Mundo ficciónIniciar sesiónCamila corre contra o tempo. E desta vez, não existe para onde fugir. Com a filha pequena nos braços, ela atravessa fronteiras usando nomes que não são seus, dorme com medo do amanhecer e aprende a viver em silêncio. Seu passado virou uma sentença, e alguém quer destruí-la. Não por vingança. Por necessidade. Ela sabe que, se for encontrada, não haverá negociação, apenas consequências. A última saída a leva até a Toscana. Até a terra do único homem que ela jurou nunca mais encarar. Ticiano Dutra-Capelli não perdoa. Dono de um legado antigo, de uma fúria cultivada por anos e de um ódio que nunca esfriou, ele transformou a mulher que o abandonou na raiz de todos os seus fantasmas. Camila foi a traição que ele não esqueceu, a humilhação que nunca cicatrizou, a ferida que ainda sangra. Quando ela surge à sua porta, no meio da noite, trazendo um bebê nos braços, a pouca tranquilidade de Ticiano e o resquício de controle, desaparece. O reencontro não traz alívio. Traz perguntas que ele não quer fazer e respostas que não pode ignorar. Traz guerra, e sua vida é consumida pela paixão desesperadora que arde mais perigosa do que nunca. Camila não pede perdão, não pede abrigo. Ela pede proteção. Mas há algo naquela criança que muda tudo. Algo que Ticiano reconhece antes mesmo de aceitar. E enquanto o perigo se aproxima, silencioso e inevitável, uma verdade começa a se impor como uma sentença impossível de evitar. Até onde um homem dominado pelo ódio é capaz de ir… quando descobre que o ódio não caminha sozinho, e que seu maior segredo de sua vida respira nos braços da mulher que ele mais odeia?
Leer másCamila
A madrugada estava alta quando Camila atravessou o saguão lateral do aeroporto privado, com o coração martelando tão alto que parecia conduzir o ritmo apressado de seus passos. O ar quente e úmido de São Paulo grudava em sua pele, tornando tudo mais pesado, a respiração, a mala, e seu coração que parecia prestes a explodir.
No colo, aninhada contra seu peito, a pequena Nina dormia profundamente, alheia ao desespero que acompanhava cada movimento da mãe. A angústia e desespero faziam seus membros tremerem, como se seu corpo fosse feito de chumbo.
O braço de Camila estava rígido pelo peso de seu bebê que estava prestes a completar dois aninhos.
Quase dois anos....
Um curto tempo para perder tudo....
E um longo tempo para tentar superar e seguir em frente…
O celular vibrava dentro do bolso interno da jaqueta, insistente, incômodo, ameaçador. Chamadas e mais chamadas, mensagens aterradoras. Ela não precisava olhar para saber. Tudo que vinha dali significava um problema. Não ficou nem dois dias com o número novo, e ele já foi descoberto. Perdeu a conta de quantas vezes trocou o chip e trocou de aparelho.
Parou por um segundo apenas para descartar o aparelho numa lata de lixo bem cheia. Os dedos tremiam tanto que quase deixou a mochila cair.
— Meu Deus me ajude… — murmurou.
Ela mal conseguia respirar, e mesmo assim avançava com passos largos, aquele era um sacrifício que ela faria mil vezes sem hesitar. Em sua outra mão, a mala arrastava pelo chão com um ranger incômodo, como se anunciasse sua presença a todos que a procuravam.
Eram os homens de farda preta, armados até os dentes, ou a polícia.
Talvez os dois.
Camila não sabia ao certo quem chegaria primeiro, só sabia que não podia ser encontrada a qualquer momento.
Tinha que sair do Brasil o mais rápido possível. Não tinha outra saída.
A amiga que arranjou sua fuga, havia sido claro sobre esse momento. “Desligue tudo, siga direto, não olhe para trás. Se livre do celular antes de embarcar” E ela obedeceu.
As sombras do estacionamento privado pareciam mais densas do que deveriam, e Camila juraria ter visto dois homens rondando a saída minutos antes. A forma como pararam para conversar com o segurança, a maneira como olharam ao redor… Ela reconhecia aquele tipo de postura, eram aqueles homens que tinham transformado sua vida num verdadeiro inferno ainda maior nas últimas semanas.
O estômago dela se revirou, o suor frio escorreu por suas costas.
Ela estava sendo implacavelmente caçada.
Apertou Nina contra o peito, quase acordando a menina, que só suspirou baixinho.
— Calminha, meu amor… — murmurou, mais para si mesma do que para a filha.
O trajeto até a pista particular parecia interminável.
As luzes do estacionamento privado lançavam sombras apavorantes pelo caminho. Densas demais. Camila diminuiu o passo instintivamente ao ver dois homens próximos à saída lateral, eles conversavam com o segurança, atentos a qualquer movimento.
