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1 - Era uma vez, Eu Invisível

 

 

 

     O despertador de plástico preto em cima do meu criado-mudo deu seu primeiro estalo antes de começar a berrar. Eu não precisei dele. Já estava acordada há pelo menos uma hora, encarando as rachaduras no teto do meu quarto e ouvindo o som da chuva batendo na janela. Era uma manhã cinzenta de outubro em São Paulo, o tipo de dia que parece que o sol desistiu de tentar atravessar a fumaça e os prédios.

 

Sentei na cama e meus pés tocaram o chão frio. O silêncio da casa era pesado, quebrado apenas pelo som distante de algum ônibus passando na rua de baixo. Eu ainda conseguia sentir o eco da música da noite anterior na ponta dos meus dedos. Aquela melodia na Cabine 4 tinha sido… diferente. Parecia que eu tinha arrancado um pedaço de algo muito fundo de dentro de mim e deixado ali, flutuando naquele cubículo abafado da USP.

 

Caminhei até o espelho do guarda-roupa e parei. Evitar meu reflexo era quase um esporte olímpico para mim, mas naquela manhã, eu me forcei a olhar. Eu via a Clara de sempre. Os cabelos castanhos cacheados e volumosos, que nunca pareciam decidir se eram ondulados ou apenas bagunçados, emolduravam um rosto que eu achava redondo demais. Meus olhos cor de mel pareciam cansados, com olheiras de quem troca o sono por escalas de piano.

 

Eu sabia o que o mundo via. O mundo via uma garota plus-size que ocupava espaço demais no metrô, mas que tentava compensar isso se encolhendo em cada conversa.

 

Abri a gaveta e peguei minha armadura. Primeiro, uma camiseta de malha básica. Depois, o cardigã de lã cinza, enorme, que eu tinha comprado em um brechó no centro. Ele era largo o suficiente para esconder as curvas que eu odiava e longo o suficiente para me fazer sentir protegida, como se eu estivesse carregando meu próprio cobertor para a guerra. Coloquei o jeans escuro e meus coturnos pretos. Eu me sentia segura assim. Escondida.

 

— Clara? Vai perder o ônibus, filha! — A voz da minha mãe veio da cozinha, acompanhada pelo cheiro de café passado.

 

— Já vou, mãe! — respondi, pegando minha mochila e meu caderno de couro.

 

Na cozinha, ela estava de pé, já pronta para o trabalho. Ela me olhou e deu aquele sorriso doce que sempre carregava uma pontinha de preocupação, o tipo de olhar que dizia que ela sabia exatamente o que eu estava sentindo, mesmo que eu nunca dissesse uma palavra.

 

— Tomou o café? Você precisa comer, Clara.

 

— Vou comer uma maçã no caminho, mãe. Estou atrasada para a aula de Harmonia.

 

Eu dei um beijo rápido no rosto dela e saí antes que ela pudesse comentar sobre o meu cardigã. Eu sabia que ela queria que eu usasse cores mais claras, que eu prendesse o cabelo de um jeito que mostrasse mais o meu rosto, mas ela não entendia. Mostrar o rosto era convidar o mundo a dar um palpite sobre ele. E eu não tinha energia para palpites.

 

O trajeto até o campus foi um borrão de fones de ouvido e rostos desconhecidos. Eu estava ouvindo uma fita que eu mesma gravei com algumas composições de piano, tentando ignorar a sensação de que as pessoas no ônibus estavam me avaliando. Uma mulher de terno olhou para mim e depois desviou o olhar rapidamente quando nossos olhos se cruzaram. Eu me perguntei o que ela viu. Uma estudante desleixada? Alguém que não se esforçava o suficiente para "se cuidar"?

 

Senti aquele calor familiar subir pelo meu pescoço. A vergonha era minha sombra constante.

 

Chegar na USP sempre me trazia um misto de alívio e pavor. O campus era imenso, cheio de árvores e prédios de concreto que pareciam monumentos a uma inteligência que eu não tinha certeza se possuía. Caminhei em direção ao Departamento de Música, sentindo o peso da mochila nos ombros.

 

— Ei, gordinha! Cuidado aí!

 

Um grupo de caras do curso de Educação Física passou correndo por mim, rindo de algo que eu não ouvi. Um deles esbarrou no meu ombro. Não foi um esbarrão forte, mas foi o suficiente para me fazer tropeçar. Eu recuperei o equilíbrio rapidamente, apertando as alças da mochila com tanta força que meus nós dos dedos ficaram brancos.

 

Meu coração disparou. Não olhe para eles, minha voz interior sussurrou. Se você não reagir, eles perdem o interesse. Seja fumaça. Seja nada.

 

Passei pelos portões do Conservatório e o som dos instrumentos começou a abafar o barulho do mundo lá fora. Um violoncelo em uma sala, um trompete em outra. Era o único lugar onde eu sentia que as paredes me entendiam.

