Ele nunca quis ser pai. Implacável, frio como o inverno de Moscou, Dmitri Volkov cresceu destinado a assumir o trono da máfia russa. Para ele, filhos eram fraqueza, uma distração perigosa em um mundo governado por sangue e poder. Por isso, congelou seu sêmen apenas por precaução, não por desejo. Mas quando o conselho dos Volkov exige um herdeiro, Dmitri descobre um erro que jamais poderia ser perdoado: seu material genético foi usado em outra paciente. Enfurecido, ele rompe o noivado, executa o médico responsável e exige a identidade da mulher que carrega o que agora considera sua maior herança. Aquela criança pertence a ele, custe o que custar. O que Dmitri não esperava era encontrar Anya Petrova, uma mulher quebrada pela dor, mas disposta a tudo para proteger o bebê. Ela havia perdido o marido e a filha em um acidente brutal, e aquela gravidez era sua última chance de ser mãe. Entregar o filho? Nunca. Mas Dmitri Volkov não conhece a palavra “não”. Se ela não abrir mão da criança, então se tornará sua esposa.
Ler maisNarrado por Dmitri VolkovO dia seguinte começou antes do sol. O relógio marcava seis da manhã quando deixei o prédio, Mikhail já me aguardava com o carro aquecido. O frio de Moscou cortava como lâmina de gelo, mas dentro de mim havia uma outra temperatura: febre de decisão.Dmitri: — Hoje quero ver essa mulher.Mikhail apenas assentiu, acelerando pelas ruas ainda vazias. Eu não era homem de esperar relatórios no conforto da sala. Precisava olhar nos olhos, medir o peso da carne, sentir a distância entre mim e o futuro.Parou o carro a poucos metros do café “Volna”. A rua ainda bocejava, mas o cheiro de pão quente já escapava pela porta. Da janela escura do carro, observei o movimento.Às 7h20 exatas, ela apareceu.Anya Petrova.Não precisei de dossiê para reconhecê-la. O corpo reconhece antes da mente quando se trata do que lhe pertence. Cabelos escuros presos de qualquer jeito, sobretudo simples, cachecol gasto. Nada de ostentação. Mas havia algo nos passos — firmes, ainda que marca
Narrado por Dmitri VolkovEntrei no carro ainda com o cheiro de pólvora grudado no terno. O couro do banco recebeu meu peso como se engolisse a raiva no lugar do motor. Mikhail fechou a porta do passageiro, ajustou o retrovisor e aguardou a ordem. Eu não olhei para ele; olhei para a rua, Moscou corria como um rio gelado, indiferente ao que eu acabara de fazer.Dmitri: — Você tem quatro horas para encontrar Anya Petrova. Nome completo, endereço, onde trabalha, rotina, telefone, familiares vivos, contas, consultas médicas. Quero tudo na minha mesa. Rápido.Mikhail não precisou respirar duas vezes.Mikhail: — Sim, senhor.Dmitri: — Agora me deixe em casa. Estou estressado, e o conselho vai me infernizar porque acabei de encerrar o noivado com a Catarina.Mikhail me lançou um olhar de canto, daqueles que só um homem que te acompanha desde os quinze anos ousa sustentar.Mikhail: — Meu amigo… você acha que essa é a coisa certa a se fazer?Virei o rosto devagar, sustentando o dele.Dmitri: —
Narrado por Dmitri VolkovQuando o carro parou diante da clínica, vi Catarina já me aguardando na calçada. Vestido claro demais, salto alto demais, sorriso falso demais. Ela parecia sempre saída de uma vitrine, mas sem alma dentro.Ela se aproximou rápido, ajeitando a bolsa no ombro.Catarina: — Dmitri, pensei que… pensei que você fosse me buscar em casa.Ignorei. Caminhei em direção à porta de vidro, e ela correu ao meu lado, forçando uma conversa.Catarina: — Está frio hoje, não é? Moscou parece cinza quando o inverno se aproxima.Continuei em silêncio. Não estava ali para falar sobre clima, muito menos para fingir intimidade com ela.O recepcionista abaixou os olhos quando me reconheceu. As portas automáticas se abriram, e seguimos pelo corredor até o consultório reservado. Dois médicos nos esperavam: um mais velho, de jaleco impecável, e uma jovem auxiliar ao lado.Médico: — Senhor Volkov, senhorita Smirnova… bom dia. Temos um detalhe importante a tratar antes do procedimento.Sen
Narrado por Dmitri Volkov A sede da Bratva parecia sempre a mesma: o corredor comprido, o piso de mármore negro refletindo as luzes frias, os quadros antigos mostrando rostos de homens que comandaram Moscou pela sombra. O cheiro de madeira envernizada, uísque caro e pólvora antiga vivia ali, impregnado nas paredes como uma oração silenciosa. Entrei sem pressa, o casaco escuro caindo pesado sobre os ombros, e dois seguranças abriram a porta dupla do salão como se estivessem abrindo um tribunal. A mesa do conselho era uma cruz de carvalho maciço. Sobre ela, castiçais prateados, papéis, anéis grossos estalando contra a madeira quando os velhos se mexiam. Eram homens que tinham sobrevivido a guerras, traições e invernos. Homens que conheciam a palavra medo só no dicionário e mesmo assim a reescreviam. Eu os respeitava. Não por afeto, mas porque eram parte da máquina que eu iria herdar. Conselheiro Ivanov: — Dmitri, o casamento está próximo. Com ele, vêm responsabilidades que você não
Narrado por Anya Petrova Eu acreditava que nunca mais sorriria. Depois do fogo, depois das sirenes, depois do barulho das madeiras estalando como ossos quebrados… eu tinha certeza de que não existia mais nada capaz de arrancar um sopro de alegria de dentro de mim. O incêndio queimou minha casa, mas também queimou meu coração. Eu me lembro do cheiro. Deus, como eu me lembro do cheiro. Fumaça misturada a carne, tecidos encharcados de gasolina, plástico derretendo. Me lembro da sensação de ter as mãos arranhadas, tentando abrir a porta que já ardia em chamas, enquanto minha filha gritava do quarto e meu marido berrava o meu nome, tentando alcançá-la. E eu? Eu fui arrastada para fora pelos vizinhos, chutando, me debatendo, implorando que me deixassem voltar. Mas ninguém sobrevive a uma casa inteira em chamas. Esse foi o dia em que morri junto com eles. O corpo continuou aqui fora, respirando, caminhando, cumprindo tarefas banais. Mas por dentro, eu me tornei cinzas. Até hoje, às v
Último capítulo