Mundo ficciónIniciar sesiónUSP, 1994. Clara Albuquerque é mestre em ser invisível. Plus-size em uma década de padrões cruéis, ela esconde suas composições viscerais em um caderno e sua alma atrás de roupas largas. Seu único refúgio é a Cabine 4 do Conservatório, onde toca piano para o silêncio das madrugadas. Do outro lado da parede, Theo Montenegro, o "garoto de ouro" da natação, sufoca sob as medalhas e as expectativas de um pai tirânico. Ele não conhece o rosto da vizinha de ensaio, mas se apaixona pela melodia que ela emana. Através da madeira, nasce uma conexão entre dois estranhos que se sentem sós em meio à multidão. Quando as portas se abrem, o choque é inevitável. Theo precisará decidir se tem coragem de abdicar do pedestal para amar a mulher que o campus insiste em ignorar. Já Clara enfrentará seu maior medo: o de que sua voz merece o palco. Em um mundo de fitas cassete e julgamentos sussurrados, eles descobrirão que o amor não é o que nos muda, mas o que nos dá coragem para finalmente encontrarmos a felicidade e seguirmos em frente.
Leer másUniversidade de São Paulo, Outubro de 1994.
A garoa paulistana daquela madrugada não era apenas água; era uma cortina cinza e gélida que abafava os ecos do campus da USP, transformando a Cidade Universitária em um labirinto de concreto e sombras. No prédio do Departamento de Música, o relógio de parede do corredor principal marcava duas e quinze da manhã. O som rítmico do ponteiro dos segundos parecia o bater de um coração metálico, solitário, ecoando pelo piso de granilite encerado. Clara Albuquerque caminhava com os ombros encolhidos, as mãos enterradas nos bolsos de um cardigã de lã cinza que parecia dois números maior que o seu corpo. Seus coturnos faziam um barulho surdo, uma percussão tímida contra o chão. Ela evitava o próprio reflexo nas vitrines dos murais de aviso, onde cartazes amarelados anunciavam concertos que ela nunca teria coragem de protagonizar. Para Clara, o mundo durante o dia era um campo minado de olhares — alguns de pena, outros de escárnio, a maioria de uma indiferença que doía mais do que o ódio. Mas a madrugada... a madrugada era dela. Na escuridão, seu corpo plus-size não era um "problema de espaço" ou um "alvo de cochichos". Era apenas ela. Ela parou diante da porta de carvalho pesado da Cabine 4. O número de metal estava levemente descascado. Clara girou a chave, entrou e não acendeu a luz fluorescente. A claridade amarela dos postes da rua filtrava-se pela pequena janela alta, desenhando retângulos pálidos sobre o piano de cauda que dominava o cubículo. Clara sentou-se na banqueta de couro. O frio do assento atravessou o jeans, mas ela não se importou. Abriu o caderno de capa de couro desgastada e o colocou sobre o suporte de partituras. Não havia notas escritas ali, apenas palavras. Poesias que sangravam inseguranças e melodias que ela decorara na ponta dos dedos, mas que temia registrar no papel, como se o ato de escrever as tornasse reais demais para o mundo suportar. Suas mãos, gordinhas e de dedos ágeis, pairaram sobre as teclas brancas. Por um segundo, ela fechou os olhos. Respire, ela disse a si mesma em pensamento. Aqui, ninguém está olhando. Aqui, você não é "a garota gorda do fundo da sala". Aqui, você é a música. Ela começou a tocar. Não era uma peça de Chopin ou uma sonata de Beethoven. Era algo que nascera em uma noite de insônia, uma melodia melancólica que subia em arpejos delicados e caía em acordes menores, pesados, como o peso que ela sentia no peito toda vez que precisava atravessar o refeitório lotado. A música preenchia o espaço exíguo da cabine, vibrando na madeira, no vidro da janela, nos seus ossos. Era o som de alguém que pedia para ser encontrado, mas que tinha medo de ser visto. No corredor externo, a poucos metros dali, Theo Montenegro parou abruptamente. Ele carregava uma mochila de nylon atravessada no peito, ainda exalando o cheiro forte e químico de cloro que parecia ter se entranhado em seus poros permanentemente. Seus cabelos loiros estavam úmidos, e seus olhos azuis, geralmente focados e frios como o fundo de uma piscina de competição, pareciam cansados — uma exaustão que ia além dos músculos. Ele acabara de sair de um treino extra na piscina olímpica, uma punição autoimposta para baixar dois décimos de segundo que seu pai considerava "inaceitáveis". Theo estava a caminho da saída quando o som o atingiu. Ele nunca fora um homem de grandes sensibilidades artísticas — ou ao menos, era o que tentava convencer a si mesmo. Na casa dos Montenegro, a arte