Mundo de ficçãoIniciar sessãoA chuva tinha parado, mas o ar noturno do campus estava tão denso que parecia que eu ainda estava debaixo d’água. Eu segurava o caderno azul de Theo contra o peito, sentindo o papel frio e ligeiramente úmido. Meus pulmões ardiam a cada respiração, uma mistura de adrenalina residual e o pavor puro de ver o carro de polícia levando o garoto que tinha acabado de mudar o meu mundo.
Eu esperava tudo de Beatriz Lacerda. Esperava que ela risse da minha cara, que chamasse a segurança para me tirar do estacionamento ou que me desse aquele olhar de nojo que sempre me fazia querer encolher até sumir dentro do meu cardigã.
Mas ela estava ali, parada na minha frente, tremendo. A maquiagem perfeita que ela usava no palco estava borrada sob os olhos, e ela segurava um pequeno gravador de fita cassete como se fosse uma granada prestes a explodir.
— O que você quer, Beatriz? — minha voz saiu mais rouca do que eu pretendia, carregada de um cansaço que parecia vir de séculos atrás. — Já não basta o que seu namorado… o que o seu "mundo" fez com ele?
— Ele não é meu namorado, Clara. Ele nunca foi — ela disse, e a voz dela, geralmente tão afiada e segura, quebrou. — Ele é um troféu que os nossos pais decidiram que eu deveria carregar. E eu aceitei, porque achei que era o único jeito de ser alguém.
Eu a observei com atenção. Pela primeira vez, não vi a garota perfeita das revistas de moda. Vi uma menina aterrorizada, cujos dedos ossudos apertavam o gravador com tanta força que os nós das mãos estavam brancos. Ela parecia frágil, quase transparente sob a luz do poste.
— Por que você está me mostrando isso agora? — perguntei, desconfiada. — Você tentou acabar comigo ontem.
— Porque eu vi vocês dois naquele palco — ela deu um passo em minha direção, e o cheiro do seu perfume caro, agora misturado com o cheiro de suor e medo, me atingiu. — No escuro. Eu vi o jeito que ele olhou para você quando as luzes apagaram. Ele nunca olhou para ninguém assim. Nem para o pai, nem para o espelho, muito menos para mim. E eu percebi que, se o Theo for destruído por causa do pai dele, eu vou ser a próxima. O Sr. Montenegro não tem aliados, Clara. Ele tem ferramentas. E quando a ferramenta não serve mais, ele a descarta.
Ela estendeu o gravador.
— Ouça.
Apertei o play. O chiado da fita durou alguns segundos antes de uma voz masculina, fria e calculista, preencher o espaço entre nós. Era o pai de Theo.
"...não me importa o que você tenha que assinar, Horácio. Aquele fundo de reserva da minha falecida esposa pertence ao futuro do Theo na natação. Se você não transferir a gestão para a minha empresa, eu vou garantir que aquela garota gorda que você tanto protege nunca mais toque um piano nesta cidade. E você? Bem, você sabe como é fácil plantar evidências de má conduta em um departamento tão desorganizado quanto o de música."
A gravação cortou. O silêncio que se seguiu foi pior do que as ameaças. Eu sentia meu estômago revirar. Não era apenas sobre mim; era sobre uma fortuna, sobre o legado da mãe de Theo e sobre a destruição deliberada de um homem bom como o Professor Horácio.
— Eu gravei isso na semana passada, no escritório dele — Beatriz sussurrou, as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos seus cílios. — Eu ia usar para garantir que o meu pai continuasse nos negócios dele, mas… depois de hoje… eu não consigo. Eu não quero ser como eles, Clara.
Eu olhei para o gravador e depois para o caderno azul na minha mão. As peças estavam se encaixando, mas o quebra-cabeça era uma cena de crime.
— Por que você não foi à polícia com isso? — perguntei.
— A polícia? — ela riu, um som amargo e sem vida. — O delegado janta na casa do Sr. Montenegro aos domingos. Se eu entregar isso para as autoridades locais, a fita desaparece em cinco minutos e eu acabo em um internato na Suíça antes do amanhecer.
Ela tinha razão. Em 1994, o poder não era sobre quem tinha a razão, mas sobre quem tinha os contatos. E nós éramos apenas duas garotas na base da pirâmide.
— O Theo me disse que o nome de um advogado está no verso do caderno — falei, abrindo as páginas apressadamente. No final, escrito com a letra firme dele, estava um nome que eu reconhecia dos jornais: Dr. Arnaldo Silveira. Um advogado de direitos humanos conhecido por enfrentar grandes corporações em São Paulo.
— Ele é de fora do círculo deles — Beatriz observou, limpando o rosto com as costas da mão. — Ele pode ajudar. Mas o Theo está na delegacia agora. Se o pai dele chegar primeiro e fizer um acordo de "família", ele vai ser levado para algum lugar onde não possamos alcançá-lo. Um hospital psiquiátrico, talvez. O Sr. Montenegro já ameaçou fazer isso antes quando o Theo teve uma crise de ansiedade no ano passado.
