Informações

Narrado por Dmitri Volkov

Entrei no carro ainda com o cheiro de pólvora grudado no terno. O couro do banco recebeu meu peso como se engolisse a raiva no lugar do motor. Mikhail fechou a porta do passageiro, ajustou o retrovisor e aguardou a ordem. Eu não olhei para ele; olhei para a rua, Moscou corria como um rio gelado, indiferente ao que eu acabara de fazer.

Dmitri: — Você tem quatro horas para encontrar Anya Petrova. Nome completo, endereço, onde trabalha, rotina, telefone, familiares vivos, contas, consultas médicas. Quero tudo na minha mesa. Rápido.

Mikhail não precisou respirar duas vezes.

Mikhail: — Sim, senhor.

Dmitri: — Agora me deixe em casa. Estou estressado, e o conselho vai me infernizar porque acabei de encerrar o noivado com a Catarina.

Mikhail me lançou um olhar de canto, daqueles que só um homem que te acompanha desde os quinze anos ousa sustentar.

Mikhail: — Meu amigo… você acha que essa é a coisa certa a se fazer?

Virei o rosto devagar, sustentando o dele.

Dmitri: — Você está falando com o Don ou com o seu amigo?

Mikhail apertou o volante. A pergunta pesou entre nós como um machado prestes a cair.

Mikhail: — Com o amigo.

Dmitri: — Como seu amigo, eu quero mais é que a Catarina se foda.

Um músculo saltou na mandíbula dele; não de reprovação, de reconhecimento. Ele me conhecia.

Dmitri: — Como Don, eu sei que vão me encher o saco. Os Smirnov vão chorar para o conselho, os velhos vão soprar tradições no meu ouvido. Mas existe uma mulher esperando um filho meu. Eu não quero ser pai, e você sabe disso melhor do que ninguém.

Mikhail: — Eu sei.

Dmitri: — Mas também não quero meu filho por aí, circulando como se fosse coisa de ninguém. Essa criança me pertence. Eu vou criá-la no meu mundo, sob minhas regras. Então você vai descobrir onde a mãe do meu filho mora, onde trabalha, com quem fala, o que teme. Eu quero saber tudo sobre ela. Tudo.

Mikhail assentiu uma única vez. O motor respondeu ao comando e seguimos. O vidro gelado encostou na minha têmpora. Por um instante, fechei os olhos para a cidade e vi apenas uma palavra, batendo como um carimbo na minha mente: Anya.

Não era a face dela, eu ainda não a tinha, era a ideia. A semente do meu império germinando no útero de uma desconhecida. O acaso tinha ousado fazer uma jogada comigo. Eu não deixaria a moeda cair no chão. Pegaria no ar e guardaria no bolso.

Subimos a alça do anel viário, cortando o tráfego denso. A neve anunciava presença no ar, aquela umidade que só Moscou entende, um frio que entra pelo osso e estabelece residência. Pensei no conselho: na saliva santa dos velhos, na palavra “herdeiro” pendurada no teto como um lustre de cristal prestes a despencar. Pensei em Catarina, carregada de perfume e de prazos, e senti o ódio tranquilo que me visita quando tentam me domesticar.

Mikhail estacionou na garagem do meu prédio. O elevador antigo me subiu como um veredito. Dentro do apartamento, tirei o paletó, o coldre, o relógio, um ritual de destituição voluntária. Lavei as mãos demorada e silenciosamente, observando o sangue secar e sumir pelo ralo, como se isso bastasse para me limpar da manhã. Não bastava. Ainda assim, me sentei à mesa da sala de estar, vazia, limpa, preparado para receber o dossiê que pedi.

O relógio correu. Liguei a televisão sem som, uma cidade qualquer ardia em outro canto do mundo, desliguei de novo. Caminhei até a janela e bebi um gole de uísque e deixei o resto olhar para mim do copo. Quando a ansiedade vem mascarada de planejamento, aprendi a não negociar com ela: eu a sento à minha frente e fico encarando até que desista.

Três horas depois, a campainha.

Mikhail entrou com uma pasta de couro preto, sem logotipo, sem nada. Como deve ser. Colocou-a sobre a mesa e abriu, virando os documentos na minha direção. A organização dele sempre foi um elogio à minha impaciência: primeiro a ficha limpa, depois camadas de contexto, depois a sujeira, se houvesse.

