Ela voltou a aparecer quando eu menos esperava — e, dessa vez, não pediu licença.
Eu estava no mercado, empurrando o carrinho entre corredores estreitos, tentando me concentrar em coisas simples como frutas maduras e marcas de café, quando senti o olhar antes mesmo de ouvir a voz. Há pessoas que entram no ambiente como um ruído; ela entrava como um aviso.
— Engraçado te encontrar aqui.
Virei devagar. O batom vermelho era o mesmo. O sorriso também. Havia algo de deliberado na forma como se posicionava, bloqueando parcialmente minha passagem, como se quisesse garantir que eu não escapasse.
— Não sabia que você fazia compras — continuou, sem esperar resposta. — Ele sempre disse que você não gostava dessas coisas.
Respirei fundo. Não devia satisfação alguma. Ainda assim, meu corpo reagiu com um misto de raiva e lucidez. Pela primeira vez, eu não estava fragilizada o suficiente para aceitar aquela encenação.
— O que você quer? — perguntei.
Ela fingiu surpresa.
— Só conversar. — disse, incl