As mãos de Beatriz eram pequenas e delicadas, mas a força com que ela rasgou aquele papel pareceu um trovão nos meus ouvidos. Eu fiquei ali, paralisada, sentindo a chuva fria de São Paulo começar a ensopar meu cardigã, enquanto observava os restos da mensagem de Theo boiando em uma poça suja.
"Fica longe dele, Clara." As palavras dela ainda zumbiam na minha cabeça como um enxame de abelhas. Eu queria ter tido uma resposta pronta, algo sarcástico ou corajoso, mas a verdade é que eu era apenas um deserto de palavras. Minha garganta estava fechada, bloqueada por aquele muro de insegurança que eu levava anos construindo. Eu era a garota discreta. A garota que não causava problemas. E Beatriz… ela era o sol. E ninguém desafia o sol sem sair queimado.
Abaixei-me com dificuldade, meus joelhos estalando contra o cimento úmido, e juntei os pedaços de papel. A tinta estava borrada, uma mancha azulada se espalhando pela fibra branca, mas a palavra "Hoje" ainda brilhava ali, como um farol em meio ao naufrágio.
O que ele queria me dizer? Por que tinha enviado Beatriz, logo ela, para me entregar um bilhete? A resposta óbvia martelava na minha mente: ele não a enviou. Ela o interceptou. Ela era a barreira entre o mundo de ouro dele e o meu mundo de sombras.
Voltei para casa de ônibus, sentindo o tecido úmido da minha roupa pesar contra a minha pele. O trajeto parecia mais longo do que o normal. Eu encostei a testa no vidro vibrante da janela e fechei os olhos.
Eu tinha dezesseis anos. Era a noite do baile da primavera na minha antiga escola. Minha mãe tinha passado semanas costurando um vestido de veludo azul marinho para mim. "Você está linda, Clara", ela dizia, os olhos brilhando. Eu quase acreditei. Por um momento, diante do espelho da sala, eu me senti como uma das garotas das revistas. Mas quando cheguei ao ginásio, o silêncio que me recebeu foi pior do que qualquer vaia. Eu vi o grupo de atletas no canto, os mesmos que passavam o ano rindo de mim. Um deles, o capitão do time de futebol, veio em minha direção. Ele me convidou para dançar. Meu coração quase explodiu de gratidão. Eu dancei, sentindo-me flutuar. Até que, no meio da música, ele se inclinou e sussurrou no meu ouvido: "Ganhei cinquenta reais para não deixar você sentada a noite toda. De nada, baleia". "Não importa o quanto a música seja bonita, Clara. O final da canção é sempre o mesmo. Você é o alvo. Você é a piada. Lembre-se disso para não sofrer de novo."
Abri os olhos com um solavanco. O ônibus tinha parado no meu ponto. Desci e caminhei apressada, sentindo o rosto quente apesar do frio. Eu não podia deixar Theo entrar. Não podia deixar que ele visse os destroços que eu era por dentro. A amizade dele — se é que se podia chamar assim — era um luxo que eu não podia pagar.
Passei a noite em claro. Tentei tocar o piano da sala, mas o som saía oco, sem vida. Cada vez que eu fechava os olhos, via o sorriso de Theo na piscina e, logo em seguida, a expressão venenosa de Beatriz.
No dia seguinte, cheguei à USP decidida a ser um fantasma. Evitei o refeitório, evitei os corredores principais e, principalmente, evitei o bloco de Educação Física. Eu me enterrei na biblioteca, cercada pelo cheiro reconfortante de papel velho e silêncio.
Eu dei um pulo na cadeira. Era o Professor Horácio. Ele carregava uma pasta de couro e me olhava com uma expressão severa.
— Você parece que viu um espírito — disse ele, sentando-se à minha frente sem pedir licença. — Ou talvez você seja o espírito. Por que está se escondendo hoje?
— Muita coisa para estudar, professor — menti, fechando meu livro de contraponto.
