Mundo de ficçãoIniciar sessãoDurante anos, acreditei que o problema era eu. Que meu corpo era frio, que meu desejo era falho, que meu casamento era apenas… normal. Até descobrir que meu marido dividia a cama com outra mulher — e que a culpa nunca foi minha. Entre humilhações, provocações e um casamento em ruínas, encontrei conforto onde jamais deveria: nos braços do homem que conhecia meus silêncios melhor do que meu próprio marido. Seu irmão. Quando o desejo deixou de ser apenas um erro e se tornou uma escolha, já era tarde para voltar atrás. Um filho. Um segredo. Uma verdade impossível de esconder. Esta não é uma história sobre traição. É sobre despertar, coragem… e o momento exato em que uma mulher decide não se apagar mais. Querido marido, o pai do meu filho é seu irmão.
Ler maisEu aprendi cedo a não pedir demais.
Não pedir atenção, não pedir explicações, não pedir toques que demorassem mais do que o necessário. Aprendi que o amor, quando vinha, vinha em forma de hábito. Em horários definidos. Em gestos repetidos. Em silêncios longos demais para serem confortáveis. O nosso quarto sempre foi organizado demais. A cama arrumada logo cedo, os travesseiros alinhados, o cheiro neutro do amaciante que eu escolhia por ser o menos invasivo. Às vezes eu pensava que até os cheiros ali dentro tinham aprendido a não ocupar espaço. Como eu. Casei acreditando que o desejo era algo que se construía com o tempo. Que a vontade vinha depois, como uma recompensa pela paciência. Ele foi o único homem da minha vida. Meu primeiro beijo sem pressa, meu primeiro corpo compartilhado, meu primeiro “é assim mesmo”. Nunca houve comparação. Nunca houve curiosidade. Eu achava que isso era maturidade. Naquela noite, ele chegou cansado. Sempre chegava. Tirou os sapatos perto da porta, largou as chaves no mesmo lugar de sempre, passou por mim com um beijo rápido na testa. Um beijo que não perguntava nada. Que não esperava resposta. — Amanhã tenho reunião cedo — disse, já tirando a camisa. Assenti com a cabeça, mesmo sem ter feito pergunta alguma. O sexo entre nós sempre foi assim: anunciado, previsível, quase educado. Eu sabia quando ia acontecer antes mesmo de ele se aproximar. Sabia pelo jeito que ele evitava meus olhos durante o jantar, pela distância calculada no sofá, pelo banho mais demorado. Deitei-me ao lado dele com o corpo obediente e a mente longe. Eu sentia tudo, mas nada permanecia. Era como tocar água com as mãos: molhava, mas escorria rápido demais para deixar marca. Depois, ele virou de lado e dormiu. O sono dele sempre foi imediato, profundo, seguro. Eu fiquei acordada, olhando para o teto, contando as pequenas rachaduras que se formavam perto da lâmpada. Pensei em como era estranho dividir uma cama e ainda assim sentir tanto espaço vazio. Levantei-me devagar para não acordá-lo. Fui até o banheiro, liguei a luz fraca, encarei meu reflexo no espelho. Toquei meu próprio braço, como se precisasse confirmar que ainda estava ali. Não havia tristeza explícita no meu rosto. Só uma espécie de ausência. Uma pergunta sem palavras. Foi nesse silêncio que pensei, pela primeira vez, que talvez o problema não fosse o meu corpo. Talvez ele apenas nunca tivesse sido ouvido. No dia seguinte, o café da manhã foi rápido. Conversamos sobre contas, sobre o tempo, sobre coisas que não exigiam envolvimento. Ele saiu apressado, deixou um “te amo” automático no ar. Eu respondi no mesmo tom. Não era mentira. Mas também não era inteiro. Passei a manhã organizando a casa, dobrando roupas, limpando superfícies que já estavam limpas. Eu sempre fazia isso quando minha cabeça precisava se ocupar para não pensar demais. Mas naquele dia, algo insistia em ficar. À tarde, recebemos uma visita inesperada. O irmão dele apareceu sem avisar. Cunhado. Uma presença que sempre foi discreta demais para chamar atenção, e talvez por isso mesmo nunca tivesse sido realmente notada por mim. Ele entrou com um sorriso fácil, um abraço respeitoso demais para ser íntimo, distante demais para ser frio. — Vim deixar isso aqui — disse, estendendo uma pasta de documentos. — Ele esqueceu ontem na casa da mãe. Peguei a pasta, nossos dedos se tocaram por um segundo a mais do que o necessário. Foi quase nada. Um detalhe insignificante. Mas meu corpo reagiu antes que minha mente pudesse justificar. Um calor rápido, inesperado, que subiu pelo braço e se espalhou como um aviso. Afastei