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Capítulo Quatro — Dentro de Casa

Heitor Castro

Administrar a Latina Engenharia Global exigia frieza, estratégia e pulso firme. Negociações milionárias, acordos internacionais, pressão constante. Tudo isso eu sabia fazer sem hesitar.

Mas, curiosamente, nada me drenava mais do que atravessar a porta da minha própria casa.

Era ali que eu perdia o controle.

Cheguei tarde naquela noite. O tipo de noite que começa cedo demais e termina quando o corpo já não responde com a mesma precisão. Reuniões, ligações cifradas, decisões que custavam caro. O motorista estacionou em frente à mansão, desci sem olhar para trás e atravessei o jardim silencioso, iluminado por luzes frias demais para um lugar que deveria ser um lar.

A casa estava grande demais. Sempre esteve.

Luxuosa. Impecável. Mas era fria.

Nenhum riso infantil ecoando. Nenhum sinal de vida além do necessário.

— Boa noite, senhor — disse a governanta, surgindo no hall com a postura rígida de quem vive pisando em ovos.

— As crianças? — perguntei, afrouxando os punhos.

— Dormindo. Pedro teve dificuldade hoje. Chorou mais que o normal. Alice perguntou pela senhora antes de pegar no sono.

Fechei os olhos por um segundo.

Sempre a mesma resposta.

— Obrigado, Lea. Pode ir descansar também. 

Subi as escadas devagar, consciente de cada passo. Não queria acordá-los. Abri primeiro a porta do quarto de Pedro. O menino dormia encolhido, o travesseiro apertado contra o peito, como se precisasse segurar algo para não se perder. A respiração irregular denunciava um sono inquieto.

Alice estava no quarto ao lado. Cercada de bonecas caras demais para substituir o que realmente faltava. Mesmo dormindo, o rosto pequeno parecia tenso, a testa franzida, como se nem o sono fosse um lugar seguro.

Crianças não sabem fingir estabilidade.

Elas sentem.

E estavam sentindo demais.

Fechei as portas com cuidado e segui pelo corredor com o maxilar travado. Aquilo não era vida. Não para eles.

Beatriz estava no nosso quarto, sentada diante da penteadeira, cercada por malas abertas, roupas cuidadosamente dobradas, sapatos organizados por cor. Vestia um robe de seda caro, maquiagem impecável mesmo àquela hora. Nenhuma pressa. Nenhuma culpa ali.

— Vai viajar de novo? — perguntei, sem rodeios. Mesmo já sabendo dessa maldita viagem.

Ela me olhou pelo espelho, avaliando meu reflexo como se eu fosse apenas mais um incômodo na agenda lotada.

— Tenho um evento em Paris. Captação de recursos para crianças carentes.

Sorri sem humor.

— Claro que tem.

— Não começa, Heitor — respondeu, cruzando os braços. — Alguém precisa manter essa imagem. A nossa imagem.

— Nossa? — caminhei até a cama, afrouxando a gravata com movimentos lentos. — Você nem sabe a rotina dos seus filhos.

Ela se virou de vez, os olhos faiscando.

— Não fala como se fosse só minha obrigação. Você também é pai.

— Eu trabalho. Sustento essa casa. Sustento tudo isso — apontei ao redor, sentindo a irritação subir. — E ainda assim chego e faço questão de saber se eles jantaram, se dormiram bem, se estão seguros. Você não substituiu a última babá que demitiu, Beatriz.

— Porque nenhuma presta — rebateu, seca. — Todas tentam se meter onde não são chamadas.

— Cuidar das crianças agora é se meter?

Ela se levantou de supetão.

— Você gosta de colocar estranhas dentro da nossa casa. Eu não. AS crianças acabam gostando mais delas do que de mim.

Dou um sorrido seco.

Engoli a resposta mais dura que queria dar. O que eu realmente pensava não cabia numa conversa civilizada.

— Então assuma o papel de mãe — falei, firme. — Porque demitir babás por ciúme ou paranoia está afetando os nossos filhos.

— Não ouse me dizer como ser mãe.

— Alguém precisa dizer — retruquei. — Porque você prefere qualquer outra coisa a estar aqui com relas.

O silêncio caiu pesado, denso como concreto.

Ela me encarou como se eu fosse o inimigo.

— Eu não vou mudar quem eu sou — disse, fria. — Se isso te incomoda, é um problema seu.

Virei de costas.

Aquela conversa já tinha terminado antes mesmo de começar.

Beatriz nasceu cercada de privilégios. Nunca precisou disputar nada. Cresceu acreditando que o mundo existia para servi-la. Para fora, era a filantropa perfeita. Sempre sorrindo para câmeras, abraçando crianças pobres, discursando sobre empatia e solidariedade.