— Mentira. Você está com medo. O prazo do Festival termina amanhã. Eu tomei a liberdade de pegar a sua ficha de inscrição.
Ele deslizou um formulário sobre a mesa. Meu nome estava escrito lá, com a caligrafia elegante dele.
— Professor, eu não posso. Eu não… eu não tenho o que apresentar.
— Você tem aquela peça de ontem. "A Dança das Sombras", como você a chama. É magnífica. E se você não se inscrever, eu mesmo farei isso e direi à banca que você é apenas tímida demais para admitir o próprio gênio.
— Isso é chantagem — sussurrei, sentindo um misto de raiva e pavor.
— É incentivo — ele corrigiu, levantando-se. — O mundo é um lugar barulhento, Clara. Se você não gritar sua música, o barulho vai te engolir. Pense bem.
Ele me deixou ali com o formulário e um peso enorme no peito. Eu sabia que ele tinha razão, mas a voz de Beatriz ecoava: "Eu vou garantir que você perca sua bolsa".
A tarde passou como um borrão cinzento. Quando o relógio marcou sete da noite, eu sabia que tinha uma decisão a tomar. Eu podia ir para casa e desistir de tudo, ou podia ir para a Cabine 4.
Meus pés me levaram para o Departamento de Música quase por vontade própria. O prédio estava imerso naquela luz amarelada e melancólica do crepúsculo. Eu caminhei pelo corredor das cabines, sentindo cada nervo do meu corpo vibrar.
Parei diante da porta da Cabine 4. Hesitei. E se ele estivesse lá? E se Beatriz estivesse vigiando?
Entrei e tranquei a porta. Não acendi a luz. Sentei-me à banqueta e deixei o silêncio me envolver. Mas não era um silêncio calmo. Era um silêncio carregado, como o ar antes de uma tempestade.
Três batidas suaves na parede da Cabine 5.
Meu coração disparou. Eu não respondi. Fiquei imóvel, prendendo a respiração.
— Melodia? — A voz dele era um sussurro desesperado, quase um suplício. — Eu sei que você está aí. Por favor, fala comigo.
Eu apertei minhas mãos contra as coxas, tentando não tremer.
— Clara… eu sei o seu nome. A Bia me contou que falou com você.
Senti uma onda de náusea. Então ele sabia. Sabia que ela tinha me ameaçado? Sabia que ela tinha rasgado o bilhete?
— Por que você enviou ela, Theo? — perguntei, minha voz saindo quebrada, cheia de uma mágoa que eu não consegui esconder.
Houve um baque surdo do outro lado, como se ele tivesse batido a cabeça na parede.
— Eu não enviei. Ela pegou o envelope da minha mochila enquanto eu estava no chuveiro. Eu só descobri depois. Clara, eu sinto muito. Eu nunca quis que ela te machucasse. Ela… ela é complicada. Minha família e a dela têm negócios, e o meu pai insiste que a gente fique junto para manter as aparências. Mas eu não sinto nada por ela. Nada.
— Isso não muda o fato de que ela pode acabar com a minha vida aqui — respondi, encostando a testa na parede. — Ela me ameaçou, Theo. Ela disse que ia tirar minha bolsa. Eu não sou como você. Eu não tenho um pai rico para pagar minhas contas. Se eu perder isso aqui, eu não tenho nada.
— Eu não vou deixar nada acontecer com você. Eu juro.
— Você não pode prometer isso! — gritei, e minha voz ecoou no cubículo pequeno. — Você vive em um mundo onde tudo é possível. Eu vivo em um mundo onde eu tenho que pedir desculpas por ocupar espaço no banco do ônibus! Você me viu na piscina, Theo. Você viu quem eu sou. Você viu a garota que a Bia descreveu como "esquisita". Por que você ainda está aqui falando com uma parede?
Houve um longo silêncio. Tão longo que achei que ele tinha ido embora.
