Mundo de ficçãoIniciar sessãoJúlia só tem 17 anos, mas já enterrou a mãe Joana. Assim como o Dr. Mário que enterrou a esposa Sônia há alguns anos. Dois lutos no mesmo teto. Ele foi oncologista de Joana. Viu a morte levá-la aos poucos. Por empatia, levou a filha para sua mansão. Deu emprego de babá. Deu teto. Deu comida. Caridade… Até a gratidão dela pesar. Até o olhar dela demorar. Até a mão dele não sair da cintura dela na hora que deveria afastar. Ele tem 35. Ainda usa aliança. Ainda jura Hipócrates todo dia. Ela tem 17. Devia chamá-lo apenas de doutor. Mas chama de Mário quando se encontram às escondidas. Ele prometeu cuidar da filha da paciente. Mas prometeu que não iria à sua cama toda noite. Porque ela é a única regra que ele quebra.
Ler maisO asfalto da Barra da Tijuca desliza macio sob os pneus do carro, mas a minha mente continua correndo na velocidade daquele salão de festas. Olho pela janela, vendo os postes de luz passarem como borrões dourados, e depois volto os olhos para a minha mão, que continua firmemente presa entre os dedos compridos de Mário. O silêncio dentro do veículo não é desconfortável; é o silêncio de quem acabou de vencer uma batalha de trincheiras sem disparar um único tiro de gude.— Você viu a cara daquela mulher quando nós passamos pela porta de saída? — pergunto, quebrando o silêncio com um sussurro, sentindo um riso leve e vitorioso brotar na minha garganta.Mário desvia o olhar da janela dele e me encara. Os olhos dele, pretos e intensos, brilham na penumbra do banco traseiro. O canto da boca dele se curva naquele sorriso de quem sabe exatamente o poder que carrega.— A esposa do Renato parecia que tinha engolido uma pedra de gelo seca, novinha — ele responde, a voz grave vibrando baixinho den
O beijo dele me queima a alma. No segundo em que meus lábios encostam nos de Mário, o mundo inteiro some. A música, os sussurros, o tilintar das taças... tudo vira um zumbido distante. Só existe a mão firme dele na minha cintura me puxando pra mais perto, como se tivesse medo de que alguém ousasse me arrancar de seus braços. E o gosto dele. De poder. De vitória. De casa. Eu pensei que ia tremer. Que o medo de "não pertencer" ia voltar. Mas não voltou. Pela primeira vez na noite inteira, eu não sinto medo. Eu me sinto bem. Muito bem. Quando me afasto um milímetro, ofegante, o salão inteiro está em silêncio. Dezenas de olhos em cima de nós. A esposa do Renato com a taça parada no meio do caminho. As socialites com sorrisos congelados. E eu? Eu só consigo olhar pra ele. — Você enlouqueceu? — sussurro, mas tem um sorriso no canto da boca que eu não consigo segurar. — Eu avisei — ele responde, a voz grave roçando minha orelha. — Ninguém toca no que é meu. O diretor do hospit
O silêncio na mesa principal após a fuga humilhante de Renato é cortante, mas dura poucos segundos. O diretor financeiro, percebendo que o poder real da noite não reside na tradição hipócrita da elite, mas no tamanho da minha disposição de esmagar quem cruzar o meu caminho. Ele levanta sua taça de cristal com um sorriso renovado, limpa a garganta e desprovido de qualquer condescendência.— Um brinde... ao Doutor Mário e à adorável Júlia — o diretor proclama, a voz projetada para que as mesas mais próximas ouçam. — À verdade, à renovação e ao sucesso contínuo das clínicas.Os outros membros da mesa imediatamente erguem suas taças, ansiosos por se alinharem ao lado vencedor. O tilintar dos cristais sela o destino de Renato naquela noite: ele se tornou um pária social antes mesmo do prato principal ser recolhido.Olho para Júlia. Ela mantém a postura impecável, mas o leve tremor que antes habitava seus dedos desapareceu por completo. Há um brilho novo em seus olhos castanhos, uma mistura
O silêncio estupefato que se instala na mesa principal após a minha declaração é quase palpável. O diretor financeiro pisca duas vezes, com o sorriso cortês congelado no rosto, sem saber exatamente como reagir à minha falta de desculpas. A audácia de apresentar Júlia não apenas como minha acompanhante, mas como a mulher da minha vida, quebra o protocolo invisível de mentiras daquele salão. Sinto os dedos dela relaxarem minimamente sob a mesa, e a minha mão, espalmada com firmeza em suas costas, massageia o tecido azul-noturno para lembrá-la de que o território é nosso.— Uma... uma bela declaração, Doutor Mário — o homem gagueja, tentando recuperar a compostura corporativa. — Seja muito bem-vinda à nossa noite, Júlia.— Obrigada, boa noite — ela responde. A voz dela sai mansa, mas perfeitamente firme, sem gaguejar, sustentando o olhar do diretor com uma altivez que faz o meu peito inflar de orgulho.O garçom se aproxima silenciosamente e serve o primeiro prato do menu. O tilintar de t










Último capítulo