Mundo de ficçãoIniciar sessãoJúlia só tem 17 anos, mas já enterrou a mãe Joana. Assim como o Dr. Mário que enterrou a esposa Sônia há alguns anos. Dois lutos no mesmo teto. Ele foi oncologista de Joana. Viu a morte levá-la aos poucos. Por empatia, levou a filha para sua mansão. Deu emprego de babá. Deu teto. Deu comida. Caridade… Até a gratidão dela pesar. Até o olhar dela demorar. Até a mão dele não sair da cintura dela na hora que deveria afastar. Ele tem 35. Ainda usa aliança. Ainda jura Hipócrates todo dia. Ela tem 17. Devia chamá-lo apenas de doutor. Mas chama de Mário quando se encontram às escondidas. Ele prometeu cuidar da filha da paciente. Mas prometeu que não iria à sua cama toda noite. Porque ela é a única regra que ele quebra.
Ler maisA luz entra pela fresta da cortina e bate direto no meu rosto. Eu acordo devagar, com o corpo pesado de sono e com um sorriso bobo que não consigo apagar. Ontem à noite foi... foi tudo. O salão inteiro nos viu. O beijo. A mão dele na minha cintura. O "minha rainha". Ainda estou processando. Estico o braço na cama e o lado de Mário está frio. Vazio. Por um segundo o estômago aperta. Será que foi sonho? Aí a porta do quarto abre sem barulho e o coração volta a bater normal.É ele. Mário entra descalço, de calça de moletom preta e uma camiseta branca simples. Nada do terno de ontem. Nada do Doutor Mário poderoso. É só o meu Mário. E nas mãos dele tem uma bandeja. — Bom dia, novinha — ele fala baixo, com aquele sorriso de canto que me desmonta toda. — Trouxe café na cama para a rainha do território.Meu Deus. A bandeja tem pão na chapa, frutas, café passado recentemente, suco de laranja e até uma rosa branca pequena no canto. É tão bobo e tão perfeito que meus olhos ardem na hora
O asfalto da Barra da Tijuca desliza macio sob os pneus do carro, mas a minha mente continua correndo na velocidade daquele salão de festas. Olho pela janela, vendo os postes de luz passarem como borrões dourados, e depois volto os olhos para a minha mão, que continua firmemente presa entre os dedos compridos de Mário. O silêncio dentro do veículo não é desconfortável; é o silêncio de quem acabou de vencer uma batalha de trincheiras sem disparar um único tiro de gude.— Você viu a cara daquela mulher quando nós passamos pela porta de saída? — pergunto, quebrando o silêncio com um sussurro, sentindo um riso leve e vitorioso brotar na minha garganta.Mário desvia o olhar da janela dele e me encara. Os olhos dele, pretos e intensos, brilham na penumbra do banco traseiro. O canto da boca dele se curva naquele sorriso de quem sabe exatamente o poder que carrega.— A esposa do Renato parecia que tinha engolido uma pedra de gelo seca, novinha — ele responde, a voz grave vibrando baixinho den
O beijo dele me queima a alma. No segundo em que meus lábios encostam nos de Mário, o mundo inteiro some. A música, os sussurros, o tilintar das taças... tudo vira um zumbido distante. Só existe a mão firme dele na minha cintura me puxando pra mais perto, como se tivesse medo de que alguém ousasse me arrancar de seus braços. E o gosto dele. De poder. De vitória. De casa. Eu pensei que ia tremer. Que o medo de "não pertencer" ia voltar. Mas não voltou. Pela primeira vez na noite inteira, eu não sinto medo. Eu me sinto bem. Muito bem. Quando me afasto um milímetro, ofegante, o salão inteiro está em silêncio. Dezenas de olhos em cima de nós. A esposa do Renato com a taça parada no meio do caminho. As socialites com sorrisos congelados. E eu? Eu só consigo olhar pra ele. — Você enlouqueceu? — sussurro, mas tem um sorriso no canto da boca que eu não consigo segurar. — Eu avisei — ele responde, a voz grave roçando minha orelha. — Ninguém toca no que é meu. O diretor do hospit
O silêncio na mesa principal após a fuga humilhante de Renato é cortante, mas dura poucos segundos. O diretor financeiro, percebendo que o poder real da noite não reside na tradição hipócrita da elite, mas no tamanho da minha disposição de esmagar quem cruzar o meu caminho. Ele levanta sua taça de cristal com um sorriso renovado, limpa a garganta e desprovido de qualquer condescendência.— Um brinde... ao Doutor Mário e à adorável Júlia — o diretor proclama, a voz projetada para que as mesas mais próximas ouçam. — À verdade, à renovação e ao sucesso contínuo das clínicas.Os outros membros da mesa imediatamente erguem suas taças, ansiosos por se alinharem ao lado vencedor. O tilintar dos cristais sela o destino de Renato naquela noite: ele se tornou um pária social antes mesmo do prato principal ser recolhido.Olho para Júlia. Ela mantém a postura impecável, mas o leve tremor que antes habitava seus dedos desapareceu por completo. Há um brilho novo em seus olhos castanhos, uma mistura










Último capítulo