a mão depressa. Sorri, sem saber por quê. — Quer um café? — perguntei, mais por educação do que por vontade. Ele aceitou. Sentou-se à mesa da cozinha, observando o ambiente como quem reconhece algo familiar. Conversamos pouco. Sobre assuntos leves. Sobre o calor. Sobre coisas que não importavam. Mas havia algo diferente no jeito como ele me olhava. Não era desejo explícito. Era atenção. Como se ele realmente estivesse ali. Quando ele foi embora, a casa pareceu mais silenciosa do que antes. E eu não soube explicar por quê. Naquela noite, deitei-me novamente ao lado do meu marido, mas meu corpo estava inquieto. Não era vontade direcionada. Era uma sensação difusa, uma energia sem destino. Ele dormiu rápido, como sempre. Eu permaneci acordada, sentindo o lençol contra a pele, o peso do próprio corpo, a respiração contida. Fechei os olhos e, pela primeira vez, não pensei nele. Pensei na sensação do toque rápido, no olhar atento, na ideia absurda de ser vista de verdade. Abri os olhos assustada com meus próprios pensamentos. Virei de lado, tentando afastá-los. Mas eles ficaram. Nos dias seguintes, comecei a perceber meu corpo de outra forma. Não mudou nada externamente. A rotina era a mesma. Mas por dentro, algo tinha sido acordado. Um desconforto estranho, como uma roupa que já não servia direito. Foi nesse estado que aceitei a indicação de uma amiga para aulas de Pilates. Eu precisava me movimentar, disse a mim mesma. Cuidar da saúde. Encontrar um espaço só meu. Não imaginava que aquele seria o primeiro lugar onde meu corpo começaria a falar mais alto do que a culpa. A professora era diferente de todas que eu já tinha conhecido. Voz firme, olhar tranquilo, presença que preenchia o espaço sem esforço. Ela falava sobre respiração, alinhamento, consciência corporal. Palavras simples, mas que pareciam direcionadas a algo muito mais profundo. — Ouça seu corpo — ela disse, corrigindo suavemente minha postura. — Ele sempre avisa quando algo não está certo. Senti um arrepio percorrer a espinha. Não pelo toque. Pelo significado. Na volta para casa, pensei em tudo o que eu vinha ignorando. Em quantas vezes meu corpo tinha tentado dizer algo e eu o silenciei em nome da estabilidade, do compromisso, do medo de parecer ingrata. Naquela noite, ao deitar ao lado do meu marido, percebi com clareza algo que antes eu só intuía: eu não estava mais apenas insatisfeita. Eu estava acordada. E uma vez que o desejo desperta, ele não volta a dormir com facilidade. Fechei os olhos, respirando fundo, sentindo o coração bater mais rápido do que deveria. Eu ainda não tinha feito nada. Não tinha dito nada. Mas sabia, com uma certeza incômoda, que aquele era apenas o começo. Porque o desejo não surge de repente. Ele começa em silêncio.O controle dele deixou de ser sutil na mesma velocidade em que minha obediência deixou de existir. Era como se estivéssemos em lados opostos de uma corda esticada demais, ambos conscientes de que qualquer movimento em falso faria tudo ruir.Naquela manhã, acordei com a sensação incômoda de estar sendo observada. Abri os olhos devagar e encontrei meu marido sentado na beira da cama, já vestido, o celular nas mãos. Não mexia nele. Apenas o segurava, como um objeto de poder.— Você saiu ontem sem avisar — disse, sem me encarar.— Eu avisei — respondi, apoiando-me nos cotovelos. — Tinha aula.— Aula não dura o dia inteiro.O tom não era de pergunta. Era de acusação.Levantei-me com calma, mesmo sentindo o coração acelerar. Aprendi, nos últimos dias, que qualquer demonstração de nervosismo era usada contra mim. Passei por ele sem tocá-lo, fui até o banheiro e fechei a porta com mais força do que pretendia.Enquanto escovava os dentes, encarei meu reflexo. Havia algo novo no meu olhar. Não
Ela voltou a aparecer quando eu menos esperava — e, dessa vez, não pediu licença.Eu estava no mercado, empurrando o carrinho entre corredores estreitos, tentando me concentrar em coisas simples como frutas maduras e marcas de café, quando senti o olhar antes mesmo de ouvir a voz. Há pessoas que entram no ambiente como um ruído; ela entrava como um aviso.— Engraçado te encontrar aqui.Virei devagar. O batom vermelho era o mesmo. O sorriso também. Havia algo de deliberado na forma como se posicionava, bloqueando parcialmente minha passagem, como se quisesse garantir que eu não escapasse.— Não sabia que você fazia compras — continuou, sem esperar resposta. — Ele sempre disse que você não gostava dessas coisas.Respirei fundo. Não devia satisfação alguma. Ainda assim, meu corpo reagiu com um misto de raiva e lucidez. Pela primeira vez, eu não estava fragilizada o suficiente para aceitar aquela encenação.— O que você quer? — perguntei.Ela fingiu surpresa.— Só conversar. — disse, incl
