Mundo de ficçãoIniciar sessãoEla jurou nunca mais voltar ao passado. Mas o passado voltou usando terno, poder… e o nome do homem que destruiu sua vida. Mirtes e Heitor se conhecem desde a infância. Cresceram juntos, unidos por um amor intenso, cheio de promessas. Quando a ambição de Heitor cruza o caminho do crime organizado, o destino dos dois é brutalmente rompido. Ele é arrancado da própria vida, forçado a desaparecer contra a própria vontade, sem explicações ou despedidas. Ela perde tudo: o amor, a família, o filho e a própria identidade. Anos depois, Mirtes renasce. Reconstrói-se, forma-se em Direito e se torna delegada da Polícia Federal especializada no combate ao crime organizado. Fria, estratégica e determinada, ela passa a liderar uma força-tarefa dedicada a desmantelar grandes organizações criminosas. O choque vem como uma sentença: o chefe da máfia que ela persegue… é Heitor Almeida Castro. Vivendo agora no Sul do país e comandando um império silencioso, Heitor não busca apenas poder. Cada passo no submundo foi imposto pela sobrevivência. Sua verdadeira motivação é vingança: destruir Paulo de Arruda Teixeira, o responsável por afastá-lo de tudo o que amava. Para obter provas definitivas, Mirtes aceita a missão mais arriscada de sua carreira: infiltrar-se na vida dele usando uma identidade falsa. Como Valentina Cruz, ela entra na mansão de Heitor como babá de seus filhos. O que ela não esperava descobrir que o seu filho, hoje um adolescente. Foi criado por Heitor. Ele não a reconhece. Ela o reconhece em cada detalhe. Entre mentiras, segredos, perigo constante e uma paixão que insiste em sobreviver, Mirtes precisará escolher: cumprir sua missão e destruir o homem que ama… ou arriscar tudo para recuperar o amor, o filho e a vida que lhes foi roubada. Quando o coração entra em guerra com o dever, ninguém sai ileso.
Ler maisMirtes acordou gritando.
O nome saiu rasgando a garganta antes mesmo de ela abrir os olhos.
— Heitor!
O corpo veio junto, num sobressalto violento, como se estivesse fugindo de algo que ainda estava ali. O lençol grudava na pele suada, o peito subia e descia rápido demais, os dedos tremiam.
Por alguns segundos, ela não sabia onde estava. Pensamentos confusos, corpo exausto.
Era assim que se sentia. Como se ainda estivesse naquele momento.
A dor surda nas costelas. O gosto de sangue na boca. O peso de mãos desconhecidas segurando seus braços, espancando-a uma vez atrás da outra. Eles riam enquanto a machucavam, debochavam dela como se fosse apenas um saco de pancadas, algo descartável.
— Cala a boca, desgraça. Sua vagabunda — dizia um deles.
— Vai partir dessa pra uma melhor — riu o outro, após desferir outro soco em seu rosto.
No sonho, ela tentava se virar, proteger o rosto, mas era inútil. O chute vinha mesmo assim. Depois outro. E outro.
Então o choro.
Agudo. Frágil. Desesperado.
— Eduardo! — ela gritava, tentando se arrastar pelo chão imundo. — Meu filho!
Ela via. Via claramente. Seu bebê nos braços de alguém que não reconhecia. Pequeno demais. Vermelho de tanto chorar, chorando até ficar sem ar.
— Não… não… por favor…
A mão estendia, mas não alcançava.
Nunca alcançava.
A porta se fechava.
E tudo ficava escuro.
Mirtes piscou rápido, puxando o ar com força, como se tivesse acabado de voltar à superfície depois de se afogar. O quarto estava silencioso demais. Era um lugar confortável. Viu que ainda não havia amanhecido
A luz fraca do abajur revelava as paredes claras do apartamento onde morava agora, no Sul do país. Nenhuma mancha de sangue. Nenhum cheiro de mofo. Nenhum choro.
Só havia ela.
Ali, sozinha. De novo.
O apartamento de Mirtes era como ela: discreto e funcional. Situado em um prédio antigo e comum, o interior pequeno era regido por uma organização rígida. Na sala integrada, o sofá firme e a ausência de fotos revelavam uma vida que evitava sentimentalismos expostos.
Na estante, livros técnicos camuflavam sua missão, enquanto uma planta sobrevivia sob cuidados mecânicos. A cozinha, impessoal e limpa, guardava apenas o essencial, exceto por uma caneca lascada mantida por hábito.
O quarto era o único ponto de fissura no controle: um porta-retrato virado para baixo e uma gaveta oculta com tecidos macios preservavam a mulher que ela evitava ser publicamente. No banheiro, o espelho grande forçava o confronto com o passado, refletindo cicatrizes que a rotina tentava esconder.
