Mundo de ficçãoIniciar sessãoNatália acreditou que amar um homem mais velho lhe traria segurança. Em vez disso, com o passar dos anos, encontrou um casamento marcado por silêncios, ausências e um distanciamento que ela não conseguia compreender. Enquanto ela insistia, tentava e se diminuía para caber naquele relacionamento, Ricardo se tornava cada vez mais frio — controlador, fechado, inalcançável aos olhos dela. Para Natália, ele parecia seguro de que jamais a perderia, como se tivesse todo o tempo e poder nas mãos. Até que ela decide ir embora. Sem escândalos. Sem humilhações. Sem pedidos. Quando Natália pede o divórcio, acreditando estar se libertando de um homem que já não a queria, deixa para trás alguém que escondia muito mais do que orgulho. E então tudo muda quando uma revelação inesperada transforma o afastamento calculado de Ricardo em um arrependimento devastador. Agora, o homem que a empurrou para longe terá que enfrentar as consequências da própria escolha — e implorar pelo amor da esposa que ele mesmo ensinou a partir.
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NatáliaO sol de Trancoso, na Bahia, não era apenas luz; era uma promessa dourada. Três anos haviam se passado desde o nascimento do nosso filho, e a vida, finalmente, havia se tornado o futuro que eu sempre quis, despojado de qualquer gestão ou controle. Estávamos em férias prolongadas, uma pausa sabática que Ricardo, o ex-CEO workaholic, havia abraçado com a devoção de um convertido.A cena diante de mim era a definição de paraíso. A areia branca, fina como talco, encontrava o mar em tons de azul-turquesa e esmeralda. Nosso filho, um pequeno turbilhão de três anos com os olhos escuros do pai e o meu sorriso, corria pela praia, perseguindo as ondas com a alegria desenfreada da infância.Ricardo estava logo atrás, com a pele bronzeada e o cabelo desgrenhado pelo vento. Ele não usava terno, nem relógio. A única coisa que ele gerenciava agora era a felicidade do nosso filho. Ele me olhou e sorriu, um sorriso que alcançava os olhos e que não carregava sombra alguma.— Ele é incansável —
NatáliaO choro é alto. Não é um som melodioso, mas um berro primal, caótico, que rasga o silêncio da sala de parto com a força de um trovão. É o som mais real, mais bruto e mais definitivo que já ouvi. Ele não pede permissão; ele apenas é. E, com ele, a tensão que me acompanhou por nove meses, e por toda a nossa história, finalmente se dissipa.Ricardo está ao meu lado, e eu o sinto. A mão dele, que segurou a minha com uma força desesperada durante as últimas horas, agora está imóvel, mas a presença dele é uma âncora. As lágrimas escorrem livremente pelo seu rosto, sem que ele faça o menor movimento para contê-las. Ele não tenta ser o CEO forte, o homem de aço. Ele é apenas um homem, rendido à beleza e à fragilidade do seu filho.Quando a enfermeira o coloca no meu peito, o mundo se resume ao calor daquela pequena criatura. A pele dele é viscosa, quente, um milagre que eu toco com reverência. Ele não abre os olhos; eles estão cerrados, inchados pela jornada, mas o peso dele, o cheiro
O tempo avança com a lentidão e a precisão de um relógio quebrado que, milagrosamente, voltou a funcionar. Ricardo melhora. Os pontos cicatrizam, mas a fragilidade permanece. Não a física, mas a emocional. Ele não é mais o CEO inabalável. Ele é um homem que se levanta devagar, que precisa de ajuda para vestir o paletó, que me olha antes de tomar uma decisão, como se eu fosse o seu novo norte moral.A nossa convivência se torna uma rotina de pequenos milagres. O café que ele tenta fazer, mesmo com a costela doendo, o cheiro de queimado sendo um lembrete bem-vindo da sua humanidade. O silêncio confortável que se instala entre nós, um silêncio que não precisa ser preenchido com palavras, mas com a certeza da presença.Uma noite, estamos no sofá. Ele está lendo um relatório, mas a cada parágrafo, seus olhos me procuram. Eu estou lendo um livro sobre maternidade, e o bebê se mexe. Um chute forte, que faz o relatório cair no chão. Ele sorri.— Eu nunca pensei que sentiria isso novamente — e
NatáliaEstamos juntos nessa, por mais que a razão tente gritar o contrário. A lógica, a mágoa e o bom senso foram suspensos, substituídos por uma necessidade primária e inegável. Ricardo está aqui, ocupando a cama que um dia foi dele, mas agora ele a habita com a fragilidade de um homem que sobreviveu a si mesmo, um náufrago resgatado da sua própria tempestade. Não há mais o rastro de autoridade que ele costumava deixar pelos lençóis de seda; há apenas o peso de um corpo que tenta se lembrar de como ser inteiro novamente.O contraste é brutal, quase doloroso de se testemunhar. O homem que jaz na minha cama é a antítese do CEO impecável, de terno sob medida e olhar de aço, que sempre exalou força, controle e autoridade inquestionável. O Ricardo que eu conheci era um predador no melhor sentido da palavra, um homem que não pedia, mas exigia o mundo. Agora, ele é apenas um homem quebrado, um gigante ferido que se move com a lentidão e a cautela de quem teme desmoronar a qualquer instante
Vítor franze a testa, mas não ousa me impedir. Ele sabe que o tempo de Ricardo decidir por mim acabou.O hospital tem aquele cheiro estéril de medo e desinfetante. Caminhamos pelos corredores brancos e cada passo meu é um batido de tambor de guerra e angústia. Quando entro no quarto, vejo Ricardo antes que ele perceba minha presença.Ele está menor. Pálido. O homem que sempre pareceu ocupar todo o espaço agora parece frágil naquela cama impessoal. Fios, tubos, o bipe rítmico das máquinas... o cenário da sua vulnerabilidade.O ar foge dos meus pulmões.Ele vira o rosto devagar. Nossos olhos se chocam. Não há alegria no rosto dele. Há susto. Há o pânico de quem foi pego em uma mentira.— Natália...?A voz é um sussurro rouco, desprovido de qualquer autoridade.Fico parada na porta. O abismo entre nós ainda é vasto.— Você não ia me contar — afirmo. Não é uma pergunta, é o veredito.Ele engole em seco, o pomo de adão se movendo com dificuldade.— Eu... — ele começa, mas desvia o olhar. —
NatáliaA tarde se arrasta, densa e pegajosa, como se o tempo tivesse decidido me observar sofrer em câmera lenta. É quase um insulto. O sol segue seu curso, indiferente, enquanto eu permaneço estagnada nesse intervalo asfixiante entre o que sinto e o que finjo sentir.É assustador como Ricardo se infiltrou em mim. Não apenas nos meus pensamentos, mas nos meus ossos. Naqueles recônditos silenciosos onde a vontade não alcança. Não consigo silenciar o eco do seu pedido de perdão, a voz quebrada, aquele olhar que não implorava por absolvição, mas por uma fresta, uma chance mínima de continuar existindo na periferia da minha vida. Às vezes, isso me esmaga o peito. Em outras, confesso, o gosto amargo de vê-lo sofrer é o que me mantém de pé. É viciante. Eu sempre lutei por ele. Sempre. E agora, pela primeira vez, sou eu quem escolhe não correr.Estou na sala, afundada na poltrona de areia — aquela que abraça o corpo melhor do que deveria, como se tivesse sido desenhada para momentos de rend





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