Mikhail: — O que temos, Don.

Peguei a primeira folha. Foto 3x4 grampeada no topo, corte reto de cabelo, olhos claros que não sorriem para a câmera. Não era bonita no sentido que as revistas entendem, era… limpa. Havia uma gravidade no olhar, quem já ficou diante do fogo aprende a olhar sem piscar.

NOME COMPLETO: Anya Sergeyevna Petrova.

IDADE: 25 anos.

ESTADO CIVIL: Viúva.

ENDEREÇO: Ulitsa Ostozhenka, 37 — apartamento 402 — Zamoskvorechye, Moscou.

TELEFONE: +7 (495) 555-0147.

E-MAIL: a.s.petrov@orfeu.edu.ru.

Dmitri: — Zamoskvorechye. Classe média alta. Silencioso. Onde ela trabalha?

Mikhail virou a próxima folha.

Mikhail: — Instituto Privado Orfeu. Colégio particular de tradição, zona central. Ela leciona Língua e Literatura Russa para o ensino médio (9º ao 11º ano).

HORÁRIOS: de segunda a sexta, 7h30 às 15h30; plantões de correção às quartas, 17h às 19h.

TURMAS: 9B, 10A, 11C.

SALA: Bloco Humanidades, 3º andar, sala H-305.

COORDENAÇÃO: Diretor Andrei Leonidovich Kruglov; Coordenadora acadêmica: Olga Mikhailovna Trofim.

ENTRADA/SAÍDA: acesso por portaria eletrônica; câmera no portão principal; rua tranquila; livraria “Bukvoyed” na esquina; café “Volna” em frente — ela costuma comprar chá às 7h20.

Havia um mapa impresso com marcações discretas. Rotas de fuga. Ponto cego de câmera. Horários em que a portaria troca de turno. Mikhail não coleciona dados; desenha possibilidades.

Passei a folha. Veio o passado.

HISTÓRICO PESSOAL:

— Casada com Ivan Aleksandrovich Petrov (falecido), técnico de manutenção ferroviária.

— Filha: Yulia Ivanovna Petrov (falecida), 3 anos à época.

— Evento: Incêndio residencial — 18 de novembro, dois anos atrás. Laudo indica curto-circuito na fiação da sala. Vítimas: marido e filha. Anya foi retirada por vizinhos com queimaduras de primeiro grau e inalação de fumaça. Permaneceu 48h em observação.

— Nenhum registro criminal. Nenhuma dívida bancária relevante. Conta corrente com saldo baixo e movimentação regular de salário.

As fotos anexas eram jornalismo barato: recortes de um site local, a fachada escurecida, uma maca coberta por um lençol, vizinhos com cobertores. A tragédia de alguém sempre rende cliques para outro alguém. Senti a ponta da lâmina fria que o destino gosta de exibir na minha frente,não dói, mas corta a paisagem.

Mikhail: — Há terapia quinzenal, doutora Nina Pavlovna Zaitseva, no consultório da Kolymazhny Pereulok. Aprendi que Anya caminha até lá quando o dia está bom. Quando não está, pega o metrô — Linha Serpukhovsko-Timiryazevskaya, estação Polyanka.

Dmitri: — Consultas médicas atuais?

Mikhail avançou no bloco seguinte.

Mikhail: — Clínica Serebryanaya, ginecologia/reprodução humana. Pac. Anya Sergeyevna Petrova. Procedimento de fertilização in vitro realizado recentemente. Hoje, 08h40, ela recebeu confirmação de gravidez: beta HCG positivo. Próxima ultrassonografia recomendada para daqui a duas semanas. Prescrições: ácido fólico, vitamina D, progesterona. Contato da médica: Dra. Yelena Vassilievna Orlova.

As letras eram limpas, as carimbadas firmes. Fatos não tremem, pessoas sim.

Mikhail: — Rotina nos últimos sessenta dias:

06h30 — acorda; 07h10 — sai de casa; 07h20 — chá no café “Volna”; 07h28 — entra no Instituto; 15h40 — sai; 16h00–16h30 — supermercado “Azbuka Vkusa” às segundas e quintas; 18h–19h — leitura em casa (luz da sala acesa, cortinas semifechadas); 21h30 — apaga as luzes. Finais de semana, visita uma biblioteca comunitária em Zamoskvorechye, onde lê para crianças aos sábados, 10h. Desde a fertilização, eliminou o café — substituiu por chá ou água.