— Eu te vi na piscina, sim — ele disse finalmente. Sua voz estava tão perto que eu podia jurar que sentia o calor do seu hálito através das frestas da madeira. — Eu vi uma garota que foi a única que percebeu que eu estava afogando, mesmo estando fora da água. Eu vi alguém que tem uma coragem que eu nunca vou ter. E, Clara… você não é esquisita. Você é a coisa mais bonita que eu já vi em todo esse campus de concreto.
Eu comecei a chorar. Silenciosamente, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto e caindo sobre o meu cardigã cinza. Ninguém nunca tinha dito algo assim para mim. E, vindo dele, parecia um milagre e uma maldição ao mesmo tempo.
— Você está mentindo — solucei.
— Eu não minto sobre o que eu sinto. Eu passei a minha vida inteira sendo o que os outros queriam. A "perfeição" é uma prisão, Clara. E você é a chave. Quando você toca, eu sinto que posso respirar. Eu não me importo com o que a Bia diz, ou com o que o meu pai pensa. Eu só me importo com essa música.
Ele começou a tocar o piano da cabine dele. Não eram notas aleatórias dessa vez. Ele estava tentando tocar o tema da "Dança das Sombras". Ele errava as notas, o ritmo era incerto, mas a intenção era tão pura que doía.
— Toca comigo — ele pediu. — Por favor. Não me deixa sozinho aqui.
Eu limpei o rosto com a manga do cardigã. Abri o piano. Meus dedos encontraram as teclas e eu entrei na música dele, corrigindo as harmonias, sustentando as notas que ele deixava cair. Nós tocamos juntos, um dueto às cegas, uma ponte de som construída sobre o medo e a esperança.
Naquele momento, eu decidi. Eu não ia deixar Beatriz vencer. Eu não ia deixar o fantasma do baile de 1991 ditar o meu futuro.
— Theo? — chamei, quando a música terminou.
— Eu vou me inscrever no Festival.
Ouvi-o soltar um suspiro de alívio que pareceu um furacão.
— Isso é incrível, Clara. Você vai brilhar.
— Mas eu tenho uma condição.
— Eu quero que você toque comigo. No palco.
Houve um silêncio mortal do outro lado.
— Clara… eu não toco em público desde que a minha mãe morreu. Eu não consigo. Meus dedos travam.
— E eu não consigo subir naquele palco sozinha — respondi, sentindo uma coragem nova e assustadora. — Se formos os dois, talvez o barulho do mundo não seja tão alto. Você me protege do olhar deles, e eu te protejo do silêncio do seu pai.
— Você está me pedindo para enfrentar o meu maior medo — ele sussurrou.
— E você está me pedindo para enfrentar o meu. Estamos quites?
Ouvi o som dele se levantando.
— Amanhã, às oito da noite. No auditório principal. O prédio vai estar fechado, mas o Horácio me deu a chave para eu ensaiar sozinho. Vamos tentar, Clara. Só nós dois. Sem paredes.
— Sem paredes? — perguntei, a voz falhando.
— Chegou a hora de a gente se ver de verdade, Melodia. Você está pronta?
Eu olhei para as minhas mãos sobre o piano. Elas estavam tremendo, mas o desejo de ver o azul dos olhos dele de perto, sem o vidro da piscina ou as sombras da galeria, era maior do que o pavor da rejeição.
Saí da cabine e caminhei pelo corredor escuro. Eu sentia que estava caminhando em direção a um precipício, mas, pela primeira vez na vida, eu não estava tentando recuar.
No entanto, ao chegar à saída do prédio, vi uma silhueta parada sob o poste de luz. Era o pai de Theo. Ele estava fumando um cigarro, o rosto esculpido em gelo, olhando fixamente para a porta do Conservatório. Quando ele me viu sair, seus olhos se estreitaram em um reconhecimento frio.
Ele não disse nada, mas o jeito que ele jogou o cigarro no chão e o esmagou com a ponta do sapato lustroso foi o aviso mais claro que eu já recebi na vida.
O Festival não seria apenas uma apresentação de música. Seria uma guerra. E eu tinha acabado de escolher o meu lado.