Quero ver essa mulher

Narrado por Dmitri Volkov

O dia seguinte começou antes do sol. O relógio marcava seis da manhã quando deixei o prédio, Mikhail já me aguardava com o carro aquecido. O frio de Moscou cortava como lâmina de gelo, mas dentro de mim havia uma outra temperatura: febre de decisão.

Dmitri: — Hoje quero ver essa mulher.

Mikhail apenas assentiu, acelerando pelas ruas ainda vazias. Eu não era homem de esperar relatórios no conforto da sala. Precisava olhar nos olhos, medir o peso da carne, sentir a distância entre mim e o futuro.

Parou o carro a poucos metros do café “Volna”. A rua ainda bocejava, mas o cheiro de pão quente já escapava pela porta. Da janela escura do carro, observei o movimento.

Às 7h20 exatas, ela apareceu.

Anya Petrova.

Não precisei de dossiê para reconhecê-la. O corpo reconhece antes da mente quando se trata do que lhe pertence. Cabelos escuros presos de qualquer jeito, sobretudo simples, cachecol gasto. Nada de ostentação. Mas havia algo nos passos — firmes, ainda que marcados pelo peso da madrugada.

Ela entrou no café, comprou um chá e saiu cinco minutos depois, segurando o copo com as duas mãos. A rotina funcionava como um ritual, e eu sabia que rituais são pontos fracos: previsíveis, fáceis de vigiar, fáceis de quebrar.

Segui com os olhos até que atravessasse a rua e entrasse no portão do Instituto Orfeu. O porteiro a cumprimentou com familiaridade. Ela sorriu. Pequeno, curto, mas real. Um sorriso que ela não me daria. Ainda.

Mikhail: — Viu o que precisava?

Dmitri: — Ainda não.

Apontei para o prédio.

Dmitri: — Quero ela vigiada. Rostov fica no quiosque. Ilya cobre a saída lateral. Relatórios de hora em hora. Nenhum erro.

Mikhail: — Entendido.

Acendi um cigarro, observando a fumaça dançar contra o vidro da janela. Pensei em como o destino é um covarde que gosta de se vestir de acidente. Esse acaso — um erro de laboratório, uma troca de amostras — tinha colocado dentro de uma mulher que não conhecia a única coisa que os velhos do conselho passariam a vida inteira me cobrando. Um herdeiro.

Eu não pedi por isso. Mas agora era meu.

Passei o dia entre reuniões e relatórios da Bratva, mas a mente voltava sempre para o portão da escola. Às 15h40, recebi a primeira foto: Anya deixando o prédio com uma pilha de cadernos nos braços. O cabelo preso começava a soltar mechas rebeldes. O olhar cansado, mas não abatido.

Ela parou no supermercado, comprou pão, frutas, chá. Nada caro, nada extravagante. Vida modesta. O contraste com o mundo em que eu vivia me atingiu como soco. Não de admiração — de cálculo. Seria fácil dobrá-la.

Às 18h, já estava em casa. Luz da sala acesa. Cortinas entreabertas. Li relatórios de movimentações bancárias, de alunos que gostavam dela, de pais que a elogiavam por “ser firme e doce ao mesmo tempo”. Sorrio. Doces quebram fácil. Os firmes, mais fácil ainda.

Mikhail voltou ao meu apartamento às 19h com novas pastas.

Mikhail: — Rotina confirmada. Nada suspeito. Uma vida comum.

Abri a pasta, passando folha por folha. Fotos dela sentada numa biblioteca, lendo para um grupo de crianças. Voz anotada: “calma, envolvente”. Outro recorte: indo a consultas médicas. Outro: caminhando pela rua de cabeça baixa, sem segurança, sem ninguém por perto.

Dmitri: — Frágil.

Mikhail: — Não parece alguém que vá te enfrentar, Don.

Fechei a pasta, encarando a lareira apagada diante de mim.

Dmitri: — Todos enfrentam, Mikhail. A questão é quanto tempo resistem antes de quebrar.

Silêncio. Apenas o som distante do vento batendo contra as janelas.

Mikhail quebrou.

Mikhail: — E o conselho? Eles vão pressionar pela Catarina.

Ri baixo, sem humor.

Dmitri: — O conselho quer coroas em cabeças ocas. Eles se esquecem que eu já sou coroa sem precisar de um altar. Catarina era uma peça de xadrez. Mas agora o jogo mudou.

Levantei-me, caminhando até a janela. Moscou piscava com seus letreiros de neon, carros se movendo como sangue em veias congeladas.

Dmitri: — Essa mulher… Anya… carrega algo que não pedi, mas que é meu. Não quero ser pai, Mikhail. Não quero a porcaria de uma criança me enchendo o ouvido.

Mikhail: — Eu sei.

Dmitri: — Mas também não quero que meu filho cresça longe de mim. Não quero o nome Volkov correndo solto pelo mundo como se fosse de qualquer um. Essa criança vai nascer sob o meu teto. Sob o meu comando. E ela…

Parei a frase no meio. Não precisava completá-la em voz alta.

Mikhail me olhou com a calma que só os velhos cães de guerra possuem.

Mikhail: — E se ela resistir?

Virei o rosto, encontrando os olhos dele.

Dmitri: — Então ela aprende.

O relógio da parede marcava 21h30 quando o relatório final do dia chegou: luzes da casa dela apagadas. Anya dormia. Eu, não.

Sentei-me outra vez à mesa, abri a pasta, encarei a foto dela no crachá do colégio. O olhar sério, quase desafiador, como quem já conheceu a dor e ainda assim insiste em respirar. Uma mulher assim pode lutar. E eu gosto quando lutam. Dá mais prazer quebrar.

Passei a ponta do dedo pelo papel, quase um afago.

Dmitri: — Amanhã.

Mikhail ergueu o olhar.

Mikhail: — Amanhã o quê?

Dmitri: — Amanhã vou vê-la de perto. Não pelas câmeras. Não pelo vidro de um carro. Quero ouvir a voz. Quero sentir se o sangue dela corre rápido quando eu estiver por perto.

Mikhail apenas assentiu.

Levantei da mesa, peguei o copo de uísque e fui até a sacada. O frio mordeu meu rosto, mas não senti. Olhei para o horizonte da cidade e pensei no fogo que consumiu a vida dela. Eu não sabia dos detalhes, ainda. Só sabia que uma mulher que sobrevive a um incêndio não é fácil de apagar.

Sorri.

Eu não estava planejando apagar. Eu estava planejando incendiar de novo, só que dessa vez, sob as minhas regras.

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