Mundo de ficçãoIniciar sessãoAcordei com a sensação incômoda de que algo em mim tinha mudado de lugar durante a noite. Não era um sonho específico, nem um pensamento claro. Era como se meu corpo tivesse avançado um passo enquanto minha mente ainda tentava se manter no mesmo ponto de sempre.
Ele ainda dormia ao meu lado, respirando fundo, tranquilo, alheio ao turbilhão silencioso que eu tentava organizar por dentro. Observei seu rosto por alguns segundos, buscando nele algum sinal do que eu sentia. Não encontrei nada. Havia conforto ali, sim. Estabilidade. Mas nenhum convite. Levantei-me antes que o despertador tocasse. Fui até a cozinha, preparei o café, executei os mesmos movimentos automáticos de todas as manhãs. Ainda assim, tudo parecia ligeiramente deslocado. Como se eu estivesse repetindo um papel que já não encaixava perfeitamente no meu corpo. Enquanto a água fervia, lembrei da frase da professora de Pilates: ouça seu corpo. Era curioso como algo tão simples conseguia ecoar tão alto. Quando ele acordou, conversamos pouco. Ele comentou sobre o trânsito, sobre a reunião do dia anterior, sobre o cansaço acumulado. Eu respondi com frases curtas, cuidadosas, evitando qualquer coisa que pudesse abrir espaço para perguntas que eu não sabia responder. — Você está quieta hoje — ele observou, distraído, sem realmente me olhar. — Só um pouco cansada — menti com facilidade. Não era exatamente mentira. Eu estava cansada de ignorar coisas que começavam a se tornar impossíveis de ignorar. Depois que ele saiu, a casa voltou a ser só minha. O silêncio que antes me pesava agora parecia cheio de algo novo. Um espaço em branco que não me dava mais medo, mas curiosidade. À tarde, fui para a segunda aula de Pilates. Entrei na sala com mais atenção do que da primeira vez. Observei o ambiente, a luz suave, os espelhos, o jeito como cada pessoa ocupava o próprio espaço. Quando ela entrou, a professora, senti novamente aquela presença firme, tranquila, que não precisava se impor para ser notada. — Hoje vamos trabalhar mais a respiração — anunciou. — Tudo começa aí. Deitei-me no colchonete, seguindo as instruções. Inspirei fundo, expirei devagar. Pela primeira vez em muito tempo, senti meu corpo inteiro responder. Não havia toque, não havia intenção além do movimento, mas algo se alinhava dentro de mim. Ela caminhava pela sala, corrigindo posturas, oferecendo ajustes mínimos. Quando se aproximou de mim, inclinou-se levemente, indicando a posição correta dos ombros. — Menos tensão — disse em voz baixa. — Você segura demais. Não soube se ela falava apenas do exercício. Senti o calor subir pelo rosto. Ajustei o corpo, obediente, mas atenta. Cada respiração parecia abrir um espaço novo dentro de mim. Um espaço que eu não lembrava de ter. Ao final da aula, fiquei sentada por alguns segundos, esperando o coração desacelerar. Ela se aproximou novamente. — Você foi melhor hoje — comentou, com um sorriso discreto. — Seu corpo respondeu rápido. Assenti, sem saber exatamente o que responder. Havia algo reconfortante e inquietante naquela observação. No caminho de volta para casa, passei pelo mercado. Escolhi frutas, legumes, coisas simples. Enquanto caminhava pelos corredores, percebi como meu corpo parecia mais presente, mais desperto. Cada som, cada cheiro, cada movimento parecia registrado com mais nitidez. Foi ali que o vi. Meu cunhado estava perto da sessão de vinhos, distraído, analisando rótulos. Meu primeiro impulso foi virar para outro corredor, evitar o encontro. Mas algo em mim hesitou. Permaneci onde estava. Ele me viu primeiro. — Ei — disse, com um sorriso sincero. — Que coincidência. — É — respondi, sentindo novamente aquele calor rápido, conhecido demais agora para ser ignorado. Conversamos sobre banalidades. Sobre preços absurdos, sobre o calor daquela semana, sobre a mãe deles. Nada íntimo. Nada impróprio. Ainda assim, havia algo diferente na forma como ele se mantinha atento, presente. Ele me ouvia de verdade. — Você parece diferente — comentou, de repente. — Diferente como? — perguntei, tentando soar casual. Ele deu de ombros, pensativo. — Mais… viva, talvez. A palavra ficou suspensa entre nós por alguns segundos. Senti meu estômago se contrair. Não respondi. Peguei uma garrafa qualquer da prateleira mais próxima, apenas para ter algo nas mãos. — Bom, preciso ir — disse ele, quebrando o silêncio. — A gente se vê. Assenti. Observei enquanto ele se afastava, sentindo uma mistura confusa de alívio e frustração. Não havia acontecido nada. E, ainda assim, tudo parecia carregado demais. À noite, meu marido chegou mais tarde. Jantamos em silêncio, como tantas outras vezes. Ele falou pouco. Eu falei menos ainda. Quando fomos para o quarto, senti o corpo se retrair antes mesmo que ele se aproximasse. O sexo aconteceu porque sempre acontecia. Sem conflito, sem conversa. Meu corpo respondeu de forma automática, mas minha mente estava longe. Em outro lugar. Em outros pensamentos que eu não ousava nomear. Depois, ele dormiu rápido. Eu fiquei acordada, encarando a escuridão. Pela primeira vez, senti uma tristeza diferente. Não era carência. Era consciência. Virei-me de lado, sentindo o espaço entre nós mais evidente do que nunca. Pensei na professora, na forma como ela falava sobre presença. Pensei no olhar atento do meu cunhado, na palavra viva ecoando na minha cabeça. Eu não tinha feito nada. Não tinha cruzado linha alguma. Mas algo dentro de mim já não aceitava o conforto da ignorância. Fechei os olhos, tentando respirar fundo, como havia aprendido mais cedo. Inspirei. Expirei. Meu corpo respondeu, inquieto. Talvez o desejo não fosse um inimigo a ser controlado. Talvez fosse apenas um sinal. E sinais, quando ignorados por tempo demais, encontram outras formas de se fazer ouvir. Adormeci com essa certeza incômoda pulsando no peito, sabendo que, a partir daquele momento, não seria mais possível fingir que nada estava acontecendo. Porque o silêncio começava a se romper.






