Mundo de ficçãoIniciar sessãoO frio que eu sentia não vinha mais da garoa de São Paulo. Era um gelo que nascia na base da minha coluna e se espalhava, transformando meu sangue em água gelada. Eu fiquei ali, estática sob o poste de luz da reitoria, vendo o reflexo das luzes vermelhas e azuis da viatura ricochetearem nas poças de óleo e chuva.
O Professor Horácio, o homem que tinha sido a única ponte entre o meu medo e o meu talento, estava sendo colocado no banco de trás. Seus cabelos brancos pareciam mais desarrumados do que o normal, e seus olhos, através do vidro embaçado, encontraram os meus por um segundo eterno."Fuja". A palavra martelava na minha cabeça. Por que ele diria isso? O que o pai de Theo e Beatriz tinham feito? Eu sabia que eles eram poderosos, mas o mundo que eu conhecia — o mundo de 1994, feito de bibliotecas silenciosas e partituras — parecia estar sendo esmagado por uma força que eu não entendia. Eu não fugi. Minhas pernas simplesmente não obedeciam. Eu caminhei, como se estivesse em um sonho ruim, até a beira da calçada. O carro da polícia saiu, os pneus fazendo um som de sucção no asfalto molhado. Fiquei sozinha na escuridão, com o cronômetro de papel amassado na palma da mão e a sensação de que o chão ia ceder a qualquer momento. Passei a noite acordada. Minha mãe estava dormindo, seu ronco suave vindo do quarto ao lado, e eu sentia uma inveja excruciante daquela paz. Eu não conseguia parar de pensar no olhar de desprezo do Sr. Montenegro. "Garota de segunda categoria". Sentei no chão do meu quarto, encostada na cama, e comecei a escrever. Não eram notas musicais dessa vez. Eram palavras. Eu escrevia sobre como o corpo dele parecia feito de mármore e cansaço, sobre como a voz dele através da parede era a única coisa que me fazia sentir que eu não era um erro da natureza. Eu estava com raiva. Uma raiva quente, fervente, que começava a derreter o gelo do medo. Às seis da manhã, o telefone da sala tocou. O som estridente me fez pular. Atendi antes que acordasse minha mãe. — Clara? — Era a voz de Theo. Ele parecia ter passado a noite gritando. — Você está bem? — Theo? Onde você está? O que aconteceu com o Professor Horácio? — Meu pai… ele é um monstro, Clara. Ele moveu uns pauzinhos. Denunciaram o Horácio por "má conduta administrativa" e algo sobre desvio de verba do departamento. É tudo mentira. Eles só queriam tirar quem estava te protegendo. Senti minha garganta fechar. — E a minha bolsa, Theo? Ele disse que ia tirar minha bolsa. Houve um silêncio pesado do outro lado da linha. Ouvi o som dele batendo em algo metálico. — Ele já fez isso, Clara. Eu vi os papéis na mesa dele hoje cedo. Ele ligou para o reitor. Você vai ser notificada hoje. Ele quer te apagar. Ele quer que você suma para que eu volte a ser o robozinho dele na piscina. Eu fechei os olhos, deixando as lágrimas caírem. Eu sabia que isso aconteceria. O mundo não era um lugar para pessoas como eu ganharem. — Então acabou — sussurrei. — Eu vou ter que trancar a matrícula. Minha mãe não tem como pagar. — Não acabou — Theo disse, e sua voz subitamente ficou firme, perigosa. — Hoje é o Festival. — Theo, não tem como. O Horácio está preso, eu não tenho mais bolsa, e a Beatriz provavelmente tem uma equipe de segurança para me impedir de entrar naquele prédio. — Me ouve — ele interrompeu. — Eu estou saindo de casa. Agora. Peguei as chaves do carro do meu pai e todo o dinheiro que ele guardava no cofre do escritório. Eu não vou voltar, Clara. Nunca mais. Se eu vou ser um fracasso para ele, vou ser o maior fracasso da história. Meu coração deu um salto. — O que você vai fazer? — Eu vou te buscar. Esteja pronta em vinte minutos. Nós vamos para o Conservatório. O Festival começa às oito, mas os ensaios gerais são agora pela manhã. Se a gente entrar antes que a poeira baixe, eles não vão conseguir nos tirar de cima daquele palco com todo mundo assistindo. — Theo, isso é loucura. A gente vai ser expulso, talvez preso. — Eu já estou morto por dentro, Melodia. Você é a única nota que ainda vibra em mim. Se você não tocar comigo hoje, eu juro que entro naquela piscina e não volto para respirar. A urgência na voz dele era assustadora. Eu sabia que ele não estava brincando. O "garoto de ouro" tinha quebrado, e eu era a única que conhecia os cacos. — Vinte minutos — eu disse. Desliguei o telefone e corri para o meu quarto. Eu não peguei muita coisa. Apenas meu caderno de couro, minhas partituras e o meu melhor cardigã — um preto, um pouco mais ajustado, que minha mãe dizia que realçava a cor dos meus olhos. Eu olhei no espelho e, pela primeira vez, não tentei diminuir o meu espaço. Eu parecia sólida. Parecia real. Vinte minutos