Ele mudou depois que foi descoberto. Não de imediato, não de forma explosiva. A mudança veio sorrateira, vestida de preocupação, de cuidado excessivo, de um interesse que nunca teve antes. Era como se, ao perceber que poderia me perder, meu marido tivesse decidido me vigiar.— Onde você vai?— Com quem?— Que horas volta?As perguntas surgiam disfarçadas de zelo, mas carregavam um tom novo, áspero. Eu respondia com frases curtas, sem confrontar. Ainda estava aprendendo a reconhecer aquele homem que sempre esteve ali, mas que só agora mostrava a face completa.Ele passou a chegar mais cedo. A me observar mais. A tocar meu corpo com uma urgência estranha, como quem tenta reafirmar posse. Quando me abraçava por trás, na cozinha, não era carinho. Era marcação de território. Eu sentia. Meu corpo sentia.— Você anda distante — disse numa dessas noites, enquanto jantávamos em silêncio. — Parece que não está mais aqui comigo.Engoli a resposta que queria dar. Nunca estive, pensei. Apenas asse
Eu sempre imaginei que, se um dia descobrisse uma traição, seria um momento explosivo. Gritos, pratos quebrados, acusações atravessando a sala como facas. Mas a verdade é que a descoberta chegou de forma quase silenciosa, como uma rachadura fina em um vidro que parecia intacto.Era uma terça-feira comum. Daquelas que não carregam promessa alguma. O café esfriava na xícara enquanto ele terminava de se arrumar, distraído, reclamando do trânsito e do calor. Eu observava seus gestos automáticos, o nó da gravata feito sem atenção, o perfume borrifado sempre no mesmo ponto do pescoço. Havia algo de mecânico demais em tudo aquilo — como se ele estivesse ensaiando a própria vida.O celular vibrou sobre a mesa.Não era raro. Ele sempre foi ligado ao trabalho, dizia. Mas, dessa vez, a tela acendeu antes que ele pudesse virar o aparelho. Um nome feminino. Um coração vermelho ao lado.Meu corpo reagiu antes da mente. Um frio seco atravessou meu estômago, subindo pelo peito até se alojar na gargan
Passei o dia inteiro com a sensação de que algo estava prestes a acontecer, mesmo sem saber exatamente o quê. Era como esperar uma tempestade que ainda não se formou no céu, mas já se anuncia no ar pesado, na eletricidade invisível que faz o corpo ficar atento demais.Ele saiu cedo novamente. Eu observei da porta do quarto enquanto se vestia, os movimentos práticos, quase militares, a forma como ajustava o relógio no pulso. Havia tanta previsibilidade em tudo aquilo que, por um instante, senti vontade de chorar. Não por tristeza explícita, mas por exaustão.— Hoje chego tarde — disse, enquanto calçava os sapatos.— Tudo bem — respondi.E estava mesmo. Pela primeira vez, a ausência dele não soava como ameaça. Soava como espaço.Fechei a porta atrás de mim e fiquei alguns minutos parada no corredor, respirando fundo. O silêncio da casa parecia me observar, como se esperasse que eu finalmente dissesse algo em voz alta. Mas eu não disse. Ainda não.Preparei o café, sentei-me à mesa, deixe
Passei a noite inteira acordada, mesmo quando o sono parecia me visitar por alguns minutos. Era um descanso falso, desses que não recuperam nada. Cada vez que eu fechava os olhos, sentia o corpo inquieto, como se algo em mim estivesse em movimento enquanto eu insistia em ficar parada.Ele dormia ao meu lado, tranquilo, respirando fundo, ocupando o espaço de quem não percebe que já não divide a mesma frequência. Observei suas costas viradas para mim, a linha do ombro, o braço relaxado sobre o colchão. Havia carinho ali, sim. Mas o carinho tinha se tornado distante demais para ser abrigo.Levantei antes do despertador, como vinha fazendo nos últimos dias. O silêncio da casa parecia diferente naquela hora — menos opressor, mais atento. Preparei café sem pressa, sentindo o cheiro se espalhar pela cozinha. Pensei em quantas vezes eu havia feito exatamente aquilo, no mesmo horário, do mesmo jeito, e ainda assim agora tudo parecia novo demais para ser ignorado.Sentei-me à mesa com a xícara





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