A neve que caía sobre o Bloco 14 não era como a neve purificadora que vi do alto do quadragésimo andar. Aqui embaixo, ela se misturava à fuligem das chaminés industriais e ao barro dos canteiros de obras, tornando-se uma lama cinzenta que parecia querer engolir meus passos. O casarão de tijolos vermelhos estava diante de mim, uma relíquia sitiada. Era uma construção vitoriana teimosa, cercada por tapumes que ostentavam o logotipo da Vane & Thorne Enterprises.
Eu pulei a cerca de madeira com uma agilidade que o desespero me conferiu. Minha Leica batia contra meu peito, um lembrete metálico de que eu era ali uma intrusa, uma ladra de segredos.
Ao tocar a maçaneta de bronze fria da porta principal, uma memória me atingiu como um estilhaço.
Chicago, 1968.
Eu tinha dez anos. O cheiro de manjericão fresco flutuava pela calçada enquanto eu corria em direção ao casarão da esquina. Naquela época, os Vane eram o que chamávamos de "realeza invisível". Eu me lembro de ver um menino, um pouco