já amava. Passei pelas caixas com uma agilidade que nem eu mesma reconhecia, parei ofegante no topo da primeira escadaria e o silêncio me atingiu em cheio.Não havia ninguém.Atravessei o corredor da ala dos funcionários e, ao me aproximar da escadaria seguinte, algo aconteceu. Meu pé prendeu em alguma coisa e o equilíbrio me traiu, a dor veio antes da c
Eu estava determinada a reagir, mas fui puxada para trás e Antony tomou o meu lugar à frente da mulher histérica.O advogado sorriu e falou baixinho.— Não se exponha, senhora Hunter. Imagine o que a mídia diria se sujasse as suas mãos com uma empregada.— Eu… Ela me molhou!Daniel olhava para o amigo como se decidisse o que faria com Antony e eu estava igualmente confusa. Não sabia se estava sendo defendida ou humilhada, mas ao menos não precisei dar uns tapas em uma senhora da elite.Clara me chamou e seguimos Daniel para fora do salão sem que ele nos olhasse. Ele abriu a porta do carro que já nos esperava, acomodou a filha e se sentou no banco da frente junto com o motorista.O caminho foi silencioso e quando chegamos Clara já estava dormindo com a cabeça em meu ombro. Levei-a no colo para o quarto e ela não acordou nem mesmo quando a mexi para trocar a roupa. Cheirei os pezinhos suados antes de ligar o aquecedor e cobri-la com a manta de princesa.Fiquei um tempo olhando para o ro
— Conhece o preço da nossa amizade, mas está esquecendo o valor. Não olhe para ela!As palavras de Daniel saíram pesadas, e o sorriso do outro empresário, embora mantido por orgulho, perdeu completamente o brilho.— Não está em condições de fazer ameaças. Não se esqueça de que precisa do meu voto hoje.— Eu paguei um alto preço por me vender. Não faria isso novamente.A conversa tinha um tom estranho de cumplicidade e ameaça, como se falassem de algo antigo e sujo, que não precisava ser dito em voz alta. Eles sabiam exatamente do que tratavam. Eu não. Tudo naquele mundo me parecia perverso demais e, pela primeira vez desde que havia colocado aquele vestido, senti vontade real de desaparecer.Afastei Clara dali e a levei para perto da mesa de doces que ela observava desde que chegamos. Abaixei ao lado dela, fingindo não estar abalada.— Quer aquele doce, Clara?— Minha mãe não me deixa comer doces se eu não puder escovar os dentes depois.Talvez, se eu fosse mãe, tivesse regras como aq
Você já precisou acompanhar as batidas de um relógio quando o tempo parece correr contra a sua vontade? Clara estava com os olhinhos brilhando quando perguntou se aquela caixa era um presente para ela. — O que é? Deixa eu ver? Foi a minha mamãe que mandou para mim, não foi? Tentei responder com suavidade, apesar do medo que eu sentia de que ela descobrisse sobre o tal evento. Me sentia uma criminosa enganando uma criança. — É uma encomenda para mim, Clara. — Posso ver? — Quando eu for abrir eu te chamo, vossa alteza. — Por que não abre agora? Beijei a testa dela e afirmei tentando parecer adulta, ainda que meu coração saltasse como o de uma adolescente. — Porque estou trabalhando e não queremos que eu seja demitida. Morreria de saudades da minha princesinha com cheirinho de queijo estragado. Clara arregalou os olhinhos azuis com aquele jeito que me fazia derreter. — Eu? Mentira! Passei o creme e o perfume que a mamãe me deu. — Então acho que venceu. Já para o banho, prince
Eu fiquei ali, sentindo o peso do corpo dele sobre o meu, imaginando coisas diferentes das que eu tinha falado quando ele perguntou se poderia tocar a minha perna.Naquele momento, a negativa de antes por pouco não se converteu em um pedido.Daniel também estava me olhando, as mãos apoiadas ao lado da minha cabeça como se fizesse exercícios de flexão sobre o meu corpo, e ele abaixou devagar.Fechei os olhos esperando pelo beijo, sentindo o cheiro masculino na pele quente do tórax dele.— Senhor Daniel? O que faz aqui a essa hora?A voz de Claudete veio carregada de acusações e eu me encolhi, sabendo exatamente o que aquilo parecia.Ninguém acreditaria se eu dissesse o que realmente tinha acontecido.Mas naquela noite eu conheci um homem que jamais imaginei existir, não por trás da máscara do CEO se
A porta do quarto de Serena bateu em um estrondo que fez a fechadura se soltar da porta.Daniel afrouxou a gravata e saiu pelo corredor da ala dos empregados direto para o escritório.Passou pela sala impecavelmente organizada, o tapete vermelho havia dado lugar a um mais claro, o espaço vazio no centro onde deveria estar a mesa que foi espatifada durante a confusão com Caio.O empresário apenas seguiu até ser interrompido por Claudete.— Senhor Savoia, quero falar com o senhor sobre a nova babá de Clara.Daniel parou dois passos à frente de onde a governanta o interceptou. As duas mãos se fecharam em punho antes dele virar para a idosa e falar com o tom áspero.— Não tenho tempo para fofocas, Claudete. Preciso lembrá-la de que não sou Luciana?A senhora ergueu a cabeça que havi





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