Mundo de ficçãoIniciar sessãoPassei o dia seguinte em transe. O pequeno pedaço de papel escondido entre as páginas do meu caderno de música parecia pesar um quilo. Toda vez que eu me sentia sobrecarregada pelo burburinho do corredor ou pelo olhar analítico de algum professor, eu enfiava a mão na mochila e tocava o papel. Era real. Alguém tinha me ouvido, e esse alguém não tinha rido.
As aulas de teoria pareciam durar séculos. Eu mal conseguia focar nas quintas paralelas ou nas resoluções de acordes de sétima. Meus olhos teimavam em vagar pela janela, observando os estudantes que atravessavam o pátio da USP. Eu me pegava procurando por ombros largos, por cabelos loiros ainda úmidos de cloro, por aquele caminhar de quem carrega o mundo nas costas. "O que você está fazendo, Clara?", eu me repreendia, afundando mais o queixo no meu cardigã. "Ele provavelmente nem se lembra do que escreveu. Foi um momento de cansaço, um delírio de madrugada." Mas a caligrafia firme no verso do cronômetro dizia o contrário. A sua música é a única coisa que faz sentido hoje. Na hora do almoço, cometi o erro de ir ao refeitório central. O lugar estava um caos. O cheiro de feijão, arroz e desinfetante se misturava ao som de centenas de conversas sobrepostas, bandejas de metal batendo e risadas altas. Para mim, aquele lugar era o epicentro da minha ansiedade. Eu sentia como se houvesse um holofote invisível sobre mim, apontando cada centímetro do meu corpo que não se encaixava naquelas mesas de grupos perfeitos. Peguei minha bandeja e procurei por um canto isolado. Meus olhos bateram em uma mesa perto da janela, onde a "realeza" do campus estava reunida. E lá estava ele. Theo Montenegro. Ele estava sentado entre dois outros nadadores e Beatriz Lacerda. Bia estava debruçada sobre ele, o cabelo loiro perfeitamente liso caindo sobre os ombros, falando algo que fazia os outros rirem. Theo, no entanto, não estava rindo. Ele segurava um copo de suco, olhando para o nada, com aquela mesma expressão de exaustão que eu vira na piscina. Ele parecia estar a quilômetros de distância dali, mesmo com a mão de Bia descansando no seu braço. Senti uma pontada de algo que não soube identificar. Inveja? Tristeza? Talvez apenas a constatação óbvia de que o "garoto da parede" pertencia a um mundo onde eu era apenas figurante. De repente, Theo virou a cabeça. Foi rápido, um movimento instintivo. Seus olhos azuis varreram o refeitório e, por um segundo terrível e eterno, eles pararam em mim. Eu congelei. A bandeja em minhas mãos tremeu, o talher de metal fazendo um barulho irritante contra o prato. Eu queria desaparecer. Queria que o chão de granilite se abrisse e me engolisse. Eu tinha certeza de que ele ia me reconhecer — não pelo rosto, mas pela aura de esquisitice que eu carregava. Mas ele apenas desviou o olhar, voltando a atenção para o que Bia dizia. Ele não me viu. Quer dizer, ele viu a garota gorda de cardigã cinza parada no meio do caminho, mas ele não viu a compositora da Cabine 4. O alívio foi imediato, mas veio acompanhado de um vazio estranho. — Clara! — Uma voz baixa me chamou. Era o Professor Horácio. Ele estava saindo do refeitório e parou ao meu lado. — Já decidiu sobre a inscrição? O prazo não espera por ninguém, minha cara. — Eu ainda estou pensando, professor — menti, sentindo o suor frio nas costas. — Não pense demais. O pensamento é o inimigo da execução. Aquela peça que você estava tocando ontem à noite… ela tem alma. E alma é algo que falta muito nesse departamento ultimamente. Ele deu um tapinha no meu ombro e saiu. Eu percebi que Theo tinha olhado novamente em nossa direção ao ouvir a voz do professor. Dessa vez, ele franziu a testa, observando Horácio se afastar e depois me encarando por um segundo a mais do que o socialmente aceitável. Saí dali sem comer. Meu estômago estava um nó. Passei a tarde na biblioteca, escondida entre as estantes de musicologia, tentando ler sobre a estrutura das sinfonias de Mahler, mas as palavras apenas dançavam diante dos meus olhos. Eu só conseguia pensar na Cabine 5. Será que ele estaria lá hoje? A noite caiu devagar, trazendo consigo aquela névoa úmida de São