Mundo ficciónIniciar sesiónEla tinha tudo. Até descobrir que era apenas parte de um plano. Traída. Descartada. Dada como morta. Dois anos depois, ela retorna com um novo nome, um novo rosto social… e um acordo que nunca deveria envolver sentimentos. Agora, sob uma nova identidade, ela está pronta para destruir o homem que tentou acabar com sua vida. Mas entre vingança e desejo, uma regra começa a falhar: esquecer o contrato pode custar tudo. Inclusive o coração.
Leer másO vento em Santorini não tem nada de romântico quando você para de fingir que está vivendo um cartão-postal. Ele não faz carinho; ele empurra. Levanta a barra do meu vestido branco como se quisesse me expor. Bagunça meu cabelo, seca meus lábios e atravessa a pele até alcançar um lugar que eu não consigo proteger. Engraçado como a gente romantiza tudo quando está apaixonada. Até o vento vira poesia e o silêncio vira conforto.
Hoje, não. Hoje, tudo soa como aviso. Eu caminho sem rumo pela borda de pedra que contorna o penhasco, tentando convencer o meu próprio corpo de que está tudo bem. Que eu não vi o que vi. Que o homem com quem me casei há poucos dias não estava encostado numa parede, numa sombra qualquer de hotel, com outra mulher colada nele como se aquele espaço fosse deles, como se o o resto do mundo não existisse. Respiro fundo. O cheiro do mar entra forte demais, salgado, quase amargo. Lá embaixo, a água é um preto profundo que engole as luzes da cidade. Bonito de longe. Assustador quando você encara tempo suficiente. — Você está estranha desde o jantar. A voz dele chega atrás de mim como se nada tivesse acontecido. Como se estivéssemos vivendo a lua de mel perfeita, como se eu não estivesse aqui, à beira de um colapso emocional. Eu não me viro. Tenho medo de olhar para ele e não reconhecer nada do que eu amei. Ou pior: reconhecer e perceber que fui eu quem inventou. — Estranha? — repito, deixando escapar uma risada curta, amarga. — Posso dizer que você também pode estar estranho, Andrew. Não o chamei de "amor" como de costume. Ele percebeu. O silêncio vem depois, deixando o ar denso. Não é o tipo de silêncio de casal que se entende sem palavras. É um silêncio que pesa, que cresce, que ocupa espaço demais entre duas pessoas que deveriam ser íntimas. E, pela primeira vez, eu sinto que estou sozinha ao lado dele. — Você está exagerando — ele diz, aproximando-se. A voz dele sai calma, controlada, a mesma que me fez acreditar tantas vezes que eu estava sendo dramática, que eu precisava respirar, que eu precisava confiar mais. — Deve ser o cansaço. — diz. Ah, claro. O cansaço. Descobrir que o seu marido te trai durante a lua de mel realmente dá uma certa fadiga emocional. Talvez eu devesse beber mais água. Ou fazer ioga. Eu sorrio de lado, ainda de costas, porque se não fizer isso, acho que eu quebro. — Ela beija melhor do que eu? Sinto o impacto da pergunta antes mesmo de ouvir a resposta. Ou a falta dela. O ar muda. O passo dele trava. E, por um segundo muito curto, eu me sinto no controle. É ridículo, mas é tudo o que me resta. — Não sei do que você está falando. Mentira fraca e preguiçosa. Esperava mais do que isso. Eu me viro e lá está ele. Perfeito. O terno impecável, como se a noite não tivesse sido longa, como se ele não tivesse feito nada além de jantar comigo, sorrir para mim, tocar a minha mão por baixo da mesa como se aquilo significasse alguma coisa. Os olhos são os mesmos que eu amei. O rosto é o mesmo que eu admirei. E, ainda assim, parece que estou olhando para um estranho. — Eu vi vocês — digo, e me surpreendo com a minha própria voz. Ela sai firme. Clara. Mais forte do que eu me sinto por dentro. — No corredor. Você achou mesmo que eu não perceberia? Dessa vez, ele não nega de imediato. Não se apressa em me tranquilizar. Não finge. Ele me observa. E é nesse olhar que tudo desmorona. Não há culpa. Não há arrependimento. Não há sequer sinal de desconforto. Isso me assusta. Como se ele estivesse medindo cada palavra, cada reação, cada possível consequência. Como se eu fosse um problema a ser resolvido, não uma mulher ferida. — Você não devia ter saído do quarto — ele diz, por fim, com uma calma que me faz querer rir e chorar ao mesmo tempo. Como