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Capítulo Três — O Homem Que Ficou Depois do Caos

Heitor Castro

Saí da academia com a sensação incômoda de que algo tinha ficado para trás.

Não era o treino. Nem o peso do treino ainda pulsando nos músculos. O corpo estava acostumado a obedecer, a suportar carga, impacto, dor controlada. Sempre esteve. O problema era outro. Algo mais silencioso. Mais antigo. Algo que não sangrava, mas corroía.

A mulher da academia.

O rosto dela insistia em voltar enquanto eu dirigia pelas ruas iluminadas da cidade. O choque inesperado. O corpo dela contra o meu. O som seco do impacto. O gemido contido de dor — não fraco, mas orgulhoso, como se se recusasse a ceder.

E depois… o olhar.

Firme demais para alguém ferida. Orgulhoso demais para alguém em desvantagem.

Aquilo me incomodou mais do que deveria.

Merda.

Estacionei o carro na área de garagem, entrei na mansão e fui direto tomar um banho. As crianças já estavam dormindo. A casa, silenciosa demais. Beatriz ainda se organizando para viajar, como sempre. Nunca faltavam eventos, campanhas, jantares beneficentes. A vida perfeita que ela exibia para fora não chegava até ali.

Passei pelo corredor sem acender as luzes e fui direto para o a suíte. Depois do banho, decidi ir para o escritório.

Trabalho nunca falhava em colocar ordem no caos. Era ali que tudo obedecia às regras claras. Onde decisões tinham consequência imediata. Onde eu sabia exatamente quem eu era.

Heitor Castro. Um homem respeitado nomeio em que vivia e temido no submundo que poucos conheciam

Me sentei à mesa, abri os relatórios no tablet e forcei a mente a voltar para onde realmente importava: analisar números, avaliar contratos, traçar rotas, ganhar dinheiro. A Latina Engenharia Global não se construiu sozinha. Nem se manteve limpa aos olhos do mundo por acaso.

À luz da sociedade, um empresário de sucesso. CEO da Latina Engenharia Global, um conglomerado de empresas ligadas à construção civil pesada, infraestrutura, contratos públicos e privados que se estendiam por toda a América Latina e avançavam para outros continentes.

Um exemplo de ascensão.

Nos bastidores, outra história.

Um homem que aprendeu cedo demais que dinheiro compra silêncio, que medo mantém lealdade e que erros, nesse jogo, custam caro. Às vezes, custam vidas.

Abri os relatórios no tablet, mas a concentração não veio.

A imagem da mulher ajoelhada no chão da academia voltou sem pedir permissão. O jeito como meu toque a fez estremecer — e não foi só pela dor. Eu senti. O corpo sempre reconhece antes que mente faça isso.

Droga.

Fechei os olhos por um segundo, um erro raro. E o passado, como sempre, aproveitou a brecha.

O sertão.

O calor seco. A poeira grudando na pele. A casa simples onde eu cresci depois que meus pais morreram naquele maldito acidente. Não tive escolha. Fui criado por parentes, mas minha vida de verdade era com Eduardo e Mirtes Valença.

Éramos três. Sempre os três.

Crescemos juntos. Dividíamos tudo. O pouco que tínhamos e os sonhos grandes demais para aquele lugar esquecido por Deus. Eduardo era meu irmão por escolha. Mirtes… Mirtes era mais que isso.

Ela era o meu céu.

A garota mais forte que eu já conheci. Inteligente, teimosa, linda de um jeito que não precisava se esforçar. O tipo de mulher que olha nos teus olhos e te faz acreditar que o mundo pode ser diferente.

Nós acreditávamos que um dia tudo seria diferente. De fato, foi. Não do jeito que pensamos.

Falávamos de futuro como se ele estivesse garantido. Como se bastasse querer.

Que ironia do caralho.

Tudo começou a desandar quando eu cruzei o caminho de Paulo Arruda Teixeira.

Na época, eu tinha dezenove anos. Ambição demais e dinheiro de menos. Paulo viu isso em mim. Viu potencial. E viu algo mais perigoso: fome.