 

Entrei na sala de aula e me sentei na última fileira, perto da janela. O Professor Horácio já estava lá, organizando algumas partituras. Ele era um homem pequeno, de cabelos brancos e óculos que pareciam grandes demais para o rosto, mas seus olhos eram afiados como navalhas. Ele via tudo.

 

— Bom dia, classe — disse ele, com aquela voz rouca de quem fumou por trinta anos. — Antes de começarmos, quero lembrar a todos sobre o Festival de Primavera. As inscrições para composições originais encerram na próxima semana.

 

Senti um frio na espinha. O Festival era o evento do ano. Ganhar ali significava prestígio, talvez uma bolsa internacional. Mas significava, acima de tudo, subir em um palco. Sob as luzes. Com todos os olhos fixos em você.

 

Abri meu caderno e comecei a rabiscar. Eu nunca me inscreveria. A ideia de apresentar minhas músicas — aquelas que eu compunha nas sombras da Cabine 4 — parecia um tipo de suicídio social. Minha música era meu segredo mais bem guardado. Era a única parte de mim que eu achava bonita demais para deixar que os outros estragassem com seus comentários.

 

— Clara? — O professor Horácio me chamou. — Pode vir aqui um momento após a aula?

 

Minha garganta secou. Assenti silenciosamente, sentindo o olhar de alguns colegas sobre mim. Beatriz, uma garota da primeira fila que parecia ter saído direto de um editorial de moda, virou-se e me deu um sorriso que não chegava aos olhos. Ela era tudo o que eu não era: magra, solar e barulhenta.

 

A aula passou como um borrão de quintas paralelas e resoluções de acordes. Quando todos saíram, caminhei até a mesa do professor.

 

— Você tem um dom, Clara — disse ele, sem preâmbulos. — Eu ouvi você ontem à noite. Eu estava saindo da coordenação e passei pelo corredor das cabines.

 

Senti meu sangue congelar. Alguém tinha me ouvido. Eu achava que estava sozinha.

 

— Foi só um ensaio, professor. Coisa boba — menti, sentindo minhas palmas das mãos suarem.

 

— Não era uma coisa boba. Era música de verdade. Aquela composição precisa ser inscrita no Festival. Você está se escondendo, e o mundo da música não perdoa quem se esconde por medo.

 

— Eu não… eu não estou pronta, professor. Eu prefiro ficar nos bastidores.

 

Ele me olhou por cima dos óculos, um olhar longo e pesado que parecia ler todas as minhas inseguranças.

 

— O medo é um péssimo maestro, Clara. Pense nisso.

 

Saí da sala me sentindo exposta, como se ele tivesse arrancado meu cardigã e me deixado nua no meio do corredor. Eu precisava de ar. Precisava de silêncio.

 

Caminhei em direção ao prédio da Educação Física, não porque queria ver os atletas, mas porque havia um caminho por trás da piscina olímpica que levava a um jardim quase sempre vazio. Eu só queria sentar em um banco e desaparecer por alguns minutos antes da próxima aula.

 

Mas, ao passar perto da entrada da piscina, o cheiro de cloro me atingiu. E junto com ele, um som que eu não esperava.

 

Splash.

 

O barulho de alguém cortando a água com uma precisão cirúrgica. Parei por um segundo e olhei pelo vidro embaçado da galeria.

 

Lá embaixo, na raia central, um nadador se movia como se fosse parte da água. Ele não estava apenas nadando; ele estava lutando contra algo. Cada braçada era potente, agressiva, quase desesperada. Ele chegou ao final da piscina, deu uma virada olímpica perfeita e voltou com ainda mais força.

 

Eu não sabia quem era, mas conseguia sentir o cansaço dele daqui de cima. Era uma exaustão que eu reconhecia. Era o mesmo ritmo que eu usava quando tocava piano até meus dedos doerem, tentando calar as vozes na minha cabeça.

 

Fiquei ali, hipnotizada pelo movimento rítmico. Por um momento, esqueci do Professor Horácio, do Festival e do fato de que meu cardigã estava pinicando minha pele. Havia uma estranha beleza naquela luta solitária contra o cronômetro.

 

Ele parou no final da raia, tirando os óculos de proteção. Ele apoiou os braços na borda e inclinou a cabeça para trás, respirando com dificuldade. Mesmo de longe, e através do vidro, eu pude ver a tensão nos seus ombros largos. Ele parecia carregar o peso de todo aquele prédio nas costas.

 

De repente, como se sentisse que estava sendo observado, ele olhou para cima.

 

Meus olhos se encontraram com os dele por um milésimo de segundo. Um azul intenso, mesmo envolto pelo vapor e pelo cloro. Entrei em pânico. Recuei para as sombras do corredor, meu coração martelando contra as costelas como um pássaro enjaulado.

