Mundo de ficçãoIniciar sessãoAcordei com o corpo pesado e a mente acelerada. Era sempre assim quando eu dormia mal: o corpo pedia pausa enquanto os pensamentos insistiam em continuar. Fiquei alguns minutos deitada, observando a luz fraca da manhã atravessar a cortina, tentando organizar o que sentia antes mesmo de levantar.
Ele já tinha saído. Reconheci os sinais de uma casa recém-deixada: a xícara na pia, a toalha dobrada às pressas, o perfume ainda suspenso no ar do quarto. Senti um alívio imediato e, logo depois, culpa por senti-lo. Levantei-me devagar. O espelho do banheiro devolveu meu reflexo com mais nitidez do que eu gostaria. Havia algo diferente no meu olhar — não era felicidade, nem tristeza. Era atenção. Como se eu estivesse finalmente olhando para mim sem distrações. No café da manhã, mastiguei sem pressa, percebendo sabores que antes passavam despercebidos. Tudo parecia levemente mais intenso. Até o silêncio. Passei a manhã resolvendo pendências simples, mas minha cabeça voltava sempre aos mesmos pontos. À aula de Pilates. À palavra viva. Ao espaço crescente entre mim e o homem com quem eu dividia a vida. Eu não queria desejar outra pessoa. Não queria questionar nada. Queria continuar acreditando que estabilidade bastava. Mas o desejo não pedia autorização. Ele apenas se manifestava. À tarde, fui novamente para a aula. Cheguei alguns minutos antes do horário e me sentei no colchonete, observando as outras pessoas entrarem. Quando a professora apareceu, senti aquela mesma presença firme, quase silenciosa, tomar o ambiente. Ela cumprimentou a todos com naturalidade, como se já nos conhecesse. — Hoje vamos trabalhar equilíbrio — anunciou. — Corpo e mente. Sorri, sem saber por quê. Aquela frase parecia direcionada demais. Durante os exercícios, percebi o quanto eu costumava me desconectar do próprio corpo. Sempre havia um esforço em controlar, em conter, em ajustar. Ela caminhava entre nós, observando, corrigindo com palavras simples. — Confie no movimento — disse, ao passar por mim. — Seu corpo sabe. Fechei os olhos por um instante, permitindo-me sentir sem analisar. O chão firme sob mim, a respiração entrando e saindo, os músculos respondendo. Era estranho como algo tão básico podia ser tão revelador. No fim da aula, enquanto eu guardava o colchonete, ela se aproximou. — Você está diferente desde a primeira aula — comentou. — Mais presente. — Isso é bom? — perguntei, quase sem pensar. Ela sorriu, de um jeito calmo. — Geralmente é. Saí dali com o coração acelerado, não por atração direta, mas pela sensação de estar sendo vista de uma forma que eu não estava acostumada. Sem expectativas. Sem cobranças. No caminho para casa, meu telefone vibrou. Uma mensagem simples. Do meu cunhado. “Passei aí mais cedo, mas você não estava. Deixei um recado com sua vizinha.” Olhei para a tela por tempo demais antes de responder. “Vi agora. Obrigada.” Simples. Objetivo. Ainda assim, senti o corpo reagir. Um nervosismo que não combinava com o conteúdo da mensagem. Guardei o telefone, incomodada comigo mesma. Em casa, encontrei o recado sobre a mesa: ele precisava falar comigo sobre algo relacionado à família. Nada urgente, dizia. Mesmo assim, a ideia de um novo encontro ocupou meus pensamentos de forma insistente. À noite, quando meu marido chegou, percebi o quanto estávamos desalinhados. Conversamos sobre o dia, mas era como se falássemos idiomas diferentes. Ele estava cansado. Eu estava inquieta. Nenhum dos dois parecia disposto a atravessar essa distância. — Você anda estranha — ele comentou, finalmente, enquanto jantávamos. Levantei os olhos para ele. — Estranha como? Ele pensou por alguns segundos. — Distraída. Longe. Respirei fundo antes de responder. — Talvez eu só esteja pensando demais. Ele assentiu, como se isso explicasse tudo. E talvez, para ele, explicasse mesmo. Mais tarde, deitada ao seu lado, percebi como meu corpo permanecia tenso. Não havia desejo ali. Havia expectativa em outro lugar. E isso me assustava mais do que eu gostaria de admitir. Virei-me de lado, sentindo o espaço entre nós crescer novamente. Pensei em como eu vinha adiando conversas importantes. Com ele. Comigo. No dia seguinte, o encontro com meu cunhado aconteceu. Ele apareceu no meio da tarde, com o mesmo sorriso fácil, a mesma postura tranquila. Sentamos na sala, conversamos sobre assuntos familiares, sobre decisões práticas que precisavam ser tomadas. Nada pessoal. Nada íntimo. Ainda assim, eu me sentia exposta. Em um momento de silêncio, nossos olhares se encontraram por tempo demais. Não houve toque. Não houve palavra. Apenas uma compreensão silenciosa de que algo estava mudando — e nenhum de nós sabia exatamente o que fazer com isso. — Bom — ele disse, levantando-se. — Era isso. Acompanhei-o até a porta. Quando ele saiu, a casa pareceu grande demais para mim. Encostei a porta devagar e respirei fundo, sentindo o coração bater rápido. Não havia acontecido nada. Ainda assim, tudo parecia fora do lugar. Aquela noite, sozinha no quarto enquanto meu marido dormia, encarei o teto mais uma vez. Mas agora não havia apenas perguntas. Havia a certeza incômoda de que eu estava à beira de algo que não sabia nomear. O desejo não gritava. Ele apenas insistia. E eu começava a entender que algumas mudanças não anunciam chegada. Elas apenas começam a escapar do controle. ---






