Grávida do Mafioso Por Acidente
Grávida do Mafioso Por Acidente
Por: M Souza
Positivo

Narrado por Anya Petrova

Eu acreditava que nunca mais sorriria.

Depois do fogo, depois das sirenes, depois do barulho das madeiras estalando como ossos quebrados… eu tinha certeza de que não existia mais nada capaz de arrancar um sopro de alegria de dentro de mim.

O incêndio queimou minha casa, mas também queimou meu coração.

Eu me lembro do cheiro. Deus, como eu me lembro do cheiro. Fumaça misturada a carne, tecidos encharcados de gasolina, plástico derretendo. Me lembro da sensação de ter as mãos arranhadas, tentando abrir a porta que já ardia em chamas, enquanto minha filha gritava do quarto e meu marido berrava o meu nome, tentando alcançá-la. E eu? Eu fui arrastada para fora pelos vizinhos, chutando, me debatendo, implorando que me deixassem voltar. Mas ninguém sobrevive a uma casa inteira em chamas.

Esse foi o dia em que morri junto com eles.

O corpo continuou aqui fora, respirando, caminhando, cumprindo tarefas banais. Mas por dentro, eu me tornei cinzas.

Até hoje, às vezes acordo no meio da noite achando que ainda sinto calor na pele. Às vezes o cheiro de fumaça invade meu nariz do nada, como se a morte tivesse grudado em mim.

E foi por isso que eu nunca pensei que voltaria a sorrir.

Mas ali estava eu, sentada na poltrona branca da clínica, com a mão apoiada no ventre silencioso, esperando um resultado que parecia impossível. Minhas unhas cravavam na própria pele, o coração batia como um tambor em guerra.

Médica: — Parabéns, senhora Petrova. O beta HCG confirmou. A senhora está grávida.

A voz dela não veio sozinha.

Veio com um estouro dentro da minha cabeça, como fogos de artifício silenciosos. Eu não consegui responder. Não consegui mexer um músculo. Fechei os olhos e senti uma lágrima quente escorrer pelo meu rosto.

Era real.

Depois de tantas noites suplicando uma segunda chance, ela estava ali. Dentro de mim.

Médica: — É importante marcar os primeiros exames, iniciar a suplementação e…

As palavras dela se perderam. O consultório sumiu. A realidade inteira ficou distante. Eu só conseguia ouvir o som da minha respiração e o bater acelerado do meu coração, como se ele quisesse confirmar que ainda havia vida em mim.

Levantei da poltrona como quem carrega uma coroa invisível. A pasta com os papéis da fertilização pesava nos meus braços como um tesouro. Cada passo até a porta parecia leve demais, como se eu caminhasse suspensa.

Lá fora, o mundo seguia igual: carros, buzinas, pessoas apressadas. Mas para mim, tudo tinha mudado.

Milagre.

Essa foi a palavra que se grudou na minha mente.

Cheguei em casa e fechei a porta atrás de mim. O silêncio do apartamento me envolveu, e pela primeira vez em muito tempo, não me pareceu sufocante. Encostei as costas na madeira fria da porta e deslizei até o chão. O choro veio antes mesmo que eu pudesse segurar. Um choro diferente, não era de dor, nem de desespero, mas de alívio.

Coloquei as duas mãos sobre o ventre e sorri entre lágrimas.

Anya: — Vai dar certo dessa vez… eu prometo, meu amor.

E eu acreditava de verdade nisso.

Fechei os olhos e uma lembrança atravessou minha mente. A fumaça. Os gritos. O calor insuportável. Eu estava de novo na frente da minha casa em chamas, sendo segurada pelos braços fortes de um vizinho que me impedia de correr para dentro. Senti o mesmo desespero subir pela garganta.

Anya: — Não… não dessa vez…

Meu corpo inteiro tremia, mas quando abri os olhos, minhas mãos ainda estavam sobre a barriga. Era a prova de que algo tinha mudado. O passado podia me assombrar, mas não me venceria.

Anya: — Você vai viver. Você vai ter tudo o que eles não puderam ter.

As palavras saíram em um sussurro, mas foram um juramento.

Levantei devagar, enxuguei as lágrimas com a manga da blusa e caminhei até a cozinha. Fiz um chá qualquer só para ocupar as mãos. Enquanto a chaleira apitava, pensei em quantas vezes me vi sozinha naquela mesma cozinha, encarando o vazio, perguntando se algum dia teria forças para continuar. Agora não precisava mais perguntar. Eu tinha motivo.

Eu tinha alguém.

Me sentei na mesa com a xícara nas mãos e deixei a fumaça subir, mas dessa vez não era a fumaça que roubava, e sim a que aquecia. E isso fez diferença.

Passei a tarde com a mão sobre a barriga, mesmo sabendo que não sentiria nada ainda. Era como se eu precisasse lembrá-lo, ou lembrá-la, de que eu estava ali. Que eu não iria falhar de novo.

E no meio da noite, quando o sono não vinha, sentei na beira da cama e falei em voz baixa:

Anya: — Eu sei que você é pequeno demais pra me ouvir, mas vou falar mesmo assim. Você é tudo o que eu tenho. E eu vou lutar contra o mundo inteiro se for preciso. Você não vai queimar como eles queimaram. Você não vai desaparecer nas minhas mãos. Você vai ser forte, vai ser livre… e vai ser amado.

O silêncio respondeu, mas foi um silêncio diferente. Pela primeira vez em anos, não era vazio. Era um silêncio cheio de promessa.

E eu me deitei de novo, abraçada ao travesseiro, sorrindo entre lágrimas. Nada importava.

Porque eu tinha esperança de novo.

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