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Capítulo Dois — O Primeiro Passo

Minha rotina era cheia demais para permitir distrações. Tentava manter a mente ocupada com coisas úteis.

Passava por treinos longos, analisava relatórios, simulações, reuniões que nunca acabavam. O corpo cansava, mas a mente não podia. Se eu parasse, tudo voltava. O passado tinha esse vício de aproveitar o silêncio para povoar a mente com lembranças indesejáveis.

Por isso, a academia não era só um hábito. Para mim, era terapia.

Ali, eu não precisava falar. Não precisava lembrar. Só precisava sentir o peso certo, a dor controlada, o suor queimando músculos que ainda obedeciam a mim.

Naquela noite, fui em um horário diferente.

Uma mudança simples. Quase banal.

Se eu acreditasse em coincidências, diria que foi só isso.

O ambiente estava mais vazio do que o normal. Pouca música, poucos olhares curiosos. Perfeito pra mim. Coloquei os fones, respirei fundo e comecei o treino. O corpo respondeu rápido, como sempre. Era ali que eu me sentia inteira. Mais forte e dona de mim.

Eu estava carregando alguns pesos de volta ao suporte quando aconteceu.

O choque veio seco e violento.

Um impacto lateral forte o suficiente para me fazer perder o equilíbrio. Os halteres escaparam das minhas mãos e caíram direto sobre o meu pé.

A dor que explodiu foi aguda e ardida, cruel na forma como o corpo reconheceu algo que já tinha sentido antes — violência sem aviso.

— Porra… — gemi, tentando me apoiar em qualquer coisa antes de cair de vez.

Tentei me levantar, mas a dor me fez gemer. Foi então que vi uma sombra se aproximar. Mãos firmes me tocaram, sustentando meu corpo com cuidado. 

— Calma — a voz masculina soou baixa, controlada, bem próxima. — Eu te seguro.

Levantei os olhos ainda ajoelhada — e o mundo parou. O coração acelerado pela dor e pelo susto.

Era Heitor Castro. Ali, bem na minha frente.

Por um instante, tudo ao meu redor desapareceu. O barulho da academia, as vozes, a dor. Só havia aquele rosto, tão familiar e tão distante. Os mesmos olhos verdes, agora mais intensos, marcados pelo tempo. O mesmo porte imponente, mas com algo diferente: um peso invisível nos ombros, como se carregasse batalhas que ninguém vê. 

— Você está bem? — perguntou, a voz grave, carregada de preocupação. 

O destino estava jogando a meu favor ou me testando? Antes mesmo de eu colocar meu plano de infiltração em prática, o alvo literalmente caiu sobre mim. 

Meu coração disparou. Respirei fundo, tentando controlar a avalanche de emoções. Ele não me reconheceu. Claro que não. Depois da cirurgia, meu rosto tinha mudado. Mas eu o reconheci no mesmo instante — e isso foi suficiente para me desestabilizar.

— O pé… — respondi, com a voz mais controlada do que me sentia. — Um dos pesos caiu em cima.

Ele se abaixou um pouco mais, avaliando rápido, atento demais. Os dedos tocaram meu tornozelo com cuidado, quase íntimos. Meu coração bateu errado.

— Consegue apoiar? — perguntou.

Assenti, mesmo sabendo que não tinha escolha. 

Ele passou o braço pelas minhas costas, apoiando meu corpo contra o dele. O toque reacendeu algo que eu pensei ter enterrado. Meu coração gritava, mas minha mente lembrava: ele é meu alvo. Ele é o chefe da máfia que destruiu minha vida. Ainda assim, bastou a proximidade para meu corpo reagir como antes — a pele arrepiou, o calor subiu pelo pescoço, e cada músculo parecia lembrar o que era estar perto dele. 

O perfume discreto, a firmeza das mãos, a respiração próxima... tudo me atingiu como uma onda, trazendo de volta a química que sempre existiu entre nós, aquela força invisível que me puxava para ele, mesmo quando eu queria fugir. 

Chamou um funcionário com um gesto curto.

— Gelo, por favor.

Enquanto esperávamos, o silêncio entre nós ficou denso. Ele me observava com atenção demais, como se algo ali o deixasse desconfortável. Não era reconhecimento. Era outra coisa. Uma tensão contida que eu senti na forma como ele respirava, como evitava me tocar de novo.

Meu corpo, traidor, sentia tudo.

Quando o gelo chegou, ele mesmo posicionou sobre meu pé, rápido demais, como se precisasse criar distância.

— Isso ajuda a conter o inchaço.

— Obrigada.

Nossos olhares se cruzaram por um segundo longo demais.

Havia algo ali. Um choque silencioso. Uma força antiga que não tinha desaparecido, apenas aprendido a se esconder.

O celular dele vibrou.

Heitor se afastou um passo, como se aquilo fosse um resgate. Atendeu.

— Fala.

O tom mudou. Frio. Autoritário e controlado.