Dentro de casa, era ausente. Ciumenta. Rancorosa. E fútil.

Especialmente com Eduardo.

Meu filho mais velho.

Não era filho dela. E ela nunca aceitou isso. Tive que negociar com ela e o pai, Paulo Arruda, para aceitá-lo. Ou eu sumiria com ele. Após tantas desgraças, não abriria mão dos meu filho. Na época eu já havia demonstrado minha competência no grupo. E Paulo não quis perder sua melhor promessa de grandes negócios. 

Eles já tinham tirado tudo de mim. Não iria abandonar meu filho. Nunca mais. Paulo sabia do quanto a família era importante e cedeu. Mas com condições. E eu tive que aceitar. Um dia ele vai pagar.

O afastamento foi necessário. Eduardo estudava em um internato e só vinha para casa a cada quinze dias. Não por falta de amor meu — mas para preservar a sanidade dele. E a minha. Aquela casa não era segura emocionalmente para um adolescente que já carregava ausências demais.

Desci para o escritório ainda com o gosto amargo da discussão preso na garganta.

Precisava resolver aquilo.

As constantes trocas de babás estavam destruindo a rotina das crianças. Pedro estava mais agressivo, explosivo por qualquer coisa. Alice não dormia sozinha. A governanta fazia o possível, mas não era função dela suprir tudo.

Sentei à mesa e liguei para Abel.

Meu cunhado.

O único Arruda com quem eu mantinha uma relação decente. Sempre discreto. Inteligente e confiável. Não se envolvia nos jogos sujos da família — e, justamente por isso, eu confiava nele.

— Heitor, meu irmão — atendeu. — Tudo bem?

— Não — respondi, direto. — Preciso de ajuda.

Expliquei a situação sem rodeios, como fazia com tudo na minha vida. Não havia espaço para rodeios quando se tratava dos meus filhos.

— As crianças estão sofrendo — concluí. — Preciso de alguém confiável. Que seja discreta. e saiba o seu lugar.

— Beatriz sabe disso? — perguntou, com cautela.

— Beatriz não se importa. Conhece sua irmã.

Abel suspirou.

— Vou cuidar disso. Vou pessoalmente selecionar alguém. Sem agência comum.

— Preciso rápido.

— Eu sei. Vou resolver isso.

Desliguei e encostei na cadeira.

Mais uma frente aberta.

Como se não bastasse a guerra no porto, os inimigos avançando território, acordos sendo testados, agora eu precisava lidar com a instabilidade dentro da minha própria casa.

O celular vibrou.

Mensagens da equipe. Atualizações sobre o carregamento perdido. Alguns nomes foram revelados. Traições se confirmando. Algumas pessoas de dentro do meu grupo havia cruzado linhas que não deveriam.

Aquilo eu resolvia. Sempre resolvia.

Mas proteger meus filhos… isso exigia algo diferente.

Levantei e caminhei até a estante. Uma foto antiga chamou minha atenção. Eduardo pequeno, segurando minha mão, sorrindo para a câmera. Sentia falta dele ali, mas eu precisava protegê-lo do ódio da Beatriz e da indiferença do Paulo. Eles sabem o que significa sua presença em minha vida. Ele é meu único elo com meu passado. E a única ameaça de me ferirem. E eles não querem me ver ferido novamente. As perdas serão incalculáveis.

Passei a mão pelo rosto, exausto.

— Merda… — murmurei.

Aquela mulher da academia voltou à minha mente sem convite. A dignidade ferida.  O olhar firme demais para alguém comum.

“Um jeito tão Mirtes de ser”

Balancei a cabeça, afastando o pensamento.

Eu não precisava de distrações. Precisava de soluções.

Voltei ao escritório e enviei instruções claras à equipe: nenhuma babá entraria naquela casa sem passar por um filtro rigoroso. Antecedentes, referências, estabilidade emocional. Nada de erros.

Meus filhos não eram parte de nenhum jogo.

Quando subi novamente, a casa estava silenciosa. Beatriz já havia dormido, ou fingido dormir. Deitei sem tocá-la.

O teto parecia distante demais.

Eu tinha a estranha sensação de que algo estava prestes a mudar. Que aquela busca por uma babá não era apenas logística.

Era o começo de algo maior.

E, pela primeira vez em muito tempo, não sabia exatamente se estava preparado para o que viria.

Fechei os olhos.

No fundo, uma certeza incômoda se formava: quando finalmente encontrasse a pessoa certa para cuidar dos meus filhos, nada dentro daquela casa permaneceria igual.

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