2 - A Geometria do Caos

   

O silêncio que se seguiu ao estalo metálico do elevador foi mais ensurdecedor do que o rugido das betoneiras lá embaixo. No 40º andar, a estrutura ainda era um esqueleto; as paredes de vidro que deveriam isolar o império de Julian Vane do resto do mundo eram apenas vãos abertos, convidando a nevasca para entrar.

A luz de emergência piscou uma, duas vezes, e então morreu com um lamento elétrico.

— Isso faz parte do seu controle absoluto, Vane? — Minha voz saiu mais aguda do que eu pretendia, ecoando nas vigas de aço. Eu tateei o visor da minha Leica, como se o metal frio da câmera pudesse me ancorar à realidade.

Ouvi o som seco de metal batendo contra metal. Julian estava socando o painel de controle. No escuro, ele era apenas uma silhueta imponente, uma sombra mais escura que a própria noite que desabava sobre nós.

— O gerador deveria ter entrado em ação em cinco segundos — ele resmungou. A calma em sua voz era irritante, uma precisão cirúrgica mesmo diante do desastre. — A tempestade deve ter derrubado a linha principal antes do previsto.

— Ótimo. Estamos presos em uma gaiola de ferro a centenas de metros do chão, no meio da pior nevasca do século, com um arquiteto que não consegue manter as luzes acesas. — Cruzei os braços, sentindo o primeiro calafrio real subir pela minha espinha. — É um roteiro perfeito para um filme de terror, ou para uma piada de muito mau gosto.

Ouvi um suspiro pesado. Julian se virou. Mesmo sem vê-lo claramente, eu sentia a pressão da sua atenção voltada para mim.

— O sarcasmo é sua única lente, Elena? Ou você o usa apenas quando está com medo?

— Eu não estou com medo — menti, enquanto meu coração batia um ritmo frenético contra as costelas. — Eu estou irritada. Há uma diferença técnica.

— Se você diz.

Ele se afastou do elevador, os passos ecoando com uma confiança que eu invejava. Vi um pequeno brilho: ele havia aceso um isqueiro de prata. A chama minúscula dançou violentamente com o vento que soprava pelos vãos, projetando sombras gigantescas nas paredes inacabadas. Ele caminhou até um canto onde pilhas de materiais de acabamento estavam cobertas por lonas pesadas.

— Onde você vai? — perguntei, seguindo o rastro de luz como uma náufraga.

— Se vamos passar a noite aqui, não pretendo morrer de hipotermia — ele respondeu, sem olhar para trás. — Há uma lareira funcional na sala de conferências deste andar. Um capricho de Marcus Thorne para impressionar investidores. Pela primeira vez, a futilidade dele terá alguma utilidade.

Eu o segui, tropeçando em cabos e latas de tinta. O escritório de Julian, mesmo em construção, era vasto. Quando entramos na sala de conferências, vi que o mármore já estava assentado. Julian se ajoelhou diante da lareira de pedra e começou a rasgar algumas plantas de arquitetura — papéis que valiam milhares de dólares — para usar como acendalhas em algumas ripas de madeira de pinho esquecidas pelos carpinteiros.

— Você está queimando seus projetos? — perguntei, aproximando-me e sentando-me no chão de concreto gelado, a poucos metros dele.

— São apenas cópias, Rossi. O original está aqui — ele apontou para a própria têmpora, o isqueiro refletindo um brilho azulado em seus olhos. — E o aço não se importa com papel. Ele só se importa com o calor.

A chama pegou. O brilho alaranjado começou a lamber a madeira, crescendo até iluminar o rosto de Julian. Sem a luz crua do escritório, ele parecia menos um monumento de gelo e mais um homem. Vi uma pequena cicatriz perto de sua sobrancelha, algo que a lente da minha câmera não tinha captado antes.

— Você está me estudando de novo — ele disse, sem desviar os olhos do fogo. — Sem a câmera para se esconder. Isso deve ser desconfortável para você.

— Eu não me escondo atrás da câmera, Julian. Eu a uso para ver o que as pessoas tentam esconder.

