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capítulo 4 - A distância que aprende a andar.

Passei a noite inteira acordada, mesmo quando o sono parecia me visitar por alguns minutos. Era um descanso falso, desses que não recuperam nada. Cada vez que eu fechava os olhos, sentia o corpo inquieto, como se algo em mim estivesse em movimento enquanto eu insistia em ficar parada.

Ele dormia ao meu lado, tranquilo, respirando fundo, ocupando o espaço de quem não percebe que já não divide a mesma frequência. Observei suas costas viradas para mim, a linha do ombro, o braço relaxado sobre o colchão. Havia carinho ali, sim. Mas o carinho tinha se tornado distante demais para ser abrigo.

Levantei antes do despertador, como vinha fazendo nos últimos dias. O silêncio da casa parecia diferente naquela hora — menos opressor, mais atento. Preparei café sem pressa, sentindo o cheiro se espalhar pela cozinha. Pensei em quantas vezes eu havia feito exatamente aquilo, no mesmo horário, do mesmo jeito, e ainda assim agora tudo parecia novo demais para ser ignorado.

Sentei-me à mesa com a xícara quente entre as mãos e deixei os pensamentos virem. Não lutei contra eles. Pensei na aula de Pilates, no modo como meu corpo reagia aos movimentos simples. Pensei na professora, na calma dela, na maneira direta com que falava sobre presença. Pensei no meu cunhado, no silêncio compartilhado, nos olhares que diziam mais do que deveriam.

E, inevitavelmente, pensei no meu casamento.

Não havia um grande erro, uma traição clara, uma briga explosiva. Havia apenas uma soma de ausências. Uma coleção de pequenos vazios que, juntos, ocupavam espaço demais.

Quando ele acordou, conversamos pouco. Ele comentou algo sobre o trabalho, eu respondi com atenção suficiente para não levantar suspeitas. Ele saiu apressado, como sempre, deixando para trás o mesmo rastro de rotina.

Assim que a porta se fechou, senti uma solidão diferente. Não a solidão da falta, mas a solidão de quem começa a se reconhecer fora da relação.

Passei a manhã resolvendo coisas da casa, mas tudo era feito com um cuidado exagerado, quase nervoso. Como se eu precisasse ocupar as mãos para não encarar o que estava se formando dentro de mim. Em alguns momentos, me pegava parada no meio de um cômodo, sem saber exatamente o que havia ido fazer ali.

À tarde, recebi uma mensagem da professora.

“Amanhã teremos uma aula um pouco diferente. Se puder chegar alguns minutos antes, melhor.”

Li a mensagem duas vezes. Não havia nada demais ali. Ainda assim, senti o corpo responder. Um leve aperto no estômago, uma antecipação que não combinava com um simples ajuste de horário.

Respondi confirmando. Guardei o telefone, incomodada comigo mesma.

Saí para caminhar, tentando clarear a cabeça. O sol estava alto, o calor insistente. Observei as pessoas na rua, cada uma ocupada com sua própria vida, seus próprios conflitos invisíveis. Pensei em como era fácil parecer inteira por fora enquanto se fragmentava por dentro.

Quando voltei para casa, encontrei uma sacola na porta. Dentro, alguns documentos que meu cunhado havia deixado, junto com um bilhete curto, escrito à mão.

“Qualquer coisa, me chama.”

Simples demais para justificar o incômodo que me causou. Guardei tudo rapidamente, como se alguém pudesse me flagrar pensando além do permitido.

À noite, quando meu marido chegou, percebi que a distância entre nós não era mais apenas emocional. Ela tinha aprendido a andar pela casa. Sentava-se conosco à mesa, deitava-se entre nós na cama, respirava no mesmo ritmo lento da rotina.

— Você vai sair amanhã? — ele perguntou, enquanto jantávamos.

— Aula — respondi. — Pilates.

— Ah — disse, distraído. — Bom.

A indiferença dele deveria ter me tranquilizado. Mas, estranhamente, doeu.

Deitamos mais cedo. Ele tentou se aproximar, um gesto automático, conhecido demais. Meu corpo respondeu por educação, não por vontade. Fechei os olhos, tentando me concentrar em algo que não estava ali. Em outro ritmo. Em outro lugar.

Depois, ele virou de lado e dormiu. Eu fiquei imóvel, sentindo o lençol contra a pele, o coração acelerado por motivos que eu não ousava explicar.

No dia seguinte, cheguei à aula mais cedo.

A sala estava vazia, silenciosa. Coloquei minha bolsa em um canto, respirei fundo, observando o espaço. Havia algo diferente no ar, uma expectativa discreta. Quando a professora entrou, sorriu ao me ver.

— Obrigada por chegar antes — disse. — Queria te mostrar alguns exercícios de respiração e consciência corporal.

Assenti, tentando manter a naturalidade. Seguimos para um canto da sala. Ela falava com calma, explicando cada movimento, cada ajuste. Não havia pressa, não havia invasão. Apenas atenção.

— Você costuma se desconectar do corpo quando sente desconforto — comentou, enquanto eu executava um exercício simples. — É um mecanismo comum.

Engoli em seco.

— Como assim? — perguntei.

— Algumas pessoas aprendem a sobreviver assim — explicou. — Se afastam da sensação para continuar funcionando.

A frase me atingiu em cheio. Continuei o exercício, sentindo o peso das palavras se acomodar dentro de mim.

— Mas o corpo sempre encontra um jeito de avisar — ela completou. — Às vezes com dor. Às vezes com desejo.

Levantei o olhar para ela. Nossos olhos se encontraram por um segundo mais longo do que o necessário. Não havia provocação ali. Havia compreensão. E isso era mais perigoso.

A aula começou logo depois, com outras pessoas chegando. Mas algo tinha mudado. Cada movimento parecia carregar um significado novo. Cada respiração abria um espaço que eu não sabia como fechar.

Quando terminou, fiquei sentada por alguns instantes, tentando organizar o que sentia.

— Está tudo bem? — ela perguntou, ao se aproximar.

— Acho que sim — respondi, sem convicção.

Ela assentiu, respeitando meu silêncio.

No caminho para casa, recebi outra mensagem. Do meu cunhado.

“Você recebeu os documentos?”

Respondi que sim. A conversa poderia ter terminado ali. Mas não terminou.

“Se precisar de ajuda com isso, posso passar aí.”

Olhei para a tela por tempo demais. O convite era prático, inocente. Ainda assim, meu corpo reagiu.

“Depois vejo isso.” respondi, tentando manter distância.

Guardei o telefone, sentindo uma mistura de alívio e frustração.

À noite, o clima em casa estava pesado. Não houve discussão. Não houve confronto. Apenas um cansaço compartilhado que ninguém ousava nomear.

Deitada na cama, virei-me para o lado oposto ao dele, encarando a escuridão. Pela primeira vez, permiti-me pensar na possibilidade de que algumas coisas não se resolvem com esforço. Que algumas distâncias não se encurtam — apenas se tornam mais evidentes.

Fechei os olhos, sentindo o corpo pulsar, inquieto. Não era só desejo. Era um pedido de mudança.

E naquele silêncio espesso, compreendi algo que me assustou mais do que qualquer pensamento proibido: eu já não queria voltar a ser quem eu era antes.

A distância não era mais apenas entre mim e ele.

Era entre quem eu fui e quem começava, lentamente, a surgir.

E eu não sabia se teria coragem de atravessá-la.

Mas também não sabia mais fingir que ela não existia.

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