era vista como uma distração perigosa, um desvio de conduta para quem deveria estar focado em medicina e pódios. Mas aquela música... ela tinha uma textura. Era densa, triste e terrivelmente honesta. Theo aproximou-se da Cabine 4 com passos de caçador, tentando não fazer barulho. Ele encostou as costas na parede fria, exatamente ao lado da porta. Ele não queria entrar. Ele não queria interromper. Ele só queria... respirar. Pela primeira vez em semanas, a pressão no seu peito, aquela sensação de que havia uma mão invisível apertando seus pulmões, começou a ceder. Dentro da cabine, Clara se perdeu. Ela começou a cantar, um sussurro rouco que mal ultrapassava o som das cordas do piano. — "Eu me escondo sob as camadas que criei... esperando que o brilho não me denuncie... porque se você me vir de verdade, eu sei que vai desviar o olhar..." As palavras atingiram Theo como um soco. Ele fechou os olhos e encostou a nuca na parede. Ele sabia o que era querer se esconder. Ele passava dez horas por dia debaixo d'água justamente porque, lá embaixo, ninguém podia lhe fazer perguntas. Ninguém podia ver suas lágrimas ou seu cansaço. A água era seu esconderijo; a música parecia ser o dela. Ele estendeu a mão, os dedos longos e calejados roçando a superfície da porta de madeira. Ele sentiu a vibração da nota mais grave do piano. Foi um contato quase elétrico. Naquele momento, separados por dez centímetros de carvalho e anos-luz de contextos sociais, duas almas quebradas se tocaram. Theo queria abrir a porta. Ele queria ver quem era a dona daquela voz que parecia traduzir o silêncio que ele guardava no fundo da alma. Mas ele hesitou. O medo de quebrar o encanto, de descobrir que a realidade não era tão bela quanto o mistério, o manteve estático. Dentro da sala, Clara finalizou a música com um acorde de Dó menor que pareceu flutuar no ar por uma eternidade antes de desaparecer. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Ela limpou uma lágrima rápida que escapou e fechou o caderno com um estalo seco. Theo ouviu o movimento. Ouviu o som da banqueta sendo arrastada. Num reflexo de pânico, ele se afastou da porta e deslizou para a sombra da escadaria próxima, escondendo-se antes que ela pudesse sair. Clara abriu a porta e olhou para os dois lados do corredor deserto. O ar parecia diferente, carregado de uma eletricidade que ela não conseguia explicar. Ela ajustou o cardigã, sentindo um calafrio, e caminhou em direção à saída, desaparecendo na névoa da madrugada paulista. Theo saiu das sombras apenas quando o som dos passos dela sumiu. Ele caminhou até a porta da Cabine 4 e olhou para o pequeno visor de vidro. A sala estava vazia, mas o cheiro de um perfume suave, algo como baunilha e papel antigo, ainda pairava no ar. Ele não sabia o nome dela. Não sabia como era seu rosto. Mas, enquanto caminhava em direção ao seu carro sob a chuva fina, Theo Montenegro percebeu algo que mudaria sua vida para sempre: ele não estava mais sozinho no seu silêncio. A melodia dela agora vivia dentro dele. E ele faria qualquer coisa para ouvi-la novamente.Paraty, Rio de Janeiro. Dez anos depois. O som das ondas batendo suavemente no cais de pedra da cidade velha era o único metrônomo de que eu precisava agora. O ar aqui era diferente — denso, com cheiro de mar e de flores de primavera que teimavam em nascer entre as frestas das calçadas coloniais. Eu caminhava devagar, sentindo o peso familiar e reconfortante da sacola de lona no meu ombro. Dentro dela, não havia mais documentos secretos ou microfilmes. Apenas pão fresco, algumas frutas e um caderno de partituras novo.Eu já não usava mais o cardigã cinza. No seu lugar, um vestido de algodão leve, de um azul que lembrava o mar calmo. Minha postura não era mais a de quem pedia desculpas por existir; eu ocupava o meu espaço com uma calma que levei uma década para construir. Para os moradores da vila, eu era apenas a "professora Clara", a mulher reservada que dava aulas de piano para as crianças da comunidade e que vivia em um sítio escondido entre as montanhas e o oceano.Subi a tril