 

Burra, burra, burra, xinguei a mim mesma enquanto caminhava apressada para longe dali. Por que eu tinha parado? Por que eu tinha olhado? Agora ele pensaria que eu era apenas mais uma daquelas garotas que ficavam babando pelos atletas. Ele provavelmente me viu e pensou… bem, eu sabia o que ele devia ter pensado.

 

Voltei para o prédio de música, mas minha mente não conseguia se livrar daquela imagem. O esforço, a solidão, aquele olhar perdido.

 

Passei o resto do dia em um estado de dormência. Nas aulas, eu anotava as coisas automaticamente, mas meus pensamentos voltavam para a Cabine 4. Eu precisava tocar. Precisava transformar aquela agitação em som.

 

Quando a noite finalmente caiu e o campus começou a esvaziar, eu me senti segura novamente. O vigia noturno já me conhecia e apenas acenou quando passei por ele. O corredor das cabines estava escuro, iluminado apenas pelas luzes de emergência.

 

Entrei na Cabine 4, a minha cabine. O cheiro de madeira e poeira me abraçou. Sentei ao piano e, por um longo tempo, apenas deixei minhas mãos descansarem sobre as teclas frias.

 

Eu comecei a tocar uma melodia nova. Era mais rápida que a da noite anterior, cheia de notas que pareciam gotas de água batendo contra o vidro. Era a tradução do que eu vira na piscina. A luta, o ritmo, o isolamento. Eu fechei os olhos e deixei que a música tomasse conta de tudo. Eu não era mais Clara, a garota gorda do cardigã cinza. Eu era a correnteza. Eu era o som.

 

De repente, um barulho veio da parede ao lado.

 

Um baque surdo, como se alguém tivesse batido na madeira. Eu parei de tocar instantaneamente, meu coração na boca. O silêncio que se seguiu foi absoluto.

 

— Ei — uma voz masculina ecoou, vinda da cabine vizinha. Era uma voz profunda, abafada pela parede, mas estranhamente clara. — Por que você parou?

 

Eu fiquei estática. Minha respiração travou. Ninguém nunca falava comigo através das paredes. As cabines eram templos de solidão.

 

— Eu… eu achei que não tivesse ninguém aí — gaguejei, minha voz saindo mais baixa do que eu pretendia.

 

— Eu estou aqui todos os dias — disse a voz. Havia um cansaço nela, mas também uma curiosidade genuína. — Mas nunca ouvi nada como o que você estava tocando agora. De quem é essa peça?

 

Senti um arrepio percorrer meus braços.

 

— É minha — respondi, quase em um sussurro, esperando o riso ou o desinteresse.

 

Houve uma pausa longa do outro lado. Eu quase podia ouvir a pessoa respirando.

 

— É a coisa mais honesta que eu ouvi em muito tempo — ele disse, e eu pude jurar que senti a parede vibrar com a sinceridade das suas palavras. — Continua. Por favor. Eu preciso que você continue.

 

Eu olhei para a parede de carvalho que nos separava. Eu não sabia quem ele era. Ele não sabia quem eu era. Ele não podia ver meu corpo, meu rosto ou o medo nos meus olhos. Para ele, naquele momento, eu era apenas a música.

 

E, pela primeira vez na vida, isso me pareceu o suficiente.

 

Minhas mãos voltaram para as teclas, mas antes que eu pudesse tocar a primeira nota, ouvi o som da porta da cabine dele se abrindo e passos rápidos se afastando pelo corredor.

 

Eu fiquei ali, no escuro, encarando as teclas brancas e pretas. Quem era ele? E por que, mesmo sem vê-lo, eu sentia que ele tinha acabado de ler uma página do meu diário que eu nunca tive coragem de mostrar a ninguém?

 

Fechei meu caderno e saí da cabine, sentindo que o ar do corredor estava mais denso do que o normal. Ao passar pela porta da Cabine 5, vi um pequeno pedaço de papel caído no chão. Inclinei-me, o cardigã arrastando no piso, e o peguei.

 

Era um cronômetro de papel, daqueles usados em treinos de natação. No verso, escrito com uma caligrafia apressada e firme, havia apenas uma frase:

 

"Não pare. O mundo é barulhento demais, e a sua música é a única coisa que faz sentido hoje."

 

Senti meu coração falhar uma batida. Olhei para o final do corredor escuro, mas não havia ninguém. Apenas o som da chuva, que agora caía com força total lá fora.

 

Eu não sabia quem era o dono daquela voz, ou por que um nadador estaria escondido em uma cabine de música no meio da noite. Mas, enquanto guardava aquele papel dentro do meu caderno de couro, eu soube de uma coisa: Amanhã, eu voltaria. E eu não tocaria apenas para mim.

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