Ele era um empresário respeitado. Dono de um conglomerado que crescia rápido demais para ser limpo. Eu sabia disso. Todo mundo sabia. Mas ninguém falava.

Quando ele me convidou para trabalhar com ele, senti que aquela era a saída que eu sempre procurei.

A chance de sair da miséria.

De dar algo melhor para quem eu amava.

Fui falar com Mirtes sobre a chance que poderia mudar nossas vidas.

Nunca vou esquecer o rosto dela naquele dia. A forma como respirou fundo antes de falar. O jeito como segurou minha mão.

“Eu estou grávida, Heitor!”

As palavras me atingiram como um soco e uma promessa ao mesmo tempo.

Eu fiquei feliz. Muito mais do que esperava. Mas a felicidade veio acompanhada do medo. Porque eu sabia o que Paulo era. Sabia onde estava me metendo. E não queria aquilo para ela. Para nós.

Prometi que ia pensar. Prometi que ia resolver.

Não consegui cumprir nenhuma das duas coisas.

Abri os olhos de volta ao presente com um gosto amargo na boca.

A mulher da academia tinha trazido tudo isso de volta. O jeito firme. O ar orgulho. Aquela sensação estranha de familiaridade que eu não consegui explicar.

Balancei a cabeça, irritado comigo mesmo.

Passado não paga conta.

O tablet vibrou com uma notificação. Relatórios interrompidos por uma batida na porta.

— Entra — falei, antes mesmo de a porta abrir.

Pedro, meu homem de confiança, apareceu. Expressão tensa demais para aquela hora.

— Temos um problema no porto, senhor.

Endireitei na cadeira.

— Que tipo de problema?

— O carregamento não chegou inteiro. Parte da carga foi interceptada. Não foi a polícia.

Fechei a mão devagar.

— Então foram eles. Eles tiverem coragem de me desfiar.

Pedro assentiu.

— Estão avançando território e testando limites. Dessa vez foram mais ousados.

Filhos da puta.

Levantei da cadeira, caminhando até a janela. A cidade brilhava lá embaixo, ignorante do que realmente a sustentava.

— Quanto perdemos?

— Muito — ele respondeu. — E a carga era importante. Os compradores já tomaram conhecimentos dos fatos e querem se reunir com você o mais breve possível.

Respirei fundo, controlando o impulso de quebrar alguma coisa.

— Avise os responsáveis pela rota. Quero nomes. Quero saber quem falhou.

— Já estamos levantando tudo.

— Ótimo. — Virei devagar. — Porque quem cruzou essa linha vai aprender que comigo ninguém brinca.

Pedro engoliu seco e assentiu.

— Mais alguma coisa?

— Não, senhor.

Quando ele saiu, fiquei sozinho outra vez.

Problemas externos eu sabia resolver.

O que me incomodava era outra coisa.

A imagem da mulher ajoelhada no chão da academia voltou com força. O jeito como me encarou quando recusou o dinheiro. Aquilo não era comum. A maioria das pessoas aceita suborno ou a oportunidade de dinheiro fácil. A maioria se dobra.

Mas pelo jeito, ela não.

E isso me deixou intrigado pra caralho.

Passei a mão pelo rosto, irritado.

Talvez fosse só coincidência. Era apenas uma mulher parecida. Um gesto que ativou memórias que eu preferia manter enterradas.

Mas alguma coisa dentro de mim dizia que não era só isso.

Peguei o celular e olhei novamente para a lista de contatos sobre a babá que o Abel me mandou. Nenhum perfil me convencia. Não confiava em estranhos perto dos meus filhos. Nunca confiei.

Depois de tudo que perdi, proteger o que restou virou regra.

Joguei o celular sobre a mesa e voltei aos relatórios. Precisava trabalhar para esquecer as merdas que permeavam minha mente.

Trabalho primeiro. Essa era minha meta.

Sempre.

Mas, mesmo assim, aquela sensação persistia.

Como se o passado tivesse encontrado uma fresta.

E eu sabia, no fundo, que quando o passado resolve bater à porta… não é para pedir licença.

É para cobrar.

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