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4 - Até parece Traição

 

    A luz do amanhecer não trouxe clareza; trouxe uma palidez cadavérica que se infiltrava pelas frestas de aço, tingindo o quadragésimo andar com um cinza implacável. A nevasca havia amansado, transformando-se em um véu fino de flocos que flutuavam preguiçosos, como cinzas de um incêndio que ainda não havia terminado.

Eu estava de pé, a metros de distância do calor da lareira, sentindo o ar gelado morder minha pele ainda sensível pelos toques da noite anterior. Meus dedos tremiam enquanto eu segurava o documento. "Ordem de Demolição: Bloco 14, Distrito Sul". O endereço da minha infância. O lugar onde o cheiro de molho de tomate da minha nonna ainda parecia impregnado nas paredes descascadas, onde as marcas de giz da minha altura ainda deviam estar escondidas atrás de algum armário velho.

Julian se levantou com uma elegância que me enojava naquele momento. Ele abotoava a camisa de seda com uma calma mecânica, mas seus olhos — aquele azul gélido que eu acreditava ter derretido — estavam fixos em mim com uma mistura de cautela e algo que parecia, tragicamente, com piedade.

— Elena, deixe-me explicar o contexto técnico disso — ele começou, sua voz recuperando a autoridade barítona que ele usava para comandar canteiros de obras.

— "Contexto técnico"? — Minha risada soou oca, um som quebrado que ricocheteou no concreto. — Você fala como se estivesse discutindo a resistência de uma viga, Julian. Estamos falando da minha vida. Da memória das pessoas que você está prestes a soterrar sob o seu ego de vidro e aço.

— Não é sobre ego, é sobre a revitalização de Chicago — ele deu um passo em minha direção, mas eu recuei, batendo as costas contra uma coluna fria. — Aquele quarteirão está condenado há anos. O solo é instável, as estruturas são perigosas. A Torre Vane precisa daquele espaço para o complexo de suporte e o parque público. É o progresso, Elena.

— O progresso de quem? — disparei, as lágrimas começando a embaçar minha visão, mas eu me recusava a deixá-las cair diante dele. — O progresso do Marcus Thorne? O progresso do seu legado? Você disse ontem à noite que se sentia sozinho no topo. Agora eu entendo o porquê. Você não constrói sobre a terra, Julian. Você constrói sobre as cinzas de quem não pode lutar contra você.

Ele parou, a expressão endurecendo. A máscara de mármore estava de volta, perfeita e impenetrável.

— Eu fui contratado para projetar o futuro. Não posso me dar ao luxo de ser um refém do passado.

— Então a noite passada... — eu apontei para o chão, para as lonas onde havíamos compartilhado segredos que agora pareciam mentiras — ...foi o quê? Uma forma de me manter ocupada enquanto o trator se posiciona? Uma "distração técnica" para que a fotógrafa não fizesse as perguntas erradas?

A mandíbula de Julian travou. Vi um músculo saltar em seu pescoço.

— Você sabe que não foi isso. O que aconteceu aqui... — ele hesitou, e por um segundo a voz falhou — ...foi a única coisa real que senti em décadas. Mas meus sentimentos por você não mudam a física do projeto, nem os contratos assinados com a prefeitura.

— A física do projeto. — Guardei o documento na bolsa com um movimento brusco. — Engraçado como a sua "física" sempre favorece quem tem mais dinheiro.

Aproximei-me dele, ignorando o perigo da proximidade. O cheiro de sândalo ainda estava impregnado em mim, uma lembrança física de uma rendição que agora eu odiava. Ergui minha Leica e foquei nele. Através da lente, ele não era o homem que me beijou com desespero; era um objeto. Um monumento à arrogância.

Click.

O som do obturador pareceu o corte de uma lâmina.

— O que você está fazendo? — ele perguntou, a voz baixa.

— Documentando a realidade, Sr. Vane — respondi, baixando a câmera. — A realidade de um homem que é tão oco quanto os prédios que desenha. Você tem razão sobre uma coisa: eu sou uma falha no seu sistema. E falhas como eu não aceitam ser consertadas.

O barulho de engrenagens rangendo interrompeu nosso confronto. O elevador de carga estava voltando à vida. A eletricidade havia sido restaurada, trazendo consigo o mundo exterior, as obrigações e a destruição iminente.

Julian deu um passo à frente, tentando segurar meu braço.

— Elena, espere. Podemos conversar sobre isso em meu escritório, de forma civilizada. Marcus Thorne quer os negativos da primeira fase hoje e...

— Marcus Thorne pode ir para o inferno — interrompi, soltando-me dele com um solavanco. — E você também. Eu vou terminar este trabalho porque tenho um contrato. Mas eu vou fotografar cada centímetro dessa demolição. Vou mostrar a Chicago o que você está enterrando. Vou garantir que cada pessoa que olhar para esta torre veja o fantasma do que estava aqui antes.

Caminhei em direção ao elevador. A porta de treliça metálica se abriu com um lamento de ferro. Antes de entrar, olhei uma última vez para Julian. Ele estava parado no centro da sala vasta e inacabada, emoldurado pelas vigas de aço que pareciam uma prisão de luxo. Ele parecia imenso e, ao mesmo tempo, minúsculo.

— Você disse que o aço não se importa com papel, Julian — murmurei, enquanto entrava na gaiola metálica. — Mas a luz... a luz se importa com a verdade. E eu vou expor a sua.

Apertei o botão do térreo. O elevador começou a descer, uma queda livre que parecia simular o estado do meu coração. Enquanto o 40º andar desaparecia de vista, vi Julian caminhar até a beirada do prédio, olhando para a cidade branca e silenciosa lá embaixo.

Eu tinha as fotos. Tinha as memórias. E agora, tinha uma obsessão que queimava mais que o desejo: a vontade de desmantelar o mundo de Julian Vane, tijolo por tijolo, até que ele não tivesse mais onde se esconder da própria humanidade.

Ao chegar no térreo, o canteiro de obras estava voltando à vida. Operários removiam a neve, máquinas eram ligadas. O progresso não esperava pelo luto de ninguém. Saí pelos portões de ferro sem olhar para trás, a alça da câmera cortando meu ombro como um lembrete de que a guerra tinha acabado de começar.

Eu precisava chegar ao meu estúdio. Precisava entrar no quarto escuro e revelar as imagens daquela noite. Porque eu sabia que, entre as fotos da estrutura e as fotos do homem, havia uma imagem que Julian não queria que ninguém visse. A imagem do seu medo.

E era com essa imagem que eu planejava derrubar seu império.

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