Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu sempre imaginei que, se um dia descobrisse uma traição, seria um momento explosivo. Gritos, pratos quebrados, acusações atravessando a sala como facas. Mas a verdade é que a descoberta chegou de forma quase silenciosa, como uma rachadura fina em um vidro que parecia intacto.
Era uma terça-feira comum. Daquelas que não carregam promessa alguma. O café esfriava na xícara enquanto ele terminava de se arrumar, distraído, reclamando do trânsito e do calor. Eu observava seus gestos automáticos, o nó da gravata feito sem atenção, o perfume borrifado sempre no mesmo ponto do pescoço. Havia algo de mecânico demais em tudo aquilo — como se ele estivesse ensaiando a própria vida. O celular vibrou sobre a mesa. Não era raro. Ele sempre foi ligado ao trabalho, dizia. Mas, dessa vez, a tela acendeu antes que ele pudesse virar o aparelho. Um nome feminino. Um coração vermelho ao lado. Meu corpo reagiu antes da mente. Um frio seco atravessou meu estômago, subindo pelo peito até se alojar na garganta. Não toquei no telefone. Não precisei. Algo dentro de mim já sabia. Ele percebeu meu olhar e virou o celular com rapidez exagerada. Sorriu. Um sorriso curto, defensivo. — Preciso ir. — disse, sem me beijar dessa vez. A porta se fechou atrás dele, e o silêncio da casa se tornou ensurdecedor. Passei o dia em estado de suspensão. Fiz tudo o que precisava ser feito, mas como quem assiste à própria vida de fora. Cada lembrança recente ganhou um novo significado: as noites em que ele virou para o lado sem tocar em mim, os atrasos sem explicação, a impaciência constante. Tudo se encaixava de forma cruel. À noite, eu ainda tentava me convencer de que estava exagerando. Até que a campainha tocou. Era ela. Alta, magra, confiante demais para alguém que estava diante da esposa do homem com quem dormia. Usava um vestido justo, maquiagem impecável e um batom vermelho que gritava presença. Quando abri o portão, ela sorriu como quem já se sente dona do lugar. — Você deve ser a esposa. — disse, avaliando-me dos pés à cabeça. Não perguntou. Não precisou. Meu coração batia tão forte que tive medo de que ela ouvisse. Ainda assim, dei passagem. Ela entrou sem hesitar, caminhando pela sala como se já a conhecesse. — Não vim causar confusão — começou, sentando-se no sofá. — Vim porque acho justo você saber. Justo. A palavra ecoou com ironia. Ela falou com uma tranquilidade assustadora. Disse há quanto tempo se viam. Disse que ele reclamava de mim. Da minha frieza. Do meu cansaço. Do meu silêncio na cama. Disse que eu não o desejava, que ele se sentia rejeitado, que precisava de alguém que o fizesse sentir homem. Cada frase era uma bofetada calculada. — Ele fica tão diferente comigo — continuou, cruzando as pernas. — Atento. Presente. Você devia tentar ser mais… disponível. Foi ali que algo quebrou dentro de mim. Não foi dor. Foi clareza. Quando ela foi embora, levando consigo o cheiro doce do perfume e a sensação de invasão, eu não chorei. Caminhei até o quarto, sentei-me na cama e fiquei ali por longos minutos, encarando o espelho à minha frente. Não havia nada de errado comigo. Nunca houve. Naquela semana, o casamento começou a ruir de forma visível. Ele tentou negar, depois minimizar. Disse que foi um erro. Que se sentia sozinho. Que eu o afastava. Colocou a culpa em mim com a facilidade de quem sempre foi ouvido. Eu escutava em silêncio. Algo em mim já não reagia. Foi nesse espaço de vazio que o cunhado se aproximou mais. Ele não fez perguntas diretas. Apenas esteve. Um café deixado sobre a mesa, uma mensagem simples perguntando se eu estava bem, um olhar que demorava um segundo a mais do que o socialmente aceitável. Havia cuidado, mas também havia tensão. Uma tensão que eu fingia não perceber, mas que meu corpo reconhecia com precisão assustadora. As aulas de Pilates se tornaram meu refúgio. O único lugar onde eu sentia que ainda habitava meu próprio corpo. A professora me corrigia com toques firmes, precisos, às vezes demorados demais. Eu sentia a respiração mudar, o calor se espalhar sob a pele, sensações que nunca experimentei ao lado do meu marido. Meu corpo não era frio. Ele só nunca tinha sido escutado. Em casa, meu marido passou a agir como vítima. Dizia que estava tentando. Que merecia outra chance. Que eu precisava perdoar. Mas como perdoar alguém que nunca assumiu de fato a própria culpa? Numa noite particularmente tensa, deitei-me ao lado dele e percebi que não sentia mais nada. Nem raiva, nem pena. Apenas um vazio definitivo. Enquanto ele dormia, virei-me para o outro lado e pensei no toque que ainda não tinha acontecido, mas que já se anunciava inevitável. O primeiro toque com o cunhado foi quase acidental. Uma mão que roçou a minha ao pegar a mesma xícara. Um arrepio que percorreu minha espinha inteira. Ele se afastou rápido demais. Eu também. Mas algo já tinha sido despertado. O segundo foi escolha. Um abraço mais longo do que o necessário. Um suspiro preso entre nós. O terceiro… foi entrega contida, silenciosa, carregada de tudo o que ainda não ousávamos dizer. Naquela noite, deitada ao lado do meu marido, entendi que não estava traindo. Estava apenas deixando de me trair. E, antes de adormecer, uma certeza se formou com nitidez assustadora: Nada, absolutamente nada, voltaria a ser como antes.