O pavor me impulsionou. Eu não podia deixar que apagassem o Theo. Não depois de ele ter enfrentado o mundo inteiro para tocar comigo.
— Onde fica a delegacia? — perguntei, já começando a caminhar em direção ao portão do campus.
— Entra no carro — Beatriz disse, apontando para um conversível vermelho estacionado um pouco à frente. — Eu te levo. Mas precisamos ser rápidas.
Eu hesitei por um segundo. Entrar no carro com a garota que tinha sido meu maior pesadelo parecia um suicídio social. Mas eu olhei para o horizonte, onde as luzes da cidade brilhavam como promessas distantes, e percebi que a Clara que tinha medo de ocupar espaço tinha ficado para trás, no palco escuro do auditório.
O trajeto até a delegacia central foi um borrão de luzes de neon e o som do motor roncando. Beatriz dirigia como se estivesse em uma fuga, os dedos apertando o volante com uma força que eu reconhecia.
— Clara? — ela chamou, sem desviar os olhos da estrada.
— Oi?
— Eu sinto muito. Por tudo. Pelas coisas que eu disse sobre o seu corpo, pela forma como eu te tratei no refeitório. Eu estava tão focada em não ser a "próxima vítima" que acabei me tornando o monstro que eu temia.
Eu olhei para ela. Havia uma honestidade nua na sua voz que eu nunca tinha ouvido.
— Eu não te perdoo agora, Beatriz — eu disse, sendo sincera. — As palavras que você usou… elas ainda doem. Mas eu aceito a sua ajuda. Pelo Theo. E pelo Horácio.
Ela assentiu, aceitando a resposta. Era o máximo que podíamos ter naquele momento: uma trégua nascida do desespero.
Chegamos à delegacia. O prédio de concreto cinza parecia uma fortaleza de tédio e burocracia. Entramos correndo e paramos diante do balcão de ferro. Um policial gordo e entediado nos olhou por cima de um jornal.
— Pois não, meninas? Perderam a boneca? — ele disse, com uma condescendência que me fez ferver.
— Queremos ver o Theo Montenegro — Beatriz disse, recuperando sua postura de garota rica e autoritária. — Sou Beatriz Lacerda, e esta é a assistente do advogado dele.
Eu a olhei de soslaio. "Assistente do advogado"? Ela era boa em mentir.
— O garoto Montenegro? O pai já está lá dentro com o delegado. Não podem entrar.
Meu coração despencou. Se o Sr. Montenegro já estava lá, era o fim.
— Escuta aqui, oficial — Beatriz se inclinou sobre o balcão, a voz caindo para aquele tom de veludo perigoso que ela usava para conseguir o que queria. — Se o Sr. Montenegro está lá dentro, então o senhor sabe que há um conflito de interesses. E se eu fizer um telefonema para o meu pai, que é o maior acionista do banco que financia a reforma deste prédio, o senhor vai estar patrulhando as ruas de Guaianases antes do café da manhã. Quer arriscar?
O policial empalideceu. Ele olhou para nós duas — a loira impecável e a garota de cardigã com um caderno azul — e suspirou, pegando um molho de chaves.
— Sala 3. Mas sejam rápidas. Se o delegado pegar vocês, eu não vi nada.
Caminhamos pelo corredor úmido que cheirava a cigarro barato e café queimado. Quando chegamos à porta da Sala 3, ouvimos vozes alteradas.
— ...você é meu filho, Theo! Você vai assinar essa confissão de distúrbio mental e vamos para a clínica em Atibaia. É o único jeito de abafar o escândalo daquele palco! Aquela garota te infectou com essa… essa mediocridade!
— Eu não vou assinar nada, pai — a voz de Theo estava fraca, mas carregava uma dignidade que me fez querer chorar. — Eu nunca estive tão lúcido. Pela primeira vez na vida, eu ouvi o som da minha própria voz. E ela não soa como você.
— Você prefere a cadeia? Prefere ser um criminoso comum por causa de uma gorda esquisita que toca piano?
Eu não esperei. Empurrei a porta com tanta força que ela bateu na parede de gesso.
O Sr. Montenegro estava de pé, segurando uma caneta como se fosse uma arma. Theo estava sentado em uma cadeira de metal, algemado por um dos pulsos à mesa. O rosto dele estava manchado de lágrimas secas, mas quando ele me viu, seus olhos brilharam com uma esperança tão pura que o ar pareceu voltar para os meus pulmões.
— Clara! — ele gritou.
— Ela não é uma mediocridade, Sr. Montenegro — eu disse, entrando na sala e jogando o caderno azul sobre a mesa, bem na frente dele. — E o senhor não vai mandar ninguém para clínica nenhuma.
O pai de Theo soltou um riso de desprezo.
— E quem vai me impedir? Você? A garota que nem sequer tem mais uma matrícula nesta universidade?