depois, um Opala preto freou bruscamente na frente da minha casa. Theo estava ao volante, o rosto pálido e os olhos injetados de sangue. Ele parecia ter envelhecido dez anos em uma noite. Entrei no carro e ele arrancou antes que eu pudesse colocar o cinto. — Você está bem? — perguntei, tocando o braço dele. Ele estava tremendo. — Vou ficar — ele disse, olhando fixamente para a estrada. — Eu deixei uma nota para ele. Disse tudo. Sobre a música da minha mãe, sobre como eu odeio o cheiro de cloro, sobre como ele nunca me conheceu de verdade. — E a Beatriz? Ele deu um riso amargo. — A Beatriz é um acessório que ele comprou. Ela está em pânico agora, provavelmente ligando para todos os contatos dela para tentar nos rastrear. Mas ela não conhece a USP como a gente, Clara. Ela só frequenta os lugares onde pode ser vista. Ela não conhece as sombras. Chegamos ao campus. O clima estava elétrico. O Festival de Primavera era o evento que movimentava toda a universidade. Havia caminhões de som, estudantes carregando instrumentos gigantes e uma multidão de pessoas circulando perto do auditório principal. Theo estacionou o carro em uma vaga proibida e descemos. Ele segurou minha mão. Foi um gesto público, deliberado. As pessoas paravam para olhar. O capitão da natação, de mãos dadas com a garota de cardigã que ninguém conhecia. Eu sentia os sussurros, os olhares de julgamento, mas pela primeira vez, eu não me encolhi. — Foca em mim — ele sussurrou no meu ouvido, enquanto passávamos pelo portão do Conservatório. — Só em mim. Conseguimos entrar nos bastidores usando uma entrada de serviço que eu conhecia. O lugar era um caos de cordas de violino sendo afinadas e cantores fazendo exercícios vocais. Ninguém prestou muita atenção em nós, até que chegamos perto da lista de apresentações. — O seu nome não está aqui, Clara — Theo disse, os olhos correndo pelo papel. — Eles riscaram. — O pai dele foi rápido — comentei, sentindo um nó na garganta. — Não importa. O Horácio me deu a chave reserva do piano de cauda principal semana passada. Ele sabia que algo assim podia acontecer. Ele disse que, se tudo desse errado, eu deveria "fazer barulho". Ficamos escondidos em uma pequena sala de depósitos, cercados por cadeiras quebradas e estantes de partituras mofadas. O tempo parecia se arrastar e voar ao mesmo tempo. Ouvíamos o som das apresentações começando no palco principal. Aplausos, música clássica erudita, discursos polidos do reitor. — Estamos na metade do programa — Theo disse, consultando o relógio. — A próxima é a Beatriz. Ela vai fazer uma apresentação de flauta transversal. É a "queridinha" do departamento. — É a nossa chance — eu disse, sentindo uma adrenalina que eu nunca tinha sentido. — Quando ela terminar, haverá aquele intervalo de cinco minutos para a troca de palco antes da segunda metade. — Você está pronta para isso, Melodia? Assim que a gente subir ali, não tem volta. Sua bolsa, sua reputação… tudo vai estar em jogo. — Eu já perdi a bolsa, Theo. E a minha reputação é a de uma garota invisível. Eu não tenho nada a perder, exceto a chance de ser quem eu sou de verdade ao seu lado. Ele sorriu e me beijou na testa. Foi um beijo longo, que selou um pacto que as palavras não conseguiam descrever. Ouvimos o som da flauta de Beatriz. Era uma execução técnica perfeita, fria e sem alma. Quando ela terminou, os aplausos foram educados e volumosos. Ouvimos os passos dela saindo do palco, vindo em direção aos bastidores. — Agora — Theo sussurrou. Saímos do depósito. Beatriz estava passando por nós, cercada por um grupo de admiradores e segurando um buquê de flores. Quando ela nos viu, o sorriso dela desapareceu instantaneamente. — O que vocês estão fazendo aqui? — ela sibilou, os olhos arregalados. — Theo, seu pai está na primeira fila! Ele chamou a segurança! — Deixa ele assistir, Bia — Theo disse, passando por ela sem parar. — Talvez ele aprenda a diferença entre um troféu e um ser humano. Caminhamos em direção à cortina. Meu coração parecia um tambor de guerra. O mestre de cerimônias subiu ao palco para anunciar o intervalo. — Senhoras e senhores, teremos um breve intervalo de cinco minutos… Theo não esperou. Ele afastou a cortina e entrou no palco. Eu o segui. O auditório estava lotado. Milhares de rostos embaçados pela luz forte dos holofotes. Eu vi o Sr. Montenegro na primeira fila, o rosto ficando vermelho de raiva. Eu vi o reitor se levantando, confuso. Theo sentou-se ao piano de cauda. Ele abriu a tampa com um estrondo que silenciou o burburinho da plateia. Eu me posicionei ao lado dele, o microfone captando o som da minha respiração ofegante. — Isso não faz parte do programa! — alguém gritou do