Mundo ficciónIniciar sesión
Mirtes acordou gritando.
O nome saiu rasgando a garganta antes mesmo de ela abrir os olhos.
— Heitor!
O corpo veio junto, num sobressalto violento, como se estivesse fugindo de algo que ainda estava ali. O lençol grudava na pele suada, o peito subia e descia rápido demais, os dedos tremiam.
Por alguns segundos, ela não sabia onde estava. Pensamentos confusos, corpo exausto.
Era assim que se sentia. Como se ainda estivesse naquele momento.
A dor surda nas costelas. O gosto de sangue na boca. O peso de mãos desconhecidas segurando seus braços, espancando-a uma vez atrás da outra. Eles riam enquanto a machucavam, debochavam dela como se fosse apenas um saco de pancadas, algo descartável.
— Cala a boca, desgraça. Sua vagabunda — dizia um deles.
— Vai partir dessa pra uma melhor — riu o outro, após desferir outro soco em seu rosto.
No sonho, ela tentava se virar, proteger o rosto, mas era inútil. O chute vinha mesmo assim. Depois outro. E outro.
Então o choro.
Agudo. Frágil. Desesperado.
— Eduardo! — ela gritava, tentando se arrastar pelo chão imundo. — Meu filho!
Ela via. Via claramente. Seu bebê nos braços de alguém que não reconhecia. Pequeno demais. Vermelho de tanto chorar, chorando até ficar sem ar.
— Não… não… por favor…
A mão estendia, mas não alcançava.
Nunca alcançava.
A porta se fechava.
E tudo ficava escuro.
Mirtes piscou rápido, puxando o ar com força, como se tivesse acabado de voltar à superfície depois de se afogar. O quarto estava silencioso demais. Era um lugar confortável. Viu que ainda não havia amanhecido
A luz fraca do abajur revelava as paredes claras do apartamento onde morava agora, no Sul do país. Nenhuma mancha de sangue. Nenhum cheiro de mofo. Nenhum choro.
Só havia ela.
Ali, sozinha. De novo.
O apartamento de Mirtes era como ela: discreto e funcional. Situado em um prédio antigo e comum, o interior pequeno era regido por uma organização rígida. Na sala integrada, o sofá firme e a ausência de fotos revelavam uma vida que evitava sentimentalismos expostos.
Na estante, livros técnicos camuflavam sua missão, enquanto uma planta sobrevivia sob cuidados mecânicos. A cozinha, impessoal e limpa, guardava apenas o essencial, exceto por uma caneca lascada mantida por hábito.
O quarto era o único ponto de fissura no controle: um porta-retrato virado para baixo e uma gaveta oculta com tecidos macios preservavam a mulher que ela evitava ser publicamente. No banheiro, o espelho grande forçava o confronto com o passado, refletindo cicatrizes que a rotina tentava esconder.
Era naquele apartamento que Mirtes dormia pouco. Que acordava com pesadelos antigos. Que ensaiava expressões no espelho antes de vestir novas identidades. Que se permitia sentir medo, raiva, saudade — desde que ninguém visse.
Não havia fotos de família.
Não havia rastros de infância.
Não havia sinais de alguém esperando por ela.
E ainda assim, era o último espaço que verdadeiramente lhe pertencia. Onde podia ser ela mesma, sem esconder suas fraquezas, seus medos, suas dores.
Ela passou a mão pelo rosto, sentindo a angústia familiar que sempre vinha depois daqueles pesadelos. Eles nunca mudavam. Sempre a mesma violência. Sempre as mesmas perdas.
Mirtes se levantou, foi até o banheiro e jogou água fria no rosto. Os olhos castanhos encaravam o reflexo com dureza. Não havia mais a menina do sertão. Nem a adolescente assustada. Nem a mulher quebrada que quase morreu naquela noite.
Agora havia controle.
Ou pelo menos era o que ela repetia todos os dias.
— Já passou — murmurou para si mesma, mesmo sem acreditar.
Os pesadelos vinham há anos. Desde a noite em que tudo foi tirado dela. Desde que perdeu o irmão. Desde que perdeu o filho. Desde que Heitor foi embora — ou melhor, desde que entendeu que nunca o teve de verdade.
Ela respirou fundo, voltou para o quarto e começou a se arrumar. Movimento automático. Escolheu roupas discretas. Cabelo preso, num rabo de cavalo. Maquiagem mínima, apenas para não sair de rosto limpo. Aparência neutra.
Armas visíveis chamam atenção. Pessoas neutras passam despercebidas.
Essa sempre foi a regra.
No espelho, prendeu o distintivo no coldre interno da jaqueta. O símbolo da Polícia Federal reluziu por um instante.
Ela sorriu de canto.
Demorou. Doeu muito para chegar ali. Mas chegou.
Depois de anos no sertão, fugindo dos próprios fantasmas, trabalhando, estudando, treinando até o limite do corpo, Mirtes finalmente estava ali. Agente federal. Especializada. Selecionada a dedo para um dos núcleos mais sensíveis da corporação.
Crime organizado.
Era ali, naquele espaço silencioso, que ela se preparava todos os dias para sair e fingir que estava inteira
O elevador desceu em silêncio. O ar da manhã estava frio, cortante. Ela gostava disso. O frio ajudava a manter a mente afiada.
