Mundo de ficçãoIniciar sessãoPassei o dia inteiro com a sensação de que algo estava prestes a acontecer, mesmo sem saber exatamente o quê. Era como esperar uma tempestade que ainda não se formou no céu, mas já se anuncia no ar pesado, na eletricidade invisível que faz o corpo ficar atento demais.
Ele saiu cedo novamente. Eu observei da porta do quarto enquanto se vestia, os movimentos práticos, quase militares, a forma como ajustava o relógio no pulso. Havia tanta previsibilidade em tudo aquilo que, por um instante, senti vontade de chorar. Não por tristeza explícita, mas por exaustão. — Hoje chego tarde — disse, enquanto calçava os sapatos. — Tudo bem — respondi. E estava mesmo. Pela primeira vez, a ausência dele não soava como ameaça. Soava como espaço. Fechei a porta atrás de mim e fiquei alguns minutos parada no corredor, respirando fundo. O silêncio da casa parecia me observar, como se esperasse que eu finalmente dissesse algo em voz alta. Mas eu não disse. Ainda não. Preparei o café, sentei-me à mesa, deixei os pensamentos fluírem sem censura. Pensei na conversa da aula anterior, nas palavras da professora que continuavam ecoando dentro de mim. O corpo sempre encontra um jeito de avisar. Pensei em quantas vezes eu tinha ignorado esses avisos, convencida de que maturidade era sinônimo de contenção. Peguei o telefone quase sem perceber. Abri a conversa com meu cunhado, reli as mensagens simples, práticas, neutras demais para justificar o efeito que tinham sobre mim. Fechei a tela rapidamente, como se estivesse cometendo algum tipo de transgressão apenas por pensar. Decidi sair. Precisava caminhar, ocupar o corpo de alguma forma que não fosse apenas carregar pensamentos. O dia estava quente, o céu limpo demais para combinar com o que se passava dentro de mim. Caminhei sem rumo certo, observando vitrines, pessoas, casais de mãos dadas. Em um desses momentos, percebi algo que me desconcertou: eu não sentia inveja. Sentia curiosidade. Como se estivesse observando uma realidade paralela, possível, mas distante. Quando voltei para casa, encontrei uma mensagem nova. Da professora. “Hoje você ficou muito tensa no final da aula. Se quiser, posso te passar alguns exercícios extras. Nada demais.” Nada demais. Ainda assim, senti o estômago se contrair. Respondi agradecendo, dizendo que gostaria sim. Minutos depois, ela enviou um áudio curto, explicando os exercícios com calma, a voz firme, tranquila, quase íntima sem ser invasiva. Ouvi mais de uma vez, não pelo conteúdo, mas pela sensação de ser guiada sem ser pressionada. Guardei o telefone com cuidado, como se fosse algo frágil. À tarde, meu cunhado apareceu sem avisar. O som da campainha me fez pular do sofá. Meu primeiro impulso foi fingir que não estava em casa. Fiquei parada, ouvindo o segundo toque, depois o terceiro. Respirei fundo e fui até a porta. — Oi — ele disse, surpreso e aliviado ao mesmo tempo. — Oi — respondi, tentando manter a naturalidade. — Desculpa aparecer assim. Eu estava por perto e lembrei de uns papéis que ainda faltavam. Assenti e dei passagem. Ele entrou, observando a casa com aquele olhar atento que parecia sempre perceber mais do que devia. Sentamos na sala, espalhamos os documentos sobre a mesa. Conversamos sobre números, prazos, decisões práticas. Tudo muito correto. Mas havia algo diferente naquele encontro. Talvez porque agora eu estivesse consciente demais. De cada gesto, de cada pausa, de cada silêncio que se estendia além do necessário. Em um momento, ele se inclinou para pegar um papel, e nossos braços se tocaram. Foi rápido, quase nada. Mas eu senti. Meu corpo reconheceu antes que minha mente pudesse reagir. Afastei-me imediatamente, fingindo concentrar-me em outra coisa. — Está tudo bem? — ele perguntou, atento. — Está — respondi rápido demais. Ele me observou por um segundo longo. Não havia malícia em seu olhar. Havia cuidado. E isso me deixou ainda mais exposta. — Se eu estiver incomodando… — começou. — Não — interrompi. — Não está. E era verdade. O problema não era a presença dele. Era o que ela despertava. Quando ele foi embora, a casa pareceu silenciosa demais outra vez. Encostei a porta devagar e fiquei ali, parada, tentando desacelerar a respiração. Passei a mão pelo rosto, sentindo o calor que ainda insistia em ficar. Nada tinha acontecido. Ainda assim, eu me sentia atravessada por algo irreversível. À noite, recebi uma ligação do meu marido avisando que chegaria muito tarde. Respondi com indiferença honesta. Jantei sozinha, em silêncio, sem ligar a televisão. Pela primeira vez, não senti vontade de preencher o vazio com ruído. Deitei cedo, mas o sono não veio. O corpo estava alerta demais. Levantei-me, peguei o colchonete, coloquei-o no chão da sala. Abri o áudio da professora e comecei a seguir as instruções. Respirei fundo. Inspirei contando. Expirei devagar. Senti o corpo responder, como vinha acontecendo com mais frequência. Uma sensação de presença, de pertencimento, que eu não lembrava de ter sentido antes. Em um dos exercícios, fechei os olhos e deixei a respiração conduzir o movimento. Foi então que percebi: eu estava emocionada. Não era tristeza. Era reconhecimento. Deitei-me no chão, olhando para o teto, sentindo o coração bater firme. Pela primeira vez, não tentei afastar os pensamentos. Permiti-me nomear o que vinha evitando. Eu estava desejando. Não apenas pessoas. Não apenas toques. Eu desejava ser inteira. Desejava sentir sem culpa. Desejava escolher. Levantei-me devagar, ainda sentindo o corpo vibrar. Fui até o quarto, deitei-me sozinha na cama grande demais. O espaço ao meu lado parecia simbólico agora. Um convite e um aviso ao mesmo tempo. Peguei o telefone mais uma vez. Abri a conversa da professora. Pensei em escrever algo além do necessário. Não escrevi. Abri a conversa do meu cunhado. Pensei em agradecer pela ajuda. Escrevi e apaguei. Coloquei o telefone de lado. Fechei os olhos, sentindo o peso da escolha que ainda não tinha sido feita, mas que já se desenhava no horizonte. Eu não tinha cruzado nenhuma linha concreta. Ainda. Mas havia cruzado uma linha interna, e essa era a mais difícil de voltar atrás. Naquela noite, compreendi que evitar dar nome às coisas não as impedia de existir. Apenas as tornava mais fortes. O desejo já estava ali. Presente. Persistente. E, gostando ou não, eu teria que decidir o que fazer com ele.