Paulo. Esperei até que o prédio ficasse quase vazio. Caminhei pelos corredores silenciosos, o som dos meus próprios passos ecoando como batidas de tambor. Quando cheguei à porta da Cabine 4, meu coração estava tão acelerado que tive que parar e respirar fundo várias vezes. Entrei, fechei a porta e, por hábito, não acendi a luz. A escuridão era meu útero, o único lugar onde eu me sentia completa. Sentei-me à banqueta e esperei. Cinco minutos. Dez minutos. O silêncio era absoluto. "Ele não vem", pensei, sentindo uma decepção ridícula. "Por que ele viria? Ele tem a Bia, ele tem as medalhas, ele tem uma vida perfeita. Por que viria para um cubículo mofado ouvir uma estranha tocar?" Apoiei a testa na madeira fria do piano. Senti-me estúpida. Uma garota de vinte anos agindo como uma adolescente apaixonada por uma voz através de uma parede. Então, ouvi. O som metálico de uma chave girando na porta ao lado. O ranger suave das dobradiças da Cabine 5. O baque de uma mochila sendo jogada no chão. Meu corpo inteiro ficou em alerta. Eu mal ousava respirar. Houve um longo silêncio. Eu sabia que ele estava lá, a poucos centímetros de mim, separado apenas por tábuas de carvalho e segredos. — Eu sei que você está aí — a voz dele ecoou, mais baixa do que na noite anterior, quase um sussurro confidencial. — Consigo sentir o seu silêncio. Senti um arrepio subir pela minha nuca. Minha voz sumiu por um momento, presa na garganta seca. — Eu… eu não sabia se você viria — respondi, minha voz saindo trêmula. Ouvi um suspiro pesado do outro lado. O som de alguém se encostando na parede. — Eu precisava vir. Hoje foi um daqueles dias em que a água da piscina parecia chumbo. Meu pai ligou… ele quer que eu baixe mais o tempo na próxima competição. Às vezes eu sinto que, se eu parar de nadar por um segundo, eu simplesmente vou afundar e nunca mais voltar. Eu nunca tinha ouvido alguém falar com tanta vulnerabilidade. Não um cara como ele. Não o "garoto de ouro". — A música ajuda? — perguntei, aproximando-me da parede, sentindo o calor da madeira contra a minha bochecha. — Ontem ajudou. Foi a primeira vez em meses que eu não sonhei que estava me afogando. Ficamos em silêncio por um tempo. Era um silêncio confortável, preenchido apenas pela nossa respiração compartilhada através das frestas da parede. — Qual o seu nome? — ele perguntou de repente. O pânico me atingiu. Se eu dissesse meu nome, a magia acabaria. Ele me procuraria no campus, veria quem eu sou, e o encanto da "musa invisível" seria destruído pela realidade da garota plus-size que ele viu no refeitório. — Não — eu disse, rápido demais. — Por favor. Vamos deixar assim. Sem nomes. Houve uma pausa. Eu temia que ele ficasse ofendido, que fosse embora. — Tudo bem — ele disse, e eu pude ouvir um leve sorriso na sua voz. — Então eu vou te chamar de Melodia. Pode ser? — E eu te chamo de quê? — perguntei, sentindo meu rosto arder na escuridão. — De nada. Eu sou apenas o cara que se afoga e você é quem me traz de volta. Toca para mim? Aquela que você começou ontem? Eu não precisava que ele pedisse duas vezes. Abri o piano e deixei meus dedos encontrarem o caminho. Comecei a tocar a peça que eu tinha batizado mentalmente de "A Dança das Sombras". Mas, conforme eu tocava, a música começou a mudar. Ela não era mais apenas melancólica; ela ganhou uma urgência, uma força que eu não sabia que possuía. Eu estava tocando para ele. Para o peso nos ombros dele, para o cansaço nos olhos dele, para a solidão que nós dois compartilhávamos. Eu me perdi na música. As paredes da cabine pareciam desaparecer, e eu não estava mais na USP, em 1994, com medo do mundo. Eu estava em um lugar onde o corpo não importava, onde apenas a vibração das cordas definia quem eu era. Quando terminei, minhas mãos estavam tremendo. — Meu Deus — ele sussurrou do outro lado. Ouvi o som dele batendo levemente na parede, um aplauso solitário e rítmico. — Você é incrível. Por que você está escondida aqui? Você deveria estar em um palco, Melodia. O mundo precisa ouvir isso. — O mundo é cruel — respondi, fechando os olhos. — No palco, eles não ouvem a música. Eles olham para a pessoa. E eu… eu não sou