fundo. — Segurança! — o reitor berrou. Dois seguranças começaram a correr pelos corredores laterais em direção ao palco. Theo olhou para mim. Seus olhos brilhavam com uma determinação feroz. — Toca, Theo — eu sussurrei. Ele baixou as mãos. Não foi um acorde tímido. Foi um estrondo de Sol maior que pareceu sacudir as vigas do prédio. Os seguranças pararam, hesitantes, como se a própria música fosse uma barreira física. Eu fechei os olhos. Eu não estava mais vendo o pai dele, ou a Beatriz, ou os seguranças. Eu estava de volta à Cabine 4. Eu estava no escuro, onde o meu corpo não tinha peso e a minha voz era a única coisa que importava. — "Eu não sou o que você vê..." — eu comecei a cantar. Minha voz saiu cristalina, poderosa, reverberando por cada canto do auditório. — "Eu sou o que você ouve quando o silêncio dói..." Theo começou a improvisar sobre a melodia da "Dança das Sombras". Ele tocava como se estivesse exorcizando demônios. As notas fluíam dele com uma facilidade assustadora. Era um diálogo. Ele me respondia em cada frase, sustentando a minha voz, elevando-a. A plateia, que antes estava em caos, ficou em silêncio absoluto. Era aquele silêncio que o Theo tanto amava. O silêncio da admiração. Eu via o Sr. Montenegro tentar se levantar, mas ele parecia pregado à cadeira pela força da música do próprio filho. Ele nunca tinha ouvido o Theo tocar assim. Ele nunca tinha ouvido a alma do filho. No meio da música, as luzes do auditório começaram a piscar. A administração estava tentando cortar a energia para nos tirar dali. — Eles vão cortar a luz! — Theo gritou para mim, sem parar de tocar. — Deixa que cortem! — eu respondi. — A gente termina no escuro! E então, aconteceu. A energia caiu. O auditório mergulhou em um breu total. Os microfones morreram. Mas o piano era acústico. E a minha voz tinha sido treinada para alcançar a última fileira do conservatório sem ajuda de cabos. Continuamos. No escuro, eu senti a mão de Theo encontrar a minha sobre a madeira do piano enquanto ele continuava a tocar apenas com a mão esquerda. A conexão era tão forte que eu sentia que podíamos iluminar o prédio inteiro sozinhos. Nós terminamos a música em um sussurro, uma nota de piano que se desvaneceu até sumir no nada. Ficamos em silêncio no escuro por o que pareceu uma eternidade. Eu esperava a segurança me arrastar. Esperava os gritos. Em vez disso, um som começou no fundo do teatro. Uma única pessoa batendo palmas. Depois outra. E outra. Até que o auditório inteiro explodiu em uma ovação que eu nunca tinha ouvido na vida. Pessoas acenderam isqueiros, criando pequenos pontos de luz como estrelas. — Melodia… — Theo sussurrou, levantando-se e me abraçando com força no escuro. — A gente conseguiu. Mas o momento de triunfo foi interrompido por um feixe de lanterna forte no rosto de Theo. — Theo Montenegro? — uma voz autoritária disse. — Você está sob custódia por furto de veículo e invasão de propriedade. Senti o corpo de Theo ficar rígido. Os seguranças não estavam vindo me buscar. Estavam vindo buscar ele. — Corre, Clara — ele disse no meu ouvido, me empurrando para a saída lateral. — Pega o meu caderno no carro. Tem algo lá para você. — Eu não vou te deixar! — Vai! Agora! Eu te encontro. Eu prometo. Eu fui arrastada pelo fluxo de pessoas que tentavam entender o que estava acontecendo. Vi Theo ser conduzido para fora sob as luzes das lanternas, o rosto erguido, um sorriso de vitória ainda nos lábios enquanto o pai dele gritava obscenidades ao fundo. Corri para o estacionamento, com o coração saindo pela boca. Encontrei o Opala preto. A porta estava destrancada. No banco do passageiro, havia um caderno azul. Abri o caderno sob a luz da lua. Dentro, não havia partituras. Havia uma série de cartas endereçadas ao reitor, assinadas pela mãe de Theo antes de morrer, revelando um fundo de reserva em nome de "futuros talentos musicais" que o Sr. Montenegro tinha tentado esconder. Mas a última página era para mim. "Clara, você me deu a voz que eu nunca tive coragem de usar. Agora, use a sua para tirar o Horácio daquela cela. O nome do advogado está no verso. Não pare de tocar. Eu estarei ouvindo, onde quer que eu esteja." Eu fechei o caderno, as lágrimas molhando a capa azul. Eu não era mais a garota invisível. Eu era a garota que tinha uma missão. Ouvi o som de passos apressados vindo em minha direção. Não era a polícia. Era Beatriz, e ela não estava mais sorrindo. Ela segurava um gravador de voz e parecia aterrorizada. — Clara, você precisa ouvir isso — ela disse, a voz trêmula. — O pai dele… ele não sabe que eu gravo as nossas conversas. O que estava naquela fita podia mudar tudo. Ou podia nos destruir de vez.