— Não, hoje não dá. Eu já disse. — Passou a mão pelos cabelos, impaciente. — Eu preciso resolver isso logo. Não posso deixar as crianças com qualquer pessoa.

Meu corpo ficou alerta na mesma hora.

— Babá, governanta… o que você puder conseguir. Desde que seja alguém de confiança — continuou. — A Beatriz vai viajar de novo. Eu não tenho tempo pra esse tipo de problema.

Babá.

Crianças.

A palavra ecoou na minha cabeça como uma chave girando.

Ele encerrou a ligação, respirou fundo e voltou a me encarar. O olhar estava mais fechado agora. Blindado.

Enfiou a mão no bolso e tirou algumas notas dobradas, estendendo para mim.

— Vai a um hospital — disse, seco. — Isso cobre uma consulta.

A humilhação veio quente.

Afastei a mão dele sem tocar no dinheiro.

— Não precisa se preocupar.

— Eu insisto.

— Guarda isso — respondi, firme. — Não sou um problema pra você resolver com dinheiro.

Os olhos verdes escureceram por um instante. Algo passou ali. Irritação? Culpa? Controle perdido?

Ele assentiu uma única vez.

— Como quiser.

Virou de costas e se afastou.

Fiquei sentada mais alguns segundos, respirando fundo, sentindo o gelo derreter sobre a pele e algo muito mais perigoso se formar dentro de mim.

Aquilo não tinha sido só um encontro.

Era uma porta.

E tinha acabado de se abrir.

Saí da academia mancando levemente, mas com a mente afiada demais para sentir qualquer outra coisa. Entrei no carro, joguei a bolsa no banco do passageiro e liguei antes mesmo de colocar o cinto.

— Carla, sou eu.

— Mirtes? Aconteceu alguma coisa?

— Acabei de encontrar com o Heitor Castro.

Silêncio do outro lado da linha.

— Como assim? Onde?

— Na academia que vim malhar hoje. — Respirei fundo. — E ele estava ao telefone falando sobre precisar de uma babá para os filhos. Acho que encontrei a brecha que precisamos para nos infiltrarmos.

Fiz uma pausa.

— Quero me candidatar a essa vaga de babá.

A resposta dela veio rápida demais.

— Você tem certeza?

— Absoluta.

Contei tudo. Como nos esbarramos por acidente. A ajuda que me ofereceu. A ligação que recebeu e citou o assunto “babá”. Cada detalhe que poderia parecer irrelevante, mas que, juntos, desenhavam uma oportunidade perfeita demais para ignorar.

— No dossiê consta que ele tem três filhos — Carla disse, já digitando alguma coisa. — Um adolescente, um menino pequeno e uma menina.

— Eu sei.  

Eu sabia mais do que deveria. 

Enquanto eu precisei juntar cada caco quebrado para reconstruir aminha vida. Ele formava uma família. Tem esposa e filhos, levando uma vida aparentemente feliz, e isso só intensifica o meu ódio e desejo de vingança.

— A esposa viaja muito, não é?

— Sim. Beatriz Castro. Filantropa. Sempre em eventos, projetos sociais, campanhas a favor dos necessitados. — Ela fez uma pausa. — Isso pode funcionar.

— Vai funcionar.

Nos encontramos virtualmente poucas horas depois. A equipe inteira conectada, rostos atentos, cautelosos. Não precisei convencer ninguém por muito tempo. Os dados se encaixavam. O momento era perfeito. O risco, calculado.

— Vamos inserir seus dados nas plataformas de recrutamento — explicou Carla. — Currículo impecável, referências sólidas, tudo dentro do perfil que ele procura.

— Tem que ser um perfil de confiança — completei.

— Exatamente. E você se chamará Valentina Cruz.

Eu observei os rostos na tela enquanto falavam de prazos, ajustes, documentos falsos. Tudo muito técnico. Muito frio.

Mas dentro de mim, algo queimava.

Porque aquela infiltração não era só estratégica.

Era íntima.

Entrar na casa de Heitor Castro não significava apenas desmontar uma organização criminosa por dentro. Significava entrar no território dele. No espaço que ele protegia. Na vida que construiu depois de me deixar para trás.

Significava olhar nos olhos do homem que me destruiu e fingir que eu não o conhecia.

Ou talvez não fingir tanto assim.

Quando a reunião terminou, desliguei o computador e fiquei alguns minutos em silêncio, encarando a parede vazia do apartamento.

Babá.

A palavra ecoava na minha cabeça com um peso estranho.

Valentina Cruz vai cuidar dos filhos dele.

Estar onde a esposa não estava.

Ser presença onde havia ausência.

O destino tinha um senso de humor cruel.

Ou talvez estivesse, finalmente, me oferecendo a chance de reescrever a história.

Eu toquei o pé machucado, agora inchado, e sorri de canto.

A dor passaria. Aquela oportunidade, não.

Heitor Castro achava que precisava de alguém para cuidar dos filhos.

Mal sabia ele que estava prestes a deixar entrar em sua casa a mulher que carregava a chave da ruína dele.

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