Um deles segurava um rádio, falando rapidamente, sem parar. O estômago de Camila se revirou. Ela reconhecia aquele tipo de postura, ombros rígidos, olhar que varria o ambiente em busca de algo específico. De alguém.
Camila sentiu um aperto impiedoso no peito. Suor frio escorrendo pelas costas. A mala derrapou numa grelha metálica, quase a fazendo perder o equilíbrio.
— Oh meu Deus… — sussurrou, ajustando melhor o peso da filha. – Seus olhos dispararam em todas as direções, morrendo de medo de ter chamado a atenção de seus perseguidores.
As pernas estavam pesadas, tudo parecia girar ao seu redor, mas ela continuou. Porque precisava. Porque não tinha escolha. Porque, se parasse…
Uma sirene distante cortou o ar da madrugada. Camila congelou por um segundo, um único segundo, antes de recomeçar a andar, ainda mais rápido. A sirene podia não significar nada. Poderia ser qualquer coisa, mas e se não fosse? E se a polícia já estivesse ali. E se estavam ali para capturá-la?
O portão metálico que dava acesso à área da pista privada estava logo à frente, iluminado por apenas uma lâmpada trêmula. Sua amiga garantiu que o piloto estaria à espera, com um documento falso para ela e para sua filhinha, caso fossem abordados ao chegarem ao seu destino. A decolagem seria imediata para a Europa.
Era longe o suficiente, e lá Nina teria enfim a segurança que precisava. Isso o que mais ansiava nesse momento, ver sua filha segura.
A respiração dela embargou quando, atrás de si, ouviu passos apressados ecoando no corredor de concreto. Não eram poucos passos, mas uma quantidade que poderia cercar o hangar particular. E estavam se aproximando rapidamente.
Camila não olhou para trás, ela não podia se dar ao luxo de confirmar o que já sabia. Segurou firme a alça da mala, ajustou Nina melhor no colo e avançou em direção ao portão como se sua vida e a da filha, dependessem daquilo.
Porque dependiam.
A cada passo, o desespero ganhava forma dentro dela, a cada passo, a sensação de ser seguida se intensificava. O som dos passos atrás dela acelerou, Camila acelerou também, as lágrimas quentes escorreram por seus olhos.
“Por favor, por favor meu Deus!” pedia em desespero.
O portão estava a poucos metros quando uma voz masculina, alguns metros atrás, ecoou rispidamente.
— Ei! Você aí! Pare agora, desgraçada!
O coração de Camila falhou um compasso.
Mas ela não parou, porque se parasse, nunca mais veria sua filha.
Correndo desesperadamente, ignorando o pavor que ameaçava petrificá-la, e também seus machucados mal cicatrizados, ignorando o peso de sua bebê e a fraqueza de seu corpo debilitado. O vento da pista castigava o rosto de Camila quando ela dobrou a última esquina antes do hangar.
O vento da pista chicoteou seu rosto.
À frente, o jato particular aguardava. Porta aberta. Motor ligado, roncando como um aviso.
“Vá agora e proteja sua filha!”
Camila correu, mesmo sem saber se era salvação… ou armadilha.
Mas, enquanto avançava, uma pergunta rasgava sua mente, violenta, impossível de silenciar:
E se aquela não fosse uma fuga… mas o último erro que custaria a vida da única pessoa que ela ainda tinha para salvar?
Ela engoliu em seco.O simples fato de ouvir o próprio nome daquela forma, dita por ele, naquele tom, fez algo se apertar dentro do peito, era como se seu coração fosse parar só com esse simples fato. Tentou encontrar firmeza na própria voz, respirou fundo.— Ela… ela vai fazer dois anos, em dois meses.As palavras saíram pouco controladas, mas frágeis. Ticiano desviou o olhar de Nina para Camila. A frieza daquele gesto a atingiu com violência. Era como se a temperatura da sala tivesse caído subitamente, sentiu seus músculos enrijecerem, congelando seus nervos.— O que você pretendia fazer com essa criança — perguntou ele, cada palavra pesada — no meio da noite, no portão da minha propriedade?Camila abriu a boca.Mil respostas se atropelaram em sua mente.A verdade inteira.Meias verdades.Justificativas.Desculpas.Medo. Proteção. Amor.Nada saiu.O olhar de Ticiano era afiado, carregado de um ódio tão contido que parecia mais perigoso do que fera. Camila sentiu as palavras morrerem