Era naquele apartamento que Mirtes dormia pouco. Que acordava com pesadelos antigos. Que ensaiava expressões no espelho antes de vestir novas identidades. Que se permitia sentir medo, raiva, saudade — desde que ninguém visse.
Não havia fotos de família.
Não havia rastros de infância.
Não havia sinais de alguém esperando por ela.
E ainda assim, era o último espaço que verdadeiramente lhe pertencia. Onde podia ser ela mesma, sem esconder suas fraquezas, seus medos, suas dores.
Ela passou a mão pelo rosto, sentindo a angústia familiar que sempre vinha depois daqueles pesadelos. Eles nunca mudavam. Sempre a mesma violência. Sempre as mesmas perdas.
Mirtes se levantou, foi até o banheiro e jogou água fria no rosto. Os olhos castanhos encaravam o reflexo com dureza. Não havia mais a menina do sertão. Nem a adolescente assustada. Nem a mulher quebrada que quase morreu naquela noite.
Agora havia controle.
Ou pelo menos era o que ela repetia todos os dias.
— Já passou — murmurou para si mesma, mesmo sem acreditar.
Os pesadelos vinham há anos. Desde a noite em que tudo foi tirado dela. Desde que perdeu o irmão. Desde que perdeu o filho. Desde que Heitor foi embora — ou melhor, desde que entendeu que nunca o teve de verdade.
Ela respirou fundo, voltou para o quarto e começou a se arrumar. Movimento automático. Escolheu roupas discretas. Cabelo preso, num rabo de cavalo. Maquiagem mínima, apenas para não sair de rosto limpo. Aparência neutra.
Armas visíveis chamam atenção. Pessoas neutras passam despercebidas.
Essa sempre foi a regra.
No espelho, prendeu o distintivo no coldre interno da jaqueta. O símbolo da Polícia Federal reluziu por um instante.
Ela sorriu de canto.
Demorou. Doeu muito para chegar ali. Mas chegou.
Depois de anos no sertão, fugindo dos próprios fantasmas, trabalhando, estudando, treinando até o limite do corpo, Mirtes finalmente estava ali. Agente federal. Especializada. Selecionada a dedo para um dos núcleos mais sensíveis da corporação.
Crime organizado.
Era ali, naquele espaço silencioso, que ela se preparava todos os dias para sair e fingir que estava inteira
O elevador desceu em silêncio. O ar da manhã estava frio, cortante. Ela gostava disso. O frio ajudava a manter a mente afiada.
No prédio da PF, o clima era tenso como sempre. Telas ligadas, vozes baixas, passos rápidos. Nada ali era por acaso.
— Bom dia, agente Valença — cumprimentou um colega.
— Bom dia.
Ela seguiu até a sala de briefing. O coordenador já estava lá, expressão fechada, pastas espalhadas sobre a mesa.
— Senta, Mirtes. Temos novidades.
Ela obedeceu, sentindo o estômago se contrair. Talvez não fosse intuição. Talvez fosse memória.
— Estamos monitorando esse grupo há meses — começou ele, projetando imagens na tela. — Tráfico de armas, lavagem de dinheiro, empresas de fachada espalhadas por pelo menos quatro países da América Latina.
Mirtes analisava tudo com atenção clínica. Nomes, códigos, rotas usadas para o contrabando. Contas limpas demais.
— O problema é que eles são organizados demais — continuou. — Nenhum rastro direto. Nenhuma ligação óbvia.
— Até agora — ela disse.
O coordenador assentiu.
— Até agora.
Algo nela já estava em alerta antes mesmo da imagem surgir.
Ele trocou o slide e o mundo de Mirtes parou.
O nome apareceu primeiro, em letras frias e oficiais.
HEITOR CASTRO.
Por um segundo, o som da sala desapareceu. O ar ficou pesado. O coração bateu errado.
A imagem veio logo depois.
Ele estava mais velho. Muito mais forte. O olhar ainda era o mesmo. Seguro. Dominante. Agora, perigosamente calculado.
O homem que prometeu o mundo e sumiu quando ela mais precisou.
O homem que a deixou grávida aos dezessete anos.
O melhor amigo do irmão dela.
Agora, o líder da organização criminosa mais sofisticada que a Polícia Federal já enfrentou nos últimos anos.
— Identificado como o principal articulador do esquema — disse o coordenador, sem notar a rigidez dela. — Empresário respeitado. Sem antecedentes. Intocável até agora.
O passado subiu como bile.
A casa simples no sertão. O corpo do irmão no chão. O silêncio de Heitor quando tudo desmoronou. A solidão que precisou enfrentar. O medo que sentiu. A violência que sofreu.