No prédio da PF, o clima era tenso como sempre. Telas ligadas, vozes baixas, passos rápidos. Nada ali era por acaso.
— Bom dia, agente Valença — cumprimentou um colega.
— Bom dia.
Ela seguiu até a sala de briefing. O coordenador já estava lá, expressão fechada, pastas espalhadas sobre a mesa.
— Senta, Mirtes. Temos novidades.
Ela obedeceu, sentindo o estômago se contrair. Talvez não fosse intuição. Talvez fosse memória.
— Estamos monitorando esse grupo há meses — começou ele, projetando imagens na tela. — Tráfico de armas, lavagem de dinheiro, empresas de fachada espalhadas por pelo menos quatro países da América Latina.
Mirtes analisava tudo com atenção clínica. Nomes, códigos, rotas usadas para o contrabando. Contas limpas demais.
— O problema é que eles são organizados demais — continuou. — Nenhum rastro direto. Nenhuma ligação óbvia.
— Até agora — ela disse.
O coordenador assentiu.
— Até agora.
Algo nela já estava em alerta antes mesmo da imagem surgir.
Ele trocou o slide e o mundo de Mirtes parou.
O nome apareceu primeiro, em letras frias e oficiais.
HEITOR CASTRO.
Por um segundo, o som da sala desapareceu. O ar ficou pesado. O coração bateu errado.
A imagem veio logo depois.
Ele estava mais velho. Muito mais forte. O olhar ainda era o mesmo. Seguro. Dominante. Agora, perigosamente calculado.
O homem que prometeu o mundo e sumiu quando ela mais precisou.
O homem que a deixou grávida aos dezessete anos.
O melhor amigo do irmão dela.
Agora, o líder da organização criminosa mais sofisticada que a Polícia Federal já enfrentou nos últimos anos.
— Identificado como o principal articulador do esquema — disse o coordenador, sem notar a rigidez dela. — Empresário respeitado. Sem antecedentes. Intocável até agora.
O passado subiu como bile.
A casa simples no sertão. O corpo do irmão no chão. O silêncio de Heitor quando tudo desmoronou. A solidão que precisou enfrentar. O medo que sentiu. A violência que sofreu.
Mirtes fechou a mão no colo, cravando as unhas na própria pele.
— Agente Valença?
Ela piscou, voltando ao presente.
— Sim.
— Precisamos desenvolver um esquema de infiltração. Você é a especialista nisso. Analise os arquivos e elabore um plano. Veja quem pode entrar na toca do lobo.
As palavras caíram como uma sentença.
— Precisamos de alguém com preparo emocional, técnico e psicológico. Alguém que saiba observar, esperar, se misturar. — Ele fez uma pausa. — E você foi treinada exatamente para isso. Veja quem da nossa equipe tem o perfil.
Mirtes sustentou o olhar.
Por dentro, tudo gritava.
Por fora, ela assentiu.
— Entendido, senhor.
Ela não disse que conhecia aquele homem melhor do que qualquer um naquela sala. Não disse que ele era o centro de seus pesadelos. Não disse que parte dela ainda sangrava por causa dele.
Porque isso não importava.
Agora, não.
Mirtes voltou a encarar a imagem projetada na tela.
Heitor Castro.
O nome não era apenas um dado investigativo. Era uma ferida antiga, mal cicatrizada. O homem que a abandonou enquanto ela enterrava o irmão e tentava sobreviver grávida, sozinha.
Por anos, ela acreditou que superar era esquecer.
Não era. Nunca foi.
Era aprender a conviver com a raiva sem deixar que ela te destruísse.
Agora, o destino — ou algo muito parecido com ironia — colocava Heitor exatamente onde ela podia alcançá-lo.
Legalmente.
— A infiltração vai exigir paciência — continuava o coordenador. — Nada de ações impulsivas. Quem entrar vai precisar ganhar confiança. Esse homem não cai fácil.
Mirtes assentiu, mas por dentro já estava decidida. Daria um jeito de ser a escolhida.
Ela não queria que ele caísse fácil.
Queria que ele caísse consciente.
Cada conta bloqueada. Cada empresa desmontada. Cada aliado virando as costas. Queria que ele sentisse o chão desaparecer, do mesmo jeito que aconteceu com ela anos atrás.
— Alguma objeção?
Mirtes ergueu o olhar. O rosto sereno demais para quem tinha o passado inteiro em combustão por dentro.
— Nenhuma, senhor.
E era verdade.
A missão não era um fardo.
Era uma oportunidade.
Ela se levantou ao final do briefing com o corpo firme, a mente fria e uma decisão silenciosa cravada no peito: ia destruir aquela organização até o último alicerce.
Mas não só por justiça.
Havia algo pessoal demais ali para fingir neutralidade.
Ao sair da sala, Mirtes parou diante do vidro do corredor. O reflexo devolveu uma mulher diferente daquela garota de dezessete anos. Mais dura. Mais calculista. Mais perigosa.
— Você não me deve nada — murmurou para o próprio reflexo. — Eu é que vou cobrar.
Heitor Castro tinha levado tudo dela.
Agora, sem saber, estava prestes a abrir a porta da própria ruína.
E Mirtes seria a chave.







