5 - Banho de Prata

 

    O estúdio no West Loop era o meu único santuário, um refúgio de dois cômodos onde o cheiro de ácido acético e fixador era mais doce do que qualquer perfume francês. Entrei batendo a porta contra o frio de Chicago, sentindo o peso do mundo e daquela noite no quadragésimo andar ainda grudado em meus ossos. Eu estava exausta, mas a adrenalina — aquela substância amarga que corre nas veias de quem descobre uma traição — não me deixava sentar.

Não liguei as luzes principais. No escuro, eu me sentia segura. No escuro, eu era a mestre da realidade.

Fui direto para o quarto escuro, a pequena sala selada onde a luz vermelha criava um ambiente uterino e surreal. Meus movimentos eram mecânicos, uma coreografia aprendida através de anos de solidão. Retirei o filme da Leica com mãos que ainda pareciam carregar o calor da pele de Julian. O metal da câmera estava frio, uma acusação silenciosa de que eu havia permitido que o objeto da minha observação me tocasse de volta.

— Foco, Elena — sussurrei para as sombras. — Mantenha o foco.

Enquanto mergulhava o filme nos tanques de revelação, minha mente viajava de volta para a nevasca. Eu fechava os olhos e ainda sentia o rastro dos dedos de Julian no meu maxilar. A forma como ele se abriu, como se estivesse confessando um crime, para depois me golpear com a frieza de um contrato de demolição. A dualidade dele era uma falha de projeto que eu precisava entender.

Trinta minutos depois, eu pendurava as tiras de negativos para secar. Peguei a lupa e comecei a examinar os frames sob a luz vermelha.

Ali estava ele.

Frame 14: Julian olhando para o fogo. A vulnerabilidade em seu rosto era tão nítida que chegava a ser obscena. Frame 22: O momento exato em que ele percebeu que eu havia encontrado o documento. A transição do homem para a máquina. Mas foi o Frame 29 que me fez parar. Eu havia batido aquela foto quase por instinto antes de entrar no elevador. Julian estava de costas, olhando para o vazio de Chicago, e a luz da manhã batia em um detalhe que eu não tinha notado no calor do confronto: ele segurava algo pequeno na mão esquerda, algo que não parecia um papel de escritório.

Aumentei a imagem no ampliador. Projetei a foto sobre o papel fotográfico virgem e mergulhei-o na bandeja de revelador. Balancei a bandeja suavemente, observando a imagem emergir do branco como um fantasma sendo convocado.

Primeiro as vigas de aço. Depois a silhueta austera de Julian. E então, o detalhe na mão dele.

Não era um documento. Era uma fotografia antiga, gasta nas bordas. Uma imagem de uma mulher jovem, com traços que lembravam vagamente os de Julian, parada em frente a um casarão de tijolos vermelhos que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo. Era o casarão que ficava exatamente no centro do Bloco 14. O prédio que ele estava prestes a destruir.

— O que você está escondendo, Julian? — a pergunta flutuou no ar pesado do estúdio.

Senti um arrepio que não vinha do inverno lá fora. Julian não estava apenas destruindo o meu passado; ele estava destruindo o dele. E ele fazia isso com uma ferocidade que beirava o autoflagelo.

Saí do quarto escuro, precisando de ar. O telefone na parede começou a tocar, o som estridente rasgando o silêncio. Atendi com o coração na boca.

— Rossi? É o Marcus Thorne.

A voz era como cascalho sendo moído. Marcus Thorne, o homem que via a cidade como um balanço contábil e as pessoas como notas de rodapé. Senti o gatilho da aversão disparar imediatamente.

— Sr. Thorne. Achei que minha demissão já estivesse implícita após a cena de hoje cedo.

— Não seja dramática, Elena. Você é a melhor fotógrafa de texturas que temos. O Julian é um artista difícil, todos sabemos disso. Nevascas e claustrofobia fazem as pessoas dizerem coisas que não pretendem.

— Ele não apenas disse, Sr. Thorne. Ele assinou.

Houve uma pausa do outro lado da linha. O silêncio de um predador calculando a distância.

— O progresso exige sacrifícios, pequena Rossi. O Julian entende isso. Ele aprendeu com o melhor. O pai dele, Arthur Vane, não parou por nada para erguer o primeiro arranha-céu daquela família. Julian tem um legado a manter. Ele sabe que, para a Torre Vane brilhar, o resto precisa apagar.

— E a que custo? — perguntei, sentindo a náusea subir.

— O custo é irrelevante para quem está no topo. Quero os negativos da fase de fundação na minha mesa amanhã cedo. E Elena... esqueça o que viu naquele escritório. Algumas fundações são enterradas profundamente por um motivo. Se você começar a cavar onde não deve, pode acabar soterrada.

Ele desligou. O tom de ocupado ecoou como uma batida de martelo.

Thorne não estava apenas me ameaçando; ele estava confirmando minhas suspeitas. Havia algo enterrado naquelas fundações que ia além de cimento e ferro. Algo que ligava Julian, o casarão da foto e o trauma que o transformou em um homem de vidro.

Caminhei até minha mesa de luz e olhei novamente para a foto que eu acabara de revelar. O rosto de Julian na imagem não transmitia triunfo. Transmitia agonia.

— Você não é o vilão dessa história, é? — murmurei para a imagem em preto e branco. — Você é a vítima de um sacrifício que ainda está tentando justificar.

Lembrei-me do que ele disse na lareira: "Eu passei trinta e cinco anos descartando tudo o que não era útil". Ele estava tentando descartar a própria pele para satisfazer o fantasma do pai e a ganância de Thorne.

O conflito interno em meu peito era uma guerra civil. Uma parte de mim queria odiá-lo, queria entregar as fotos para a imprensa e incendiar o império Vane. Mas a outra parte — a parte que ainda sentia o gosto do beijo dele — queria salvá-lo de si mesmo.

Peguei meu casaco e minha bolsa. Eu não ia entregar os negativos para Thorne. Não ainda.

Chicago estava coberta por um silêncio branco e enganoso. Peguei meu carro e dirigi em direção ao Distrito Sul, o bairro que estava no corredor da morte. Eu precisava ver aquele casarão de perto. Precisava entender por que Julian carregava a foto dele como um talismã de dor.

Enquanto eu dirigia pelas ruas desertas, observando os operários de Thorne já posicionando os tapumes ao redor do Bloco 14, percebi que meu objetivo havia mudado. Eu não ia mais apenas documentar a realidade. Eu ia revelar o que estava oculto sob o vidro.

Julian Vane achava que tinha o controle de tudo. Mas ele esqueceu que a fotografia é a arte de capturar o que os olhos tentam ignorar. E eu ia capturar a alma dele, nem que para isso eu tivesse que ver o meu próprio mundo desabar junto.

Parei o carro diante do casarão antigo. Ele estava abandonado, as janelas como órbitas vazias observando o gigante de aço que crescia a poucos metros dali. No topo da Torre Vane, uma única luz brilhava no quadragésimo andar.

Julian ainda estava lá. Sozinho com suas sombras.

Amanhã, a demolição começaria. Eu tinha menos de doze horas para encontrar a rachadura na fundação de Julian Vane. E, no fundo, eu sabia que a maior rachadura era eu.

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