se a traição fosse um detalhe. Como se o erro tivesse sido meu. Eu dou um passo na direção dele, sentindo o coração bater forte e descontrolado, mas não por amor. Não mais. Ou talvez ainda, e isso é o que mais me apavora. — Eu quero o divórcio. A palavra “divórcio” nunca soou tão estranha na minha boca. Tão pesada e definitiva. E, ainda assim, tão necessária. Algo muda nele. Não é visível para qualquer um, mas eu vejo. Os olhos dele escurecem. O maxilar tensiona. A postura fica mais rígida. — Não. Isso não vai acontecer. A resposta vem simples. Sem hesitação. Sem espaço para negociação. Um arrepio percorre minha espinha, daqueles que não têm nada a ver com o vento. — Você não pode me impedir — retruco, tentando sustentar uma coragem que está claramente por um fio. — Eu não vou ficar com você, Andrew. Não depois do que eu vi. Ele se aproxima mais um passo, devagar e controlado. — Você realmente acha — ele começa, inclinando levemente a cabeça, com um quase sorriso que não alcança os olhos — que pode simplesmente ir embora… com tudo? O “tudo” pesa no ar. E, de repente, não é mais sobre traição. É sobre dinheiro, herança. Sobre tudo o que eu sempre tentei fingir que não era o motivo pelo qual ele estava comigo. O que eu mais temia estava acontecendo. — O que isso quer dizer? Mas eu sei. Só fui estúpida o suficiente para ignorar. — Quer dizer — ele dá mais um passo, e eu recuo sem perceber, sentindo o salto escorregar levemente na pedra — que você não entendeu nada, Melinda. — meu nome, na boca dele, soa estranho. Vazio. Como se não tivesse mais peso, mais significado. — Eu não vou sair dessa história de mãos vazias. As palavras me atravessam. Não com surpresa, mas com a confirmação. — Então você mentiu o tempo todo? Você me usou? Tudo para o quê? Ter o cargo de alto na empresa. O que você quer mais? As perguntas escapam mais baixas, mais vulneráveis do que eu gostaria. E eu odeio isso. Odeio o fato de que, mesmo agora, uma parte de mim ainda espera uma resposta diferente. Uma explicação. Uma desculpa. Ele não me dá nenhuma das duas. — Você facilitou. É isso... Não é a traição. É o plano maquiavélico dele que me destrói. O desprezo. A forma como ele me reduz a alguém que mereceu, de alguma forma, ser usada. Como se a culpa fosse minha por amar e confiar demais, por acreditar que alguém como ele poderia me escolher de verdade. Eu dou mais um passo para trás e sinto a borda. O vazio logo atrás de mim. O mar lá embaixo parece mais próximo agora. Mais real e perigoso. — Fica longe de mim — digo, mas minha voz falha no meio do caminho. Ele percebe. — Você sempre foi ingênua — ele continua, avançando. — Sempre acreditando que alguém como eu poderia… Ele não termina. Nem precisa. Eu termino por ele, em silêncio. Poderia me amar. Poderia me escolher. Poderia ficar. — Você é um monstro. Ele ri baixo, sem nenhuma emoção. — Não. Eu só parei de fingir. Estava ficando cansativo. Mais um passo dele e eu recuo. O salto escorrega de novo. Uma pedrinha se solta e cai, desaparecendo na escuridão. O som não chega até mim. É longe demais. — Para. Mas ele não para. — Você não vai a lugar nenhum, Melinda. E então ele me toca. A mão dele envolve meu braço com uma firmeza que não deixa dúvida. Não é um gesto de quem quer segurar. É de quem quer controlar. O tempo desacelera. O vento some. O som do mar se afasta. Tudo o que eu sinto é o calor da mão dele na minha pele… e o frio que vem logo depois. — Você não devia ter visto. Não era para... ter acontecido. É cedo demais. Por um segundo, eu penso que ele vai me puxar de volta. Que isso tudo é um erro, um limite que ele não vai ultrapassar. Eu penso muitas coisas. Todas erradas. Ele me solta. Ou me empurra. Eu nunca vou saber ao certo. O chão desaparece sob meus pés, e o mundo inclina de um jeito impossível, como se alguém tivesse virado tudo de cabeça para baixo. Meu corpo perde o equilíbrio, e eu agarro o ar como se ele pudesse me salvar. Por um instante — curto, cruel — eu vejo o céu. As luzes de Santorini, bonitas demais para aquele momento. E o rosto dele, sem máscara, sem charme. Sem nada. Só… vazio. E então eu caio. O vento rasga meus ouvidos. O vestido se prende nas minhas pernas. O coração