A Canção do Amor
A Canção do Amor
Por: Charles Wilde
Prólogo

Universidade de São Paulo, Outubro de 1994.

    A garoa paulistana daquela madrugada não era apenas água; era uma cortina cinza e gélida que abafava os ecos do campus da USP, transformando a Cidade Universitária em um labirinto de concreto e sombras. No prédio do Departamento de Música, o relógio de parede do corredor principal marcava duas e quinze da manhã. O som rítmico do ponteiro dos segundos parecia o bater de um coração metálico, solitário, ecoando pelo piso de granilite encerado.

    Clara Albuquerque caminhava com os ombros encolhidos, as mãos enterradas nos bolsos de um cardigã de lã cinza que parecia dois números maior que o seu corpo. Seus coturnos faziam um barulho surdo, uma percussão tímida contra o chão. Ela evitava o próprio reflexo nas vitrines dos murais de aviso, onde cartazes amarelados anunciavam concertos que ela nunca teria coragem de protagonizar. Para Clara, o mundo durante o dia era um campo minado de olhares — alguns de pena, outros de escárnio, a maioria de uma indiferença que doía mais do que o ódio. Mas a madrugada... a madrugada era dela. Na escuridão, seu corpo plus-size não era um "problema de espaço" ou um "alvo de cochichos". Era apenas ela.

Ela parou diante da porta de carvalho pesado da Cabine 4. O número de metal estava levemente descascado. Clara girou a chave, entrou e não acendeu a luz fluorescente. A claridade amarela dos postes da rua filtrava-se pela pequena janela alta, desenhando retângulos pálidos sobre o piano de cauda que dominava o cubículo.

Clara sentou-se na banqueta de couro. O frio do assento atravessou o jeans, mas ela não se importou. Abriu o caderno de capa de couro desgastada e o colocou sobre o suporte de partituras. Não havia notas escritas ali, apenas palavras. Poesias que sangravam inseguranças e melodias que ela decorara na ponta dos dedos, mas que temia registrar no papel, como se o ato de escrever as tornasse reais demais para o mundo suportar.

Suas mãos, gordinhas e de dedos ágeis, pairaram sobre as teclas brancas. Por um segundo, ela fechou os olhos.

Respire, ela disse a si mesma em pensamento. Aqui, ninguém está olhando. Aqui, você não é "a garota gorda do fundo da sala". Aqui, você é a música.

Ela começou a tocar. Não era uma peça de Chopin ou uma sonata de Beethoven. Era algo que nascera em uma noite de insônia, uma melodia melancólica que subia em arpejos delicados e caía em acordes menores, pesados, como o peso que ela sentia no peito toda vez que precisava atravessar o refeitório lotado. A música preenchia o espaço exíguo da cabine, vibrando na madeira, no vidro da janela, nos seus ossos. Era o som de alguém que pedia para ser encontrado, mas que tinha medo de ser visto.

No corredor externo, a poucos metros dali, Theo Montenegro parou abruptamente.

Ele carregava uma mochila de nylon atravessada no peito, ainda exalando o cheiro forte e químico de cloro que parecia ter se entranhado em seus poros permanentemente. Seus cabelos loiros estavam úmidos, e seus olhos azuis, geralmente focados e frios como o fundo de uma piscina de competição, pareciam cansados — uma exaustão que ia além dos músculos. Ele acabara de sair de um treino extra na piscina olímpica, uma punição autoimposta para baixar dois décimos de segundo que seu pai considerava "inaceitáveis".

Theo estava a caminho da saída quando o som o atingiu.

Ele nunca fora um homem de grandes sensibilidades artísticas — ou ao menos, era o que tentava convencer a si mesmo. Na casa dos Montenegro, a arte era vista como uma distração perigosa, um desvio de conduta para quem deveria estar focado em medicina e pódios. Mas aquela música... ela tinha uma textura. Era densa, triste e terrivelmente honesta.

Theo aproximou-se da Cabine 4 com passos de caçador, tentando não fazer barulho. Ele encostou as costas na parede fria, exatamente ao lado da porta. Ele não queria entrar. Ele não queria interromper. Ele só queria... respirar. Pela primeira vez em semanas, a pressão no seu peito, aquela sensação de que havia uma mão invisível apertando seus pulmões, começou a ceder.

Dentro da cabine, Clara se perdeu. Ela começou a cantar, um sussurro rouco que mal ultrapassava o som das cordas do piano.

— "Eu me escondo sob as camadas que criei... esperando que o brilho não me denuncie... porque se você me vir de verdade, eu sei que vai desviar o olhar..."

As palavras atingiram Theo como um soco. Ele fechou os olhos e encostou a nuca na parede. Ele sabia o que era querer se esconder. Ele passava dez horas por dia debaixo d'água justamente porque, lá embaixo, ninguém podia lhe fazer perguntas. Ninguém podia ver suas lágrimas ou seu cansaço. A água era seu esconderijo; a música parecia ser o dela.

Ele estendeu a mão, os dedos longos e calejados roçando a superfície da porta de madeira. Ele sentiu a vibração da nota mais grave do piano. Foi um contato quase elétrico. Naquele momento, separados por dez centímetros de carvalho e anos-luz de contextos sociais, duas almas quebradas se tocaram.

Theo queria abrir a porta. Ele queria ver quem era a dona daquela voz que parecia traduzir o silêncio que ele guardava no fundo da alma. Mas ele hesitou. O medo de quebrar o encanto, de descobrir que a realidade não era tão bela quanto o mistério, o manteve estático.

Dentro da sala, Clara finalizou a música com um acorde de Dó menor que pareceu flutuar no ar por uma eternidade antes de desaparecer. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Ela limpou uma lágrima rápida que escapou e fechou o caderno com um estalo seco.

Theo ouviu o movimento. Ouviu o som da banqueta sendo arrastada. Num reflexo de pânico, ele se afastou da porta e deslizou para a sombra da escadaria próxima, escondendo-se antes que ela pudesse sair.

Clara abriu a porta e olhou para os dois lados do corredor deserto. O ar parecia diferente, carregado de uma eletricidade que ela não conseguia explicar. Ela ajustou o cardigã, sentindo um calafrio, e caminhou em direção à saída, desaparecendo na névoa da madrugada paulista.

Theo saiu das sombras apenas quando o som dos passos dela sumiu. Ele caminhou até a porta da Cabine 4 e olhou para o pequeno visor de vidro. A sala estava vazia, mas o cheiro de um perfume suave, algo como baunilha e papel antigo, ainda pairava no ar.

Ele não sabia o nome dela. Não sabia como era seu rosto. Mas, enquanto caminhava em direção ao seu carro sob a chuva fina, Theo Montenegro percebeu algo que mudaria sua vida para sempre: ele não estava mais sozinho no seu silêncio.

A melodia dela agora vivia dentro dele. E ele faria qualquer coisa para ouvi-la novamente.

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