Mirtes fechou a mão no colo, cravando as unhas na própria pele.
— Agente Valença?
Ela piscou, voltando ao presente.
— Sim.
— Precisamos desenvolver um esquema de infiltração. Você é a especialista nisso. Analise os arquivos e elabore um plano. Veja quem pode entrar na toca do lobo.
As palavras caíram como uma sentença.
— Precisamos de alguém com preparo emocional, técnico e psicológico. Alguém que saiba observar, esperar, se misturar. — Ele fez uma pausa. — E você foi treinada exatamente para isso. Veja quem da nossa equipe tem o perfil.
Mirtes sustentou o olhar.
Por dentro, tudo gritava.
Por fora, ela assentiu.
— Entendido, senhor.
Ela não disse que conhecia aquele homem melhor do que qualquer um naquela sala. Não disse que ele era o centro de seus pesadelos. Não disse que parte dela ainda sangrava por causa dele.
Porque isso não importava.
Agora, não.
Mirtes voltou a encarar a imagem projetada na tela.
Heitor Castro.
O nome não era apenas um dado investigativo. Era uma ferida antiga, mal cicatrizada. O homem que a abandonou enquanto ela enterrava o irmão e tentava sobreviver grávida, sozinha.
Por anos, ela acreditou que superar era esquecer.
Não era. Nunca foi.
Era aprender a conviver com a raiva sem deixar que ela te destruísse.
Agora, o destino — ou algo muito parecido com ironia — colocava Heitor exatamente onde ela podia alcançá-lo.
Legalmente.
— A infiltração vai exigir paciência — continuava o coordenador. — Nada de ações impulsivas. Quem entrar vai precisar ganhar confiança. Esse homem não cai fácil.
Mirtes assentiu, mas por dentro já estava decidida. Daria um jeito de ser a escolhida.
Ela não queria que ele caísse fácil.
Queria que ele caísse consciente.
Cada conta bloqueada. Cada empresa desmontada. Cada aliado virando as costas. Queria que ele sentisse o chão desaparecer, do mesmo jeito que aconteceu com ela anos atrás.
— Alguma objeção?
Mirtes ergueu o olhar. O rosto sereno demais para quem tinha o passado inteiro em combustão por dentro.
— Nenhuma, senhor.
E era verdade.
A missão não era um fardo.
Era uma oportunidade.
Ela se levantou ao final do briefing com o corpo firme, a mente fria e uma decisão silenciosa cravada no peito: ia destruir aquela organização até o último alicerce.
Mas não só por justiça.
Havia algo pessoal demais ali para fingir neutralidade.
Ao sair da sala, Mirtes parou diante do vidro do corredor. O reflexo devolveu uma mulher diferente daquela garota de dezessete anos. Mais dura. Mais calculista. Mais perigosa.
— Você não me deve nada — murmurou para o próprio reflexo. — Eu é que vou cobrar.
Heitor Castro tinha levado tudo dela.
Agora, sem saber, estava prestes a abrir a porta da própria ruína.
E Mirtes seria a chave.
Mirtes Valença O som do mar batendo nos rochedos era a única música que preenchia o silêncio daquela manhã. Estávamos em uma pequena vila costeira, em uma casa de pedra que parecia ter sido esquecida pelo tempo. Aqui, o nome "Arruda" não significava nada. Pela primeira vez em quinze anos, eu não precisava olhar por cima do ombro a cada passo. Heitor estava parado no penhasco, observando o horizonte. Ele segurava uma pequena caixa de madeira. Ali dentro não havia cinzas, mas lembranças. Ele passou a manhã escrevendo nomes em pedras que colheu na praia: Luís Eduardo, o amigo que deu a vida por ele; Antônio Pires, seu pai de criação, que o ensinou a ser homem; e sua mãe, Dona Marlene, cuja morte foi o estopim de toda essa maldição. Aproximei-me e toquei seu ombro. Ele não se mexeu, mas senti seu corpo relaxar. — Acabou, Heitor — sussurrei. — Eles finalmente podem descansar. Ele soltou as pedras no oceano, uma a uma. Cada estalo na água parecia quebrar um elo das correntes que o pren
Heitor Castro O Porto de Santos estava mergulhado em uma névoa salgada e no cheiro de óleo diesel. O Armazém Dez, uma estrutura de ferro enferrujada, rangia sob o vento forte que vinha do mar. Eu estava parado no centro do pavilhão, a luz amarela de um refletor solitário desenhando minha sombra no chão de concreto. Isadora estava ao meu lado, com as mãos presas por uma corda falsa, os olhos fixos na escuridão à frente. — Ele está aí — Isadora sussurrou, a voz quase sumindo no barulho das ondas. — Eu sinto o cheiro do medo dele. Do outro lado do armazém, os faróis de um SUV preto acenderam. Santiago Galarza desceu, segurando Beatriz pelo braço. Ela parecia um espectro; o cabelo desgrenhado, o olhar perdido entre a loucura e o ódio. Santiago sorria, aquele sorriso de quem acha que ainda tem as rédeas do mundo. — Heitor! — Santiago gritou. — Você trouxe a minha pequena traidora. Que momento emocionante. — Entrega a Beatriz e a Isadora vai até você — respondi, sentindo o peso do