o que eles querem ver. — Você está errada — ele disse, e sua voz agora estava encostada na parede, bem perto de onde eu estava. — Se eles te vissem do jeito que eu te ouço, eles não conseguiriam olhar para mais nada. Eu queria acreditar nele. Mais do que qualquer coisa, eu queria que aquelas palavras fossem verdadeiras. — Você toca algum instrumento? — perguntei, tentando mudar de assunto antes que eu começasse a chorar. — Minha mãe tentou me ensinar piano quando eu era pequeno. Ela era musicista. Ela dizia que eu tinha mãos de artista, mas meu pai disse que eu tinha corpo de atleta. Meu pai venceu. Ela morreu há três anos, e eu não toquei em uma tecla desde então. Mas ouvi você… faz as mãos formigarem. — Você devia tentar — eu disse, a coragem crescendo dentro de mim. — A Cabine 5 tem um piano vertical. Está meio desafinado, mas as notas ainda estão lá. — Não sei se consigo. — Toca uma nota. Qualquer uma. Eu respondo daqui. Houve um silêncio hesitante. Então, ouvi o som abafado de uma única tecla sendo pressionada na sala ao lado. Um Sol médio, tímido e curto. Eu respondi imediatamente com um acorde de Sol maior, suave, como um abraço. Ele tocou outra nota, um Ré. Eu respondi com uma pequena frase melódica que envolvia o Ré. E assim, começamos uma conversa sem palavras. Ele tocava notas isoladas, incertas, e eu as transformava em harmonia. Era como se estivéssemos tecendo uma rede de segurança um para o outro. No escuro daquelas cabines, entre o cheiro de madeira velha e o som da chuva lá fora, eu senti uma conexão que nunca tinha sentido com nenhum ser humano. Era algo visceral, espiritual, assustador. Ficamos nisso por quase uma hora. Quando o relógio do corredor bateu onze horas, sabíamos que o vigia passaria logo para fechar o prédio definitivamente. — Eu preciso ir — ele disse, a voz cheia de relutância. — Eu também. — Melodia? — Sim? — Obrigado por hoje. De verdade. — Obrigada por ouvir. Ouvi-o pegar suas coisas. Mas ele não saiu imediatamente. — Amanhã tem um treino aberto na piscina — ele disse. — Às quatro da tarde. Quase ninguém vai, só o pessoal do departamento. Eu queria que você estivesse lá. Meu coração deu um salto. — Eu não sei se é uma boa ideia. — Você não precisa falar comigo. Não precisa nem chegar perto. Só… fica lá em cima, na galeria. Eu vou saber que você está lá. E talvez, se eu souber que você está assistindo, a água não pareça tão pesada. Ele saiu da cabine antes que eu pudesse responder. Fiquei sentada no escuro por um longo tempo, segurando o ar nos pulmões. No dia seguinte, passei a tarde lutando contra mim mesma. Eu sabia que devia ir para a biblioteca, ou voltar para casa e estudar para a prova de contraponto. Ir à piscina era me expor. Era entrar no território dele, o lugar onde a beleza física e a performance eram tudo. Mas às 15:55, eu me vi caminhando em direção ao prédio da Educação Física. Entrei discretamente e subi para a galeria superior, que ficava mergulhada na penumbra. Havia apenas meia dúzia de pessoas espalhadas pelas arquibancadas de cimento. Sentei-me na última fileira, escondida atrás de uma pilastra, com o meu cardigã cinza bem apertado ao redor do corpo. Lá embaixo, o time estava se aquecendo. Theo era fácil de encontrar. Ele estava de pé na borda da piscina, usando apenas a sunga de natação e a touca. Vê-lo assim, sem as roupas largas que ele costumava usar no campus, foi um choque. Ele era uma escultura de músculos e força, mas também parecia incrivelmente vulnerável sob as luzes fortes do ginásio. O treinador apitou. Eles se posicionaram nos blocos de partida. Eu vi Theo olhar para cima. Ele varreu a galeria com os olhos. Ele não podia me ver, eu tinha certeza disso; eu estava nas sombras, era apenas um vulto entre tantos outros. Mas ele parou o olhar exatamente na direção da minha pilastra. Um pequeno aceno de cabeça, quase imperceptível, e ele se inclinou para a largada. Bang. Eles mergulharam. Theo não estava apenas nadando. Ele estava voando. A água parecia se abrir para ele, respeitando a força de suas braçadas. Eu o assisti com o coração na boca, esquecendo de respirar. Ele era magnífico. Mas, na metade da terceira