O navio de suprimentos cortava as águas do Atlântico como uma lâmina cega, gemendo sob o peso do seu próprio abandono. Theo e eu estávamos na cabine de comando, iluminados apenas pelo brilho verde e fantasmagórico dos radares. Ele manobrava o leme com as mãos trêmulas; a força que ele usara para quebrar o vidro do tanque na ilha parecia ter sido a última reserva de energia do seu corpo.— Estamos perto, Clara. O GPS indica que o litoral do Rio Grande do Norte está a menos de dez milhas — ele disse, a voz soando como se tivesse sido lixada por dentro.Olhei para o pequeno monitor de vigilância. O alvo vermelho intermitente sobre o nosso navio ainda estava lá. Quem quer que estivesse nos rastreando, não tinha pressa. Era a calma de um predador que sabe que a presa não tem para onde correr.— Theo, o alvo… ele parou de piscar — notei, sentindo um frio súbito.No segundo seguinte, o motor do navio tossiu uma fumaça negra e morreu. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas
A escuridão não era total. Era uma névoa cinzenta e pulsante, onde cada pensamento meu parecia ecoar contra as paredes da minha própria mente antes de se perder. O dispositivo na minha têmpora emitia um zumbido constante, uma frequência que tentava reorganizar as minhas memórias, transformando o meu amor por Theo em ruído e as ordens de Horácio em melodia pura.Abri os olhos com dificuldade. Eu não estava mais no quarto luxuoso. Estava num auditório circular, no subsolo da ilha. O teto era uma cúpula de vidro que mostrava a base da piscina oceânica, onde cardumes de peixes passavam, alheios ao horror abaixo deles. Eu estava presa a uma cadeira de metal frio, bem no centro de uma plataforma elevada. À minha frente, um piano de cauda negro brilhava sob os holofotes.— Clara? — A voz era um sussurro, mas não vinha de Theo.Virei a cabeça milímetro por milímetro. Sentada num banco lateral, com as mãos atadas, estava Beatriz. Mas não era a Beatriz altiva e fria que eu conhecia. Ela est
O sol que batia contra as paredes de vidro daquele quarto não parecia real. Era uma luz branca, cirúrgica, que não aquecia a pele, mas parecia atravessar os poros para expor cada segredo guardado. Eu estava parada na varanda, sentindo o cheiro da maresia se misturar ao perfume doce demais das flores exóticas que brotavam entre as fendas do mármore. Olhei para baixo, para o pátio onde centenas de jovens caminhavam em um transe coreografado, e senti um calafrio que nem o calor do meio-dia conseguia dissipar.— Clara? — A voz de Theo veio de trás de mim, carregada de um sono pesado e confuso.Virei-me e o vi sentado na beirada da cama imensa. Ele parecia um deus caído. O cabelo loiro estava bagunçado e os olhos azuis, antes tão focados, agora pareciam perdidos em uma névoa. Ele esfregou o rosto com as mãos grandes, as mesmas mãos que tinham me segurado no escuro das cabines, e soltou um suspiro que quebrou meu coração.— Onde… onde a gente está? — ele perguntou, a voz rouca.— No lug
O cheiro do Departamento de Música à noite era uma mistura de poeira antiga, verniz de violoncelo e o fantasma de todas as melodias que já haviam sido tocadas ali. Era um cheiro que eu conhecia melhor do que o perfume da minha própria mãe. Mas, naquela madrugada, o corredor que antes era meu santuário parecia a garganta de um monstro. As luzes de emergência emitiam um brilho amarelado e doentio, projetando sombras longas que dançavam nas portas das cabines como figuras acusadoras.Theo segurava minha mão com tanta força que eu sentia o pulso dele batendo contra a palma da minha mão. Ele ainda estava pálido, a experiência na clínica e o frio dos Alpes haviam deixado vincos novos ao redor de seus olhos azuis, mas ele caminhava com uma determinação que me assustava. Ele não era mais o garoto que se escondia debaixo d'água; ele era o homem que tinha voltado da morte para reivindicar o seu lugar.— Clara, tem algo errado — ele sussurrou, parando de repente na frente da Cabine 3. — O si
O barulho das hélices do helicóptero era um rugido constante que preenchia todo o vazio da minha cabeça. Eu estava sentada no chão da aeronave, apertada contra a maca de Theo, sentindo a vibração do motor subir pelas minhas pernas. O ar lá dentro cheirava a metal, oxigênio medicinal e ao frio persistente que parecia ter se transformado em uma camada permanente sobre a minha pele.Theo estava coberto por mantas térmicas prateadas que refletiam a luz fria da manhã. Ele estava com uma máscara de oxigênio, e seus olhos estavam fechados, mas sua mão ainda buscava a minha. Eu a segurava com tanta força que meus dedos doíam. Eu tinha medo de que, se eu soltasse por um segundo, ele voltaria para aquele túmulo de cristal sob a piscina.Olhei pela janela pequena e vi o vulto preto na neve sumindo. O homem do sobretudo. Ele tinha deixado algo para trás.— Arnaldo — chamei, minha voz mal saindo por causa da garganta seca. O advogado estava sentado à nossa frente, falando ao rádio com uma expr





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