Narrado por Dmitri Volkov
Quando o carro parou diante da clínica, vi Catarina já me aguardando na calçada. Vestido claro demais, salto alto demais, sorriso falso demais. Ela parecia sempre saída de uma vitrine, mas sem alma dentro.
Ela se aproximou rápido, ajeitando a bolsa no ombro.
Catarina: — Dmitri, pensei que… pensei que você fosse me buscar em casa.
Ignorei. Caminhei em direção à porta de vidro, e ela correu ao meu lado, forçando uma conversa.
Catarina: — Está frio hoje, não é? Moscou parece cinza quando o inverno se aproxima.
Continuei em silêncio. Não estava ali para falar sobre clima, muito menos para fingir intimidade com ela.
O recepcionista abaixou os olhos quando me reconheceu. As portas automáticas se abriram, e seguimos pelo corredor até o consultório reservado. Dois médicos nos esperavam: um mais velho, de jaleco impecável, e uma jovem auxiliar ao lado.
Médico: — Senhor Volkov, senhorita Smirnova… bom dia. Temos um detalhe importante a tratar antes do procedimento.
Sentei-me na poltrona de couro. Cruzei as pernas. Minha paciência já era curta.
Dmitri: — Fale.
Ele respirou fundo, o suor surgindo na testa.
Médico: — Houve um erro… uma falha no cruzamento genético. A amostra de sêmen… a sua amostra, senhor Volkov… foi utilizada em outra paciente.
O silêncio durou um segundo. Depois, Catarina explodiu.
Catarina: — O quê?! Isso é um absurdo! Você está dizendo que… que outra mulher está grávida do filho dele?!
Meu maxilar travou. Inclinei o corpo para frente.
Dmitri: — Repita.
O médico engoliu em seco.
Médico: — A sua amostra foi implantada em outra paciente. Um erro… um acidente…
Levantei. O couro da poltrona rangeu atrás de mim.
Dmitri: — Qual o nome dela?
Médico: — Eu… não posso revelar. É sigiloso.
A risada que saiu da minha boca não tinha humor. Era ameaça pura. Avancei, agarrei o jaleco dele com uma das mãos e o soco veio com a outra. O barulho do osso do nariz quebrando ecoou no consultório. Ele gritou, o sangue jorrou.
Dmitri: — O nome. Agora.
Médico: — Eu… não posso…!
O segundo soco quebrou-lhe os dentes da frente. A auxiliar gritava, tentando recuar contra a parede. Eu não estava ali para ouvir gritos. Segurei o médico pela gola, bati a cabeça dele contra a mesa de aço.
Dmitri: — O nome.
Ele chorava sangue. As palavras saíram cuspidas com dentes.
Médico: — Anya… Anya Petrova…
Soltei. Ele caiu no chão como um saco de lixo. O som da respiração dele era uma bolha de sangue nos pulmões. Eu puxei a arma do coldre e disparei. O estampido ecoou dentro da sala, abafado pelo vidro duplo da clínica.
Um segundo tiro. Um terceiro. A auxiliar caiu no canto, as mãos erguidas. Não hesitei. Dois tiros nela também. O sangue respingou no jaleco estéril. Outro médico tentou correr pelo corredor quando ouviu os disparos. Atirei nele antes que alcançasse a saída. O corpo deslizou pelo chão branco, deixando uma trilha vermelha.
Silêncio.
Só o eco da pólvora no ar e o cheiro metálico que se espalhava.
Guardei a arma no coldre e saí do consultório.
Catarina corria atrás de mim, os saltos ecoando. O rosto dela estava branco, os olhos arregalados de horror.
Catarina: — Dmitri! O que você vai fazer?!
Parei no corredor, virei o rosto lentamente para ela.
Dmitri: — Primeiro, o nosso noivado termina aqui.
Ela piscou, atônita.
Catarina: — O quê?
Dmitri: — Isso mesmo que ouviu. O noivado acabou.
As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela.
Catarina: — Você não pode! Eu não vou aceitar isso! Meu pai não vai aceitar! A máfia não vai aceitar!
Aproximei-me devagar, olhando-a nos olhos.
Dmitri: — Eu quero que seu pai se foda. Eu quero que você se foda.
A voz dela falhou, um soluço atravessando a garganta.
Catarina: — Dmitri… você não pode…
Dmitri: — Só não mando a máfia se foder também porque faço parte dela. Agora, se me dá licença…
Passei por ela sem olhar para trás.
Dmitri: — Tenho uma mulher para encontrar.
As portas da clínica se abriram, e o vento frio de Moscou entrou junto comigo. Atrás de mim, ouvi Catarina desabar no chão, chorando. Não me importei. O nome ecoava na minha mente como uma sentença: Anya Petrova.
A mulher que carregava meu herdeiro.
A mulher que agora era minha.