Mundo de ficçãoIniciar sessão— Você tem certeza de que não quer fugir enquanto ainda dá tempo? — A voz de Theo veio de algum lugar no escuro do auditório, mas agora não havia uma parede de carvalho entre nós.
Eu estava parada na entrada lateral do palco, as mãos enfiadas tão fundo nos bolsos do meu cardigã cinza que eu tinha medo de rasgar o tecido. O auditório principal da USP era um monstro de concreto e madeira, com poltronas de veludo desbotado que pareciam centenas de olhos me observando na penumbra. O cheiro de cera de assoalho e poeira antiga era quase sufocante. — Se eu fugir, vou acabar tropeçando em algum instrumento e passando mais vergonha do que se eu ficar — respondi, tentando manter a voz firme. Meu coração batia contra minhas costelas com tanta força que eu sentia meus ouvidos latejarem. Ouvi um riso baixo, curto e sem fôlego. Então, o som de passos. Theo caminhou até o centro do palco, onde o Steinway de cauda brilhava sob a luz de serviço, uma única lâmpada amarela pendurada no teto que criava sombras dramáticas em tudo. Ele ainda usava a jaqueta do time de natação, mas o zíper estava aberto, revelando uma camiseta branca amassada. Ele parecia menor ali, sem a proteção da água ou o pedestal do pódio. Parecia… humano. — Vem aqui, Clara. Deixa eu ver se você é real ou se eu inventei essa voz para não enlouquecer sozinho naquelas cabines. Eu respirei fundo, enchendo os pulmões com aquele ar pesado, e caminhei. Cada passo parecia durar uma eternidade. Eu sentia o peso do meu corpo, a curva do meu quadril, a forma como meus cachos caíam sobre os olhos — todas as coisas que eu costumava odiar. Mas conforme eu entrava no círculo de luz, Theo não desviou o olhar. Ele não fez aquele scanner de julgamento que eu estava acostumada a receber. Ele simplesmente me olhou. Como se estivesse finalmente encontrando a peça que faltava em um quebra-cabeça. — Melodia — ele sussurrou, quando parei a dois metros dele. — É você mesmo. — Sou eu — respondi, sentindo meu rosto queimar. — Decepcionado? Theo deu um passo à frente, diminuindo a distância entre nós. O azul dos seus olhos era ainda mais profundo de perto, uma cor que parecia mudar sob a luz amarela, lembrando o fundo de uma piscina iluminada à noite. Ele estendeu a mão, mas hesitou no meio do caminho, como se tivesse medo de que eu fosse desaparecer se me tocasse. — Você é exatamente como eu imaginei — ele disse, com uma suavidade que me desarmou completamente. — Tem a mesma força daquela música de ontem. E os mesmos olhos de quem sabe segredos demais. Eu não sabia o que dizer. Ninguém nunca tinha olhado para mim daquele jeito, ignorando as camadas de lã e a minha própria insegurança para ver o que estava por baixo. — Você também é diferente — eu disse, tentando recuperar o fôlego. — Sem o cloro e sem a multidão em volta. Você parece… mais real. Ele deu um sorriso triste e se sentou na banqueta do piano, abrindo espaço para mim. — A realidade é superestimada, Clara. A maior parte do tempo, ela só serve para nos lembrar de quem não podemos ser. Mas aqui… — ele tocou uma tecla, um Dó grave que ressoou por todo o auditório vazio — aqui a gente pode ser qualquer coisa. Sentei-me ao lado dele. O calor do seu corpo era quase palpável, um contraste gritante com o frio do auditório. Eu podia sentir o cheiro dele — sabonete, um resto de cloro e algo que era só dele, como chuva em asfalto quente. Era inebriante e aterrorizante ao mesmo tempo. — O Horácio disse que você tem talento — ele comentou, olhando para as teclas. — Mas ele não disse que você tinha coragem. Me pedir para tocar com você no Festival… você sabe que isso é loucura, não sabe? — A vida já é uma loucura, Theo. Se a gente vai passar por ela, que seja com uma trilha sonora decente. Ele riu de verdade agora, um som rico que me fez vibrar. Ele colocou as mãos sobre o teclado. Suas mãos eram grandes, com dedos longos e veias marcadas, mãos que pareciam feitas para agarrar a vida com força. Ele tocou um acorde, mas seus dedos tremeram no final. — Viu? — Ele afastou as mãos como se as teclas estivessem quentes. — Eu travo. Desde que ela se foi, o piano virou um mausoléu. Eu sinto que, se eu tocar a nota errada, eu apago a memória dela de vez. — Ou você traz ela de volta — sugeri, colocando minha mão sobre a dele. A pele dele estava fria, mas no momento em que nos tocamos, uma onda de calor percorreu meu braço. — Você não precisa tocar para o seu pai, ou para a plateia. Toca para mim. Como você fez através da parede. Ele olhou para a nossa mão unida. Seus dedos envolveram os meus, um aperto firme e desesperado. — Eu não sei se consigo ser o que você precisa, Clara. Eu sou um desastre fora da piscina. — E eu sou um desastre fora dessas cabines. Acho que a gente forma um par perfeito de desastres. Começamos a ensaiar. No início, foi difícil. Theo errava o tempo, eu perdia a entrada porque ficava distraída demais com a proximidade dele. Mas, aos poucos, o ambiente ao redor sumiu. Não havia mais auditório, não havia mais ameaças de Beatriz ou o olhar gélido do pai dele. Havia apenas a música. Nossas vozes se juntaram em uma harmonia que eu nunca tinha experimentado antes. Eu cantava baixo, um murmúrio que ganhava força conforme ele ganhava confiança nas teclas. Era "A Dança das Sombras", mas agora ela tinha