CamilaCamila mal teve tempo de recuperar o fôlego antes de ser puxada novamente. A mão de Ticiano se fechou em seu braço com força suficiente para guiá-la, mas não para machucá-la severamente, entretanto deixava claro que não havia espaço para resistência.Ela tropeçou no próprio cansaço ao atravessar o corredor longo da villa, sentindo o frio da pedra sob os pés, pois tinha perdido os sapatos quando ele a trouxe para dentro. O eco distante dos próprios passos e o peso esmagador da certeza de que tudo tinha saído do seu controle.A sala para onde ele a levou era ampla, majestosa, típica das grandes villas renascentistas da Toscana. O teto alto parecia distante demais, sustentado por vigas antigas, escuras, marcadas pelo tempo.As paredes de pedra clara refletiam o fogo vivo da lareira, criando sombras quentes e inquietas que dançavam ao redor, como se observassem em silêncio aquele confronto inevitável.Um grande tapete persa cobria parte do chão, e móveis robustos, de madeira nobre,
TicianoO vento fresco da noite batia em seu rosto como uma carícia insidiosa. Ticiano apertou as rédeas de Titano, seu belo cavalo maremmano negro, que passou a correr mais rápido, como se a raiva de seu cavaleiro impulsionasse seus cascos potentes.Cortando as colinas estreladas, ele sentia sua garganta arder e seu maxilar ficar cada vez mais cerrado.O que ela estava tramando?Já fazia dois dias que aquela ordinária tinha chegado a Florença, e até agora ela não tinha dado um passo em direção a Villa Amiata.Ticiano instigou Titano outra vez. O vento cortou sua pele, mas ele não sentiu e nem diminuiu o ritmo. O corpo seguia em frente enquanto a cabeça se recusava a descansar. Desde que soube que Camila estava na Itália, não conseguia se concentrar em nada.Camila...“Que tipo de armadilha você acha que vai me fazer cair dessa vez, sua ordinária?”Pensou puxando o ar com força, franzindo o cenho. O mero pensamento sobre aquela maldita mulher, fazia seus ombros ficarem rígidos, seu sa
Olhou para fora, vendo a imagem vibrante da cidade se descortinava diante da janela. Esteve em Florença há alguns anos, para uma convenção internacional. Hospedou-se no hotel mais caro do centro histórico, tinha motoristas particulares, salas de conferência fechadas, jantares sofisticados. Nunca caminhou pelas ruas estreitas, nunca atravessou pontes sobre canais charmosos, nunca sentiu o cheiro real da cidade.Agora, Florença se abria de forma crua e viva, bonita, e apaixonante demais para alguém que não podia se dar ao luxo de aproveitar, e muito menos relaxar. Ruas de pedra, fachadas antigas, sacadas floridas. O cheiro de café recém-passado misturado ao doce do gelatto, às árvores, aos tomates frescos, ao parmesão e aos queijos expostos nas bancas de pequenos mercados.Camila puxou o ar devagar, sentindo o peito apertar sem saber exatamente por quê.A poderosa Camila Camargo, que esteve em Florença antes, ficou para trás. Aquela mulher não existia mais. Talvez nunca tivesse ex
O impacto do pouso fez o corpo de Camila reagir antes mesmo que sua mente aceitasse a realidade. Um reflexo seco, quase defensivo, como se ainda estivesse fugindo de sua compreensão. O jato particular tocou o solo de Florença com força acentuada, mas, para ela, o som das rodas encontrando a pista soou como um veredicto, e uma nova exposição. Itália. Toscana. Estava mesmo ali. E a pergunta veio sem pedir licença. E se alguém estivesse esperando?Ela manteve Nina firme contra o peito quando o jatinho desacelerou, sentindo o coração bater rápido demais para um pouso seguro. A menina dormia profundamente, os cílios longos projetando pequenas sombras sobre as bochechas rosadas, completamente alheia à travessia clandestina que mudaria o rumo da vida de ambas. Camila sentiu o peso daquele momento se instalar nos ombros, não apenas o peso físico da criança, mas o peso sufocante de tudo o que havia sido abandonado para chegar até ali.Quando a aeronave finalmente estacionou, o comandant
Antes que ela pudesse tomar fôlego, um grito rasgou a madrugada por trás dela.— Ali! Eu vi ela entrar no corredor!O som fez seus músculos travarem por um instante que ela não tinha. Nina despertou com o impacto da corrida e começou a chorar alto, o rostinho molhado de lágrimas, assustada pela súbita agitação.— Shhh, meu amor… — Camila murmurou, os pulmões ardendo, a voz trêmula. — Só mais um pouquinho… já vai passar… mamãe vai te tirar daqui, eu prometo…A mala quicou atrás dela enquanto acelerava, pesada demais agora. Os passos dos homens ecoavam mais perto, rápidos, organizados. A sombra deles se estendeu pela parede de concreto quando dobraram a mesma curva segundos depois dela.O medo subiu pela garganta de Camila junto com o gosto metálico da náusea. Eles tinham visto. Não havia mais esconderijo. Só correr.Ela puxou o ar com dificuldade, a visão estreitando, e se apressou, quase tropeçando, com Nina no colo e o braço cedendo sob o peso. O coração batia fora de ritmo. O hangar





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