— Não — Beatriz disse, entrando logo atrás de mim e levantando o gravador de voz. — A sua própria voz vai te impedir. Eu tenho tudo, Sr. Montenegro. O suborno ao reitor, as ameaças ao Professor Horácio, a tentativa de roubar o fundo da sua falecida esposa. Se você não soltar o Theo agora e retirar todas as acusações contra ele e contra o Horácio, essa fita vai estar na redação da Folha de S.Paulo em trinta minutos.
O silêncio que caiu na sala foi absoluto. O rosto do Sr. Montenegro passou do vermelho para um branco cadavérico. Ele olhou para Beatriz com uma fúria assassina, mas ela não recuou. Ela segurou o gravador com a mão firme, os olhos fixos nos dele.
— Você não faria isso, Beatriz — ele sibilou. — Isso destruiria o nome da sua família também. Seu pai nunca te perdoaria.
— Meu pai nunca me conheceu de verdade — ela respondeu. — E eu prefiro ser a filha de um escândalo do que a cúmplice de um monstro.
Ele olhou para o caderno na mesa, depois para o gravador, e por fim para o Theo. Eu vi o momento exato em que ele percebeu que tinha perdido. O império de medo que ele construíra estava desmoronando por causa de três jovens que ele considerava insignificantes.
— O que vocês querem? — ele perguntou, a voz agora um sussurro rouco.
— Solte o Theo. Agora — eu disse. — E ligue para o seu contato no fórum. O Professor Horácio tem que ser libertado ainda hoje. E a minha bolsa… você vai garantir que ela seja vitalícia.
Ele deu um sorriso amargo, pegando o telefone sobre a mesa do delegado.
— Vocês acham que ganharam, não é? Acham que a música venceu. Mas o mundo real é muito maior do que um palco de faculdade, Clara. Vocês vão descobrir isso da maneira mais difícil.
— Talvez — eu respondi, aproximando-me de Theo e tocando sua mão livre. — Mas, pelo menos, agora o mundo real vai ter que nos ouvir.
Vinte minutos depois, as algemas de Theo foram retiradas. O processo foi rápido, frio e silencioso. O Sr. Montenegro saiu da delegacia sem olhar para trás, deixando para trás um rastro de gelo.
Saímos para a calçada. A madrugada de São Paulo estava começando a dar lugar aos primeiros tons de azul do amanhecer. Theo me abraçou com tanta força que eu senti o coração dele batendo contra o meu, um ritmo frenético e feliz.
— Você me salvou — ele sussurrou no meu ouvido. — Você realmente me salvou, Melodia.
— Nós nos salvamos — respondi, escondendo o rosto no ombro dele.
Beatriz estava parada perto do carro dela, olhando para o horizonte. Ela parecia exausta.
— O que você vai fazer agora, Bia? — Theo perguntou, soltando-me por um momento.
— Eu vou para casa. Arrumar minhas malas — ela disse, com um meio sorriso triste. — Meu pai provavelmente já recebeu o recado do Sr. Montenegro. Eu não sou mais bem-vinda na mansão Lacerda. Mas tudo bem. Eu tenho uma tia no Rio de Janeiro que sempre disse que eu deveria estudar teatro. Talvez seja a hora.
Ela entrou no carro e deu a partida.
— Clara? — ela chamou antes de sair. — Não para de tocar. O mundo fica um pouco menos horrível quando você está no piano.
Ela arrancou e desapareceu na neblina matinal.
Ficamos ali, eu e Theo, sozinhos na calçada da delegacia. O sol estava começando a surgir entre os prédios, pintando o céu de rosa e dourado.
— E agora? — perguntei, sentindo o peso do caderno azul na minha mão.
— Agora a gente vai tirar o Horácio daquele lugar — Theo disse, pegando a minha mão e entrelaçando nossos dedos. — E depois… depois eu quero que você me ensine a tocar aquela música de novo. Mas dessa vez, sem as notas erradas.
Caminhamos em direção ao ponto de ônibus, dois jovens que não tinham quase nada, mas que sentiam que possuíam o mundo inteiro.
No entanto, ao chegarmos perto da avenida principal, vi um carro preto parado, o mesmo modelo que o pai de Theo usava. Mas não era ele no banco de trás. Era um homem de terno escuro que eu nunca tinha visto, segurando uma câmera fotográfica profissional. Ele tirou uma foto nossa e, antes que pudéssemos reagir, o carro arrancou.
Theo apertou a minha mão.
— O que foi isso? — perguntei, sentindo um novo arrepio.
— Meu pai não desiste fácil, Clara. Aquela fita… ela é um escudo, mas também é um alvo. A partir de hoje, a gente não é mais apenas dois estudantes de música.
Eu olhei para o sol nascendo e percebi que a nossa melodia tinha acabado de ganhar um novo movimento. Um movimento perigoso, intenso e completamente desconhecido.
A guerra estava longe de acabar. Mas, pela primeira vez, eu não estava com medo de ocupar o meu lugar nela.