uma nova camada. Não era mais sobre solidão. Era sobre o encontro. — Você é incrível, Clara — ele disse, parando por um segundo para me olhar. — Sua voz… ela tem uma textura. É como veludo e navalha ao mesmo tempo. — É só o jeito que eu encontrei de não gritar — respondi, sentindo-me mais leve do que nunca. Passamos horas ali. O tempo parecia dobrar-se sobre si mesmo. Quando finalmente paramos, exaustos e com os dedos doendo, a luz da lua entrava pelas janelas altas, desenhando padrões de prata no chão. — Eu tenho medo do que vai acontecer amanhã — ele confessou, fechando a tampa do piano. — Meu pai… ele não vai gostar disso. Ele acha que qualquer coisa que me tire da piscina é um desperdício de DNA. — O meu medo é que a gente esteja criando algo bonito demais para um mundo tão feio — falei, levantando-me. Theo se levantou também. Ele estava tão perto que eu conseguia ver as pequenas sardas no seu nariz e a pulsação na sua garganta. — Então a gente protege isso — ele disse, a voz rouca. — Eu protejo você. Ele levou a mão ao meu rosto, afastando um cacho que tinha caído nos meus olhos. Seu toque era tão leve que parecia um sonho, mas a eletricidade que disparou por mim era real demais. Eu fechei os olhos, inclinando-me para o toque dele, sentindo uma paz que eu não conhecia. — Theo… — eu comecei, mas ele selou minhas palavras com um gesto. — Não diz nada. Só… fica aqui um momento. Ficamos ali, no silêncio do auditório, dois estranhos que se encontraram no escuro e decidiram que não queriam mais caminhar sozinhos. Mas a paz durou pouco. Um barulho de passos rápidos e secos veio do fundo do auditório. A porta principal foi escancarada, deixando a luz do corredor invadir o palco. — Que cena mais patética — a voz de Beatriz cortou o ar como um chicote. Ela estava parada no centro do corredor, os braços cruzados, o rosto distorcido em um misto de raiva e triunfo. Atrás dela, uma figura mais alta e sombria apareceu. O pai de Theo. — Eu avisei, não avisei, Clara? — Beatriz caminhou em direção ao palco, seus saltos estalando contra o chão. — Eu disse que você era só uma distração. Mas parece que você é mais persistente do que eu pensava. Theo deu um passo à frente, colocando-se entre mim e eles. Suas costas ficaram tensas, os ombros largos bloqueando minha visão do pai dele. — O que você está fazendo aqui, Beatriz? E por que trouxe o meu pai? — A voz de Theo era puro gelo. — Eu não trouxe ninguém, Theo — o pai dele disse, caminhando com uma calma aterrorizante até a beira do palco. — Eu vim ver por que o meu investimento está perdendo o foco. E vejo que o problema é exatamente o que a Beatriz descreveu. Uma garota de segunda categoria tentando arrastar você para o fundo do poço com ela. Senti o chão fugir sob meus pés. "Garota de segunda categoria". As palavras doeram mais do que qualquer insulto sobre o meu peso. Era o resumo de como eles me viam: um erro. — Ela não é uma distração, pai — Theo disse, sua voz tremendo de uma raiva contida. — Ela é a razão pela qual eu ainda consigo entrar naquela piscina sem querer me afogar. — Chega! — O pai dele gritou, e o som ricocheteou nas paredes. — Você vai para casa agora. E quanto a você, mocinha… — ele me olhou com um desprezo que me fez querer encolher até sumir — eu já conversei com o reitor. Amanhã cedo, haverá uma revisão da sua conduta e da sua bolsa. Parece que o uso indevido das salas de ensaio para… atividades íntimas… é contra o regulamento. — Isso é mentira! — eu gritei, a coragem surgindo de um lugar de puro desespero. — Nós estávamos apenas ensaiando! — Quem vai acreditar na garota que se esconde em cabines escuras contra a palavra de um dos maiores doadores desta universidade? — Ele deu um sorriso frio. — Vamos, Theo. Agora. Theo se virou para mim. Seus olhos estavam cheios de uma dor insuportável. — Clara, eu… — Vai com ele, Theo — eu disse, minha voz saindo em um sussurro. — Por favor. Não piora as coisas. Beatriz me deu um olhar de vitória absoluta antes de se virar e seguir o pai de Theo. Theo hesitou por um segundo, sua mão quase tocando a minha novamente, mas o pai dele o chamou uma segunda vez, e ele foi forçado a ir. Fiquei sozinha no palco, sob a luz amarela que agora parecia uma zombaria. O silêncio do auditório voltou, mas não era mais o silêncio da música. Era o silêncio da derrota. Caminhei até o piano e vi, caído no chão, o cronômetro de papel que eu tinha guardado com tanto carinho. Ele estava amassado, pisoteado por um dos sapatos de Beatriz. Eu o peguei e apertei contra o peito. Eles achavam que tinham me destruído. Eles achavam que tinham tirado a minha voz. Mas enquanto eu saía do prédio sob a chuva que agora caía como um pranto, eu percebi que eles tinham cometido um erro. Eles tinham me dado um motivo para lutar que era maior do que o meu medo. Amanhã era o dia do Festival. E se eu fosse cair, eu cairia fazendo o mundo inteiro ouvir a minha música. Mas quando cheguei ao portão da universidade, vi uma viatura de polícia parada diante do prédio da reitoria, e o Professor Horácio sendo conduzido para fora entre dois policiais. Ele me viu e gritou algo que o vento levou, mas eu pude ler nos seus lábios uma única palavra. "Fuja". Meu coração parou. O que estava acontecendo? E por que eu sentia que o pesadelo estava apenas começando?