Delegado Nilo (Polícia Federal) O centro de comando da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo parecia uma colmeia sendo atacada. O barulho de teclados, rádios e ordens gritadas se misturava ao som das sirenes que cortavam a capital. Mas no meu terminal, o silêncio era absoluto. Meus olhos estavam fixos na barra de progresso que indicava o recebimento de uma carga massiva de dados criptografados. "Arquivos Diamante", era o nome da pasta. Assim que o download terminou e a primeira camada de criptografia caiu, senti o peso do mundo nos meus ombros. Não eram apenas planilhas; eram vídeos, gravações de áudio e contratos assinados com sangue. Ali, na minha frente, o Senador Bittencourt deixava de ser uma autoridade da República para se tornar o sócio majoritário da Áquila. — Senhor? — A voz da Agente Carla me tirou do transe. Ela estava pálida, segurando um tablet. — O Senador Bittencourt acaba de ser detido na residência oficial. Mas temos um problema. Jorge e a equipe de
Heitor Castro O saguão da sede da Global parecia um campo de extermínio. O mármore branco estava manchado de sangue e estilhaços de vidro. Enquanto os homens da Aquila sob o comando do Marcos, meu homem de confiança, trocavam tiros com os últimos mercenários de Santiago Galarza nos andares inferiores, eu estava no centro de operações, com Mirtes ao meu lado e Eduardo cobrindo a porta. Sabíamos que a Polícia Federal estava de organizando para atacar e combater o clima organizado que está aterrorizando a cidade de Santos, se estendendo até capital, Estávamos enviando ao escritório da Polícia Federam tudo o que tínhamos de provas contra políticos e empresário, principalmente o Senador Bittencourt. — Nilo, as pastas digitais estão sendo enviadas agora — Mirtes falou pelo rádio, sua voz firme enquanto monitorava o progresso na tela. — São os arquivos "Diamante" do Paulo Arruda, que, junto com toda a documentação que já havia enviado antes. Vai paralisar Senador Bittencourt. Ele não tem
Heitor Castro O motor do SUV rugia enquanto eu cortava o canteiro central da avenida, fugindo dos destroços fumegantes da mansão. Alice e Pedro estavam seguros com Isadora, e aquele era o único pensamento que me impedia de desmoronar. Mas o alívio era um luxo que eu não podia me dar. Olhei pelo retrovisor e vi Eduardo no banco de trás, o rosto sujo de pólvora, os olhos fixos na estrada. Ao meu lado, Mirtes — minha Mirtes — digitava furiosamente no laptop tático, as luzes da tela refletindo em seu olhar gélido de agente. — O Nilo está na escuta — Mirtes disse, sem tirar os olhos da tela. — Ele está com uma equipe de prontidão a duas quadras da sede da Global. Se a gente entregar o Bittencourt, a PF entra com tudo para dar cobertura contra os Los Sombras. — O Nilo é o seu delegado, Mirtes. Eu sou o Executor da Áquila — respondi, desviando de um carro de passeio que freou bruscamente. — Para ele, eu sou o próximo da lista depois que conseguirmos derrubar a Beatriz e o Santiago. — E
Mirtes: O Plano de Retomada O asfalto parecia queimar sob as rodas do SUV blindado enquanto atravessávamos as ruas desertas da cidade de Santos em direção à mansão dos Arruda. Dentro do carro, o silêncio era interrompido apenas pelo chiado do rádio e pelo som metálico de Heitor conferindo seu armamento. O ar estava pesado, após a conversa que tivemos com o Eduardo. Fiquei apreensiva com sua reação a quando soube que eu sou sua mãe. Não era assim eu queria que ele ficasse sabendo, mas as circunstâncias me obrigaram a revelar naquele momento. Heitor estava com os olhos fixos na estrada, mas sua mente estava claramente mapeando cada centímetro da mansão. Naquele momento, ele não era o homem que um dia me amou; ele era o "Executor" em sua forma mais pura. Frio, calculista e letal. Ao lado dele, eu não era mais a "Valentina", a babá silenciosa que servia bandejas. Eu era a Agente Mirtes Valença, e minha missão era proteger o que restava da minha família. — Com a morte do Paulo Arruda
Último capítulo