— E o que você vê agora? — Ele se virou para mim, apoiando o cotovelo no joelho. A luz do fogo esculpia as linhas do seu rosto, criando contrastes profundos que fariam qualquer fotógrafo suspirar.

— Vejo um homem que constrói paredes de vidro para que ninguém perceba que ele é feito de pedra — respondi, a ousadia sendo alimentada pelo calor que começava a emanar da lareira. — Vejo alguém que tem tanto medo do caos que precisa organizar até o modo como respira.

Julian soltou uma risada curta, sem humor.

— Pedra é estável. O caos é o que derruba prédios, Elena. E pessoas.

— O caos é o que nos faz vivos — rebati. — O que você sente quando olha para este prédio? Orgulho? Ou apenas o alívio de que nada saiu do lugar?

Ele ficou em silêncio por um longo tempo. O uivo do vento lá fora parecia estar tentando derrubar a estrutura, o som do metal rangendo sob a pressão da nevasca.

— Eu sinto que estou no controle — ele admitiu, a voz baixando para um tom quase confessional. — Enquanto o projeto estiver sob meu comando, o mundo faz sentido. Fora desta estrutura... — ele fez um gesto vago para a escuridão lá fora — ...tudo é imprevisível demais.

— Como eu? — A pergunta escapou antes que eu pudesse detê-la.

Julian fixou o olhar no meu. A tensão entre nós, que antes era uma farpa de irritação, transformou-se em algo denso, quase palpável. Era a mesma eletricidade que senti no canteiro de obras, mas agora não havia para onde fugir. Não havia engenheiros, não havia câmeras, não havia Chicago. Havia apenas o 40º andar e a gravidade que parecia nos puxar um para o outro.

— Você não é um problema de engenharia, Elena Rossi — ele sussurrou, inclinando-se levemente em minha direção. — Você é uma falha estrutural que eu não previ. E eu odeio não ter previsto você.

— Talvez você devesse parar de tentar me prever — eu disse, minha respiração falhando. — E começar a me olhar de verdade.

Ele estendeu a mão. Por um segundo, achei que ele fosse tocar meu rosto, mas ele apenas pegou uma mecha do meu cabelo que havia escapado do capacete e estava caída sobre meu ombro. O toque foi leve, mas pareceu um choque térmico.

— Se eu olhar para você de verdade — ele disse, a voz rouca e perigosa —, eu posso esquecer como se constrói um prédio. E eu nunca esqueci nada.

O calor da lareira não era nada comparado ao fogo que subia pelas minhas veias. Eu sabia que deveria me afastar, que deveria fazer uma piada sobre como arquitetos são dramáticos, mas eu estava hipnotizada. A vulnerabilidade que ele tentava esconder estava ali, brilhando nos olhos azuis, implorando por uma conexão que o vidro e o aço nunca poderiam dar.

Lá fora, a tempestade atingiu seu ápice, sacudindo o gigante de metal. Dentro, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo estalar da madeira queimando.

— Julian... — comecei, mas o nome morreu em meus lábios quando ele encurtou a distância.

O rádio na cintura dele subitamente estalou, uma estática violenta cortando a intimidade do momento.

Sr. Vane? Sr. Vane, você está aí? A equipe de resgate está tentando subir pelo poço externo, mas o vento está muito forte. Vocês precisam se manter aquecidos. Repito, não tentem sair daí...

Julian não respondeu ao rádio. Ele nem sequer desviou os olhos dos meus. Ele simplesmente pegou o aparelho e o desligou, jogando-o de lado como se fosse um brinquedo quebrado.

— Eu não quero ser resgatado agora — ele disse, e o tom de sua voz me deu a certeza de que a noite estava apenas começando.

O gancho estava cravado. Eu estava presa com um homem que acabara de desligar sua última ligação com o mundo racional. E, pela primeira vez na vida, eu não queria fotografar o momento. Eu queria vivê-lo, mesmo que isso significasse desmoronar junto com ele.

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