volta, algo aconteceu. Ele pareceu hesitar por um milésimo de segundo. Sua braçada perdeu o ritmo. O outro nadador na raia ao lado começou a alcançá-lo. Eu vi o pai dele — reconheci o homem imediatamente pelo que Theo tinha descrito, um homem de terno cinza e rosto de pedra — parado perto da borda, gritando algo e apontando para o relógio de forma agressiva. Theo parecia estar afundando. Literalmente. Sua cabeça estava mais baixa na água do que o normal. Sem pensar, eu me levantei. Minhas mãos agarraram o parapeito de metal da galeria. Eu queria gritar, queria dizer para ele que a música ainda estava lá, que ele não precisava carregar o peso do pai. Mas eu não podia falar. Então, fiz a única coisa que podia. Comecei a batucar no parapeito de metal. Tum-ta-ta, tum-ta-ta. O ritmo da música que tínhamos "composto" juntos na noite anterior através da parede. No ginásio barulhento, o som era quase inaudível para qualquer outra pessoa, mas o metal conduzia a vibração. Lá embaixo, Theo pareceu levar um choque elétrico. Ele deu uma braçada poderosa, a cabeça saindo da água por um segundo extra. Ele recuperou o ritmo. Na verdade, ele ultrapassou o ritmo. Ele terminou a prova dois segundos à frente de todos os outros. O ginásio explodiu em aplausos curtos dos poucos presentes. O pai dele apenas cruzou os braços e olhou para o cronômetro, sem sorrir. Theo saiu da água, ofegante. Ele ignorou o treinador e o pai. Ele olhou direto para a galeria. Seus olhos encontraram os meus. Não havia mais pilastra, não havia mais sombras. Eu estava lá, visível, ofegante como se tivesse nadado com ele. Ele sorriu. Foi um sorriso curto, exausto, mas real. Nesse momento, Beatriz apareceu. Ela correu até ele com uma toalha branca, jogando-se nos seus braços e beijando-o no rosto na frente de todos. O encanto se quebrou como vidro. Recuei imediatamente para as sombras, sentindo aquela dor aguda e familiar no peito. O que eu estava pensando? Eu era a "Melodia", a voz na parede. Beatriz era a realidade. Ela era a garota que podia abraçá-lo sob as luzes, a garota que não precisava de cardigãs para se esconder. Saí do ginásio quase correndo, as lágrimas queimando meus olhos. Eu precisava ir embora. Precisava esquecer a Cabine 5, o cronômetro de papel e o sorriso dele. Enquanto eu atravessava o pátio em direção ao ponto de ônibus, ouvi passos rápidos atrás de mim. — Ei! Espera! Eu não parei. Não podia ser ele. Ele estava molhado, estava com a Bia, estava com o pai. — Por favor, para! — A voz era de uma mulher. Parei e me virei. Era Beatriz. Ela estava ofegante, o cabelo loiro levemente desalinhado, e um olhar que eu nunca tinha visto nela antes. Não era deboche. Era algo muito mais perigoso. — Você é a Clara, não é? Da aula de Harmonia? — ela perguntou, aproximando-se. — Sim — respondi, tentando manter a voz firme. Ela me mediu de cima a baixo, aquele olhar de scanner que avaliava cada defeito. — O Theo me pediu para te entregar isso — ela disse, estendendo a mão. — Mas eu achei melhor ler antes. Sabe como é, eu cuido dos interesses dele. Ela segurava um envelope pequeno e úmido. Mas antes que eu pudesse pegá-lo, ela o rasgou ao meio, bem na minha frente. — Fica longe dele, Clara — ela sibilou, a voz doce e mortal. — Você não faz ideia do tipo de mundo em que a gente vive. Você é só uma distração esquisita. Se você aparecer naquelas cabines de novo, eu vou garantir que o Professor Horácio saiba exatamente quem anda "usando" as salas para encontros clandestinos. E eu acho que você não quer perder sua bolsa de estudos, quer? Ela jogou os pedaços do papel no chão molhado e se afastou, saltitando como se tivesse acabado de me dar um presente. Fiquei ali parada, olhando para os restos da mensagem de Theo se dissolvendo na chuva. O mundo não era apenas barulhento. O mundo era cruel. E eu tinha acabado de aprender que, para pessoas como eu, o silêncio não era apenas uma escolha. Era a única forma de sobrevivência. Mas, ao me abaixar para recolher os pedaços de papel, vi uma única palavra que a água ainda não tinha apagado. "Hoje." E eu soube, com um pavor delicioso, que o confronto estava apenas começando.