Dmitri: — Amigos? Família viva?

Mikhail: — Mãe falecida. Pai ausente, sem registro recente — provável abandono quando ela era criança. Rede social discreta: perfil privado, 312 seguidores, quase todos colegas de trabalho e ex-alunos. Duas amigas com presença recorrente: Polina Sidorova (professora de artes no mesmo Instituto) e Darya Kuznetsova (bibliotecária). Nenhum relacionamento visível desde a viuvez.

Virei a última camada. Uma impressão ampliada da foto do crachá do colégio. O olhar de Anya, mesmo comprimido por pixels ruins, tinha uma firmeza que não se compra. Não é coragem de filme é a teimosia de quem não morre fácil.

Dmitri: — Telefone?

Mikhail apontou para a linha.

Mikhail: — Confirmado. +7 (495) 555-0147. Aparelho: Xiaomi Redmi Note 12, plano pré-pago. Ligações curtas; mensagens frequentes com Polina e Darya, linguagem simples. Nenhum contato masculino recorrente. Endereço IP caseiro em nome do condomínio. Câmeras do prédio funcionalmente ativas, porém com um ponto cego no elevador entre o 3º e o 4º andares. Portaria com funcionário fixo: Sergei Vladimirovich, 61 anos, veterano de guerra, teimoso, mas conversável.

Mikhail fechou a pasta e recuou um passo, como quem devolve a cena ao diretor.

Mikhail: — Mais alguma coisa?

Passei o indicador pela borda do papel, um hábito ruim quando penso. Ela tinha 25 anos. Professoras costumam acreditar que podem salvar o mundo com livros. O mundo queima livros. Eu salvo coisas de outro jeito.

Dmitri: — Quero nova verificação em quarenta e oito horas. Consultas, movimentações, quem toca a campainha, quem olha para a janela dela. Qualquer alteração no padrão, você me liga, não importa a hora.

Mikhail: — Sim, senhor.

Dmitri: — E providencie acesso visual. Um ponto discreto no café em frente ao Instituto. Se possível, quero imagens do portão, da calçada, da sala H-305. Sem alarmes. Sem erros. Hoje já fiz barulho demais.

Mikhail: — Posso posicionar Ilya e Rostov no quiosque de jornais, turnos alternados.

Dmitri: — Faça.

Ele guardou os papéis que não ficaram comigo e ajeitou o casaco.

Mikhail: — Don… e quanto à Catarina?

Sorri sem mostrar os dentes.

Dmitri: — Catarina é barulho para amanhã. Hoje, Anya é o assunto.

Mikhail assentiu. Andou até a porta, mas parou.

Mikhail: — Você disse que não quer ser pai.

Dmitri: — E não quero.

Mikhail: — Então por que tudo isso?

O silêncio durou o necessário para doer.

Dmitri: — Porque eu não deixo o destino decidir por mim. E porque o que carrega o meu nome… me pertence.

Mikhail: — Entendido.

A porta se fechou. Fiquei sozinho com a pasta aberta e o futuro espalhado em papel sobre a mesa. Passei os olhos de novo pela rotina, pela sala H-305, pelo chá das 7h20 no “Volna”. Por um segundo, imaginei o som da voz dela em sala de aula, firme, alinhada, talhando poesia para adolescentes que jamais entenderão a diferença entre metáfora e sobrevivência.

Não era ternura. Era reconhecimento. Quem sobrevive ao fogo aprende a negociar com a noite.

Amanhã, às 7h15, eu estaria parado do outro lado da rua. Não para falar. Para ver. Para medir. Para aprender a distância exata entre a minha sombra e a dela.

Eu não queria ser pai. Continuava verdadeiro. Mas eu já tinha uma decisão: meu herdeiro não vai caminhar pelo mundo sem saber a quem pertence.

Fechei a pasta. O couro estalou como um acordo. E a cidade, lá fora, continuou correndo, gelada, obediente, perfeita para lobos.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App