Narrado por Anya Petrova Eu acreditava que nunca mais sorriria. Depois do fogo, depois das sirenes, depois do barulho das madeiras estalando como ossos quebrados… eu tinha certeza de que não existia mais nada capaz de arrancar um sopro de alegria de dentro de mim. O incêndio queimou minha casa, mas também queimou meu coração. Eu me lembro do cheiro. Deus, como eu me lembro do cheiro. Fumaça misturada a carne, tecidos encharcados de gasolina, plástico derretendo. Me lembro da sensação de ter as mãos arranhadas, tentando abrir a porta que já ardia em chamas, enquanto minha filha gritava do quarto e meu marido berrava o meu nome, tentando alcançá-la. E eu? Eu fui arrastada para fora pelos vizinhos, chutando, me debatendo, implorando que me deixassem voltar. Mas ninguém sobrevive a uma casa inteira em chamas. Esse foi o dia em que morri junto com eles. O corpo continuou aqui fora, respirando, caminhando, cumprindo tarefas banais. Mas por dentro, eu me tornei cinzas. Até hoje, às v
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