acelera tão rápido que dói. E, no meio da queda, um pensamento atravessa tudo: eu amei esse homem. A água me atinge como um choque. Fria, brutal. Definitiva. E, quando o mar me engole, eu finalmente entend que eu nunca tive chance.O espaço entre a gente diminui de um jeito quase indecente. Eu sinto primeiro no corpo, não na cabeça. A respiração dele mais próxima, o calor, aquele tipo de presença que não pede permissão — invade. E, por um segundo intenso, eu simplesmente… deixo. Eu dou um passo para trás, devagar e controlado. Como se estivesse desarmando uma bomba prestes a explodir. — A gente precisa manter isso… funcional — digo, apoiando a mão na mesa atrás de mim, criando uma distância segura entre nós dois. — Eu consigo fazer isso. Consigo não me aproximar demais dele. Joseph não se mexe. Nem um centímetro. — Consegue? — ele pergunta, o tom baixo, mas carregado de alguma coisa que não fica muito claro. Eu cruzo os braços, sustentando o olhar. — Consigo. Ele inclina levemente a cabeça, como se estivesse me analisando por dentro. — E se isso for exatamente o que ele quer? — Vai ser — respondo, sem hesitar. — E é por isso que funciona. — Não sei se é um boa ideia. Um silêncio se este
Acordo com a luz atravessando a cortina como uma acusação silenciosa. Por um segundo, sinto que as coisas estão estranhas, depois de muito tempo. Meus olhos se abrem devagar e o que me vem logo à cabeça é ele. Joseph. O nosso quase beijo. Eu viro o rosto para o lado, ainda meio sonolenta, esperando encontrar algum sinal de que a noite passada realmente aconteceu — um olhar, uma presença, qualquer coisa. Mas o lado da cama está vazio e frio. Apesar de não dormirmos nos mesmo quarto, agora parece estranho não fazermos isso, ainda que não temos nada um com outro além de um acordo. Percebo logo que Joseph já foi para o trabalho. Eu fico alguns segundos olhando para o nada na sala, absorvendo o alívio que vem junto com isso. Porque eu não faço ideia de como encararia ele agora.Suspiro fundo, passando a mão pelo rosto, tentando empurrar as lembranças para um canto menos barulhento da minha mente. Na cozinha, o silêncio é ainda mais evidente. Nada de café pronto. Nada de passos.
O silêncio dentro do carro pesa na volta paa casa. É o tipo de silêncio que carrega tudo o que não foi dito, tudo o que ainda está sendo processado, tudo o que, se ganhar voz, pode mudar o rumo inteiro de uma história. Eu observo a cidade passando pela janela — luzes borradas, pessoas que não fazem ideia do que acabou de acontecer algumas quadras atrás, do tipo de encontro que não aparece em manchetes, mas que tem potencial para destruir vidas inteiras. Ou reconstruí-las. Joseph dirige com a mesma calma de sempre, mas eu já aprendi a reconhecer os sinais sutis. O maxilar levemente tenso, a mão firme no volante. Ele também está pensando. — Você está bem? — ele pergunta depois de alguns minutos, sem tirar os olhos da estrada. Eu demoro um pouco para responder. Porque a resposta fácil seria “sim”, mas não seria verdade. — Estou — digo, por fim. — Só… surpresa. Ele me olha de relance. — Com o quê? Eu solto um sopro curto, cruzando os braços. — Com a falta de respeito d
Atravessar aquele salão ao lado de Joseph deveria parecer natural. E, de certa forma, parecia. O problema não era o que os outros viam. Era o que eu sentia. Cada passo na direção de Andrew fazia meu corpo lembrar de coisas que minha mente estava tentando manter sob controle. Não era medo — eu me recuso a dar esse nome —, mas havia algo ali, uma tensão fina, quase elétrica, como se o meu próprio instinto estivesse em alerta máximo. — Devagar — Joseph murmura, quase sem mexer os lábios, enquanto cumprimenta alguém à nossa direita. — Eu sei andar — respondo, no mesmo tom. — Não é sobre isso. Eu não olho para ele, porque eu sei exatamente sobre o que é. Controle, respiração e presença. Tudo o que nós treinamos por meses. Eu ajusto a postura, relaxo os ombros, deslizo a mão pelo braço dele com naturalidade. O tipo de gesto que parece íntimo o suficiente para convencer, mas ensaiado o bastante para não trair nada além do que queremos mostrar. E então, chegamos perto o suf
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