O Encontro e a Cidade

O eco sutil dos meus saltos sobre o piso polido do hall parece sincronizar-se com o ritmo contido do meu coração; uma batida ansiosa que se recusa a acelerar, mantendo-se em uma cadência quase melancólica. Ana segue à frente, sua energia contagiante abrindo caminho, enquanto Clara caminha ao meu lado, um apoio silencioso em meio à expectativa que cresce a cada passo.

O ar da noite entra junto com as portas de vidro — não entra, invade. Denso, misturado: perfume caro demais para ser casual, fumaça de escapamento que ninguém admite sentir, o asfalto que ainda guarda o calor do dia como uma memória insistente. São Paulo tem esse cheiro que não se explica direito. É familiar e impessoal ao mesmo tempo, como um aperto de mão apressado.

Lá fora, a cidade não descansa. Ela pulsa, sim — mas não como metáfora bonita; pulsa como coisa que exige, que cobra, que não permite silêncio. Os faróis recortam a avenida em linhas de luz contínuas, quase agressivas, e as pessoas atravessam o cenário com aquela urgência de quem vive sempre um minuto atrasado. Prendem o telefone entre o ombro e o ouvido, desviam de corpos, de carros, de si mesmas. Tudo rápido demais. Sempre rápido demais. E eu, no entanto, me sinto suspensa, como se tivesse ficado para trás por um segundo — um segundo que se estica só o suficiente para eu perceber que estou esperando mais do que um carro.

Então eu o vejo.

Ricardo.

Encostado ao lado do automóvel vermelho — um vermelho que não pede permissão —, ele parece deliberadamente composto. O terno preto é impecável, sob medida, e nele tudo tem uma rigidez elegante: a linha dos ombros, a postura reta, a economia de gesto. Há homens que ocupam espaço por barulho. Ricardo ocupa por contenção, por controle. Por certeza.

Ele segura o celular, mas guarda no bolso no instante em que nossos olhos se cruzam, num movimento limpo, decidido. Como se o mundo inteiro pudesse esperar. Como se, naquele recorte estreito de tempo, só eu importasse — e eu odeio o quanto eu gosto de acreditar nisso.

O olhar dele muda antes do rosto.

Ele não sorri de imediato; nunca sorri como eu gostaria que sorrisse. Primeiro vem a avaliação, lenta, quase impessoal, e ainda assim íntima demais: o vestido branco, a forma como ele se ajusta ao meu corpo, o meu esforço para parecer tranquila, a postura que eu sustento como quem sustenta uma versão de si. Ele me percorre em silêncio, e esse silêncio não é vazio — é uma espécie de frase que ele não diz.

Por um momento, o som da cidade parece abaixar. Não some. Só se afasta. Como se São Paulo, por delicadeza ou ironia, recuasse um passo para nos assistir.

E então o sorriso vem.

Contido. Controlado. Real o suficiente para me fisgar — insuficiente o bastante para me deixar com fome. Um curvar mínimo dos lábios, que não chega a aquecer os olhos, mas confirma alguma coisa. Não sei o quê. Ainda assim, confirma.

— Boa noite — ele diz, baixo, firme. Uma voz que não precisa competir com nada.

— Boa noite — eu respondo, e percebo tarde demais que a minha voz sai com uma densidade a mais, como se eu tivesse engolido emoção no caminho.

Ana suspira alto, propositalmente, como quem se recusa a deixar o clima crescer sem testemunha.

— Meu Deus… — ela murmura. — Isso devia ser ilegal.

Clara cruza os braços, rindo com uma espécie de resignação teatral.

— Eu vou fingir que não conheço vocês dois. É humilhante demais.

Ricardo lhes oferece um olhar rápido: educado, correto, distante. Um olhar que cumpre o social sem abrir nenhuma fresta. E, por um segundo, eu sinto — não sei se é impressão ou experiência — o ar estreitar entre nós, como se ele desenhasse com a própria presença um limite invisível: aqui dentro, só nós.

Ele abre a porta do carro para mim. O gesto é preciso, quase protocolar, mas o contraste com o que está suspenso no silêncio me desestabiliza. É como se o corpo dele fosse formal, e o olhar dissesse outra coisa.

— Você está linda — ele fala, sem elevar o tom, como se me entregasse a frase na palma da mão. Não como elogio para o mundo ouvir. Como segredo.

Meu peito aperta num ponto exato entre prazer e melancolia — esse lugar onde eu sempre vou parar com ele.

— Obrigada — eu digo, e a palavra sai baixa, quase trêmula, mais confissão do que resposta.

Entro. O interior do carro me envolve com luxo e perfume, como uma promessa que também é armadilha. Antes de a porta fechar, eu olho para Ana e Clara e deixo um brilho cúmplice escapar.

— Depois eu conto tudo — digo, tentando conter o sorriso.

— Não esquece de respirar — Ana avisa, doce.

— E de lembrar quem você é — Clara completa, mais séria. E a frase entra em mim com o peso de quem sabe onde dói.

A porta se fecha, e o mundo encolhe. Agora é só esse espaço íntimo, o banco macio sob mim, a cidade do lado de fora como um filme sem som. O perfume dele — couro, madeira, algo limpo e escuro — me alcança de um jeito antigo. Familiar demais. Como se eu já tivesse cedido antes mesmo de perceber.

Ricardo dá a volta, entra, ajusta o cinto com uma calma quase exasperante — como se não tivesse acabado de me desmontar com um olhar. O carro arranca suave, sem pressa, e São Paulo volta a correr ao nosso redor, refletida em luzes no vidro, no painel, no relógio caro do pulso dele, na linha firme da mandíbula.

— Desculpa a demora — ele diz, os olhos na rua. — O trânsito resolveu testar minha paciência hoje.

— Tudo bem — eu respondo. — Valeu a espera.

Ele inclina a cabeça um milímetro, como se tivesse ouvido mais do que eu disse. Como se “valeu” não fosse sobre trânsito.

Seguimos. As luzes passam rápidas, riscando o vidro em reflexos. Ele ajusta o volante. Passa a mão pelos cabelos naquele gesto mínimo que sempre denuncia concentração — ou o que ele escolhe não dizer.

— As suas amigas são… expressivas — ele comenta.

Eu sorrio.

— Elas gostam de você.

— Percebi.

Silêncio.

Confortável. Cheio. Daqueles que não são falta de assunto — são um tipo de linguagem. E eu me pego pensando no quanto eu aprendi a traduzir o que ele não diz.

Dentro do carro, o perfume dele insiste. Seguro. Familiar. E perigoso por isso.

— Eu acertei na escolha do vestido — ele diz, de repente.

A frase vem neutra demais para ser apenas elogio.

Eu olho para ele, surpresa, procurando o rosto, procurando calor.

— Acha mesmo?

— Acho — ele responde, sem pressa. — Ficou… adequado.

Adequado.

Não é uma palavra ruim. Mas é uma palavra fria. Não é o tipo de palavra que faz o peito abrir. Ainda assim, eu sorrio, porque é o que eu aprendi a fazer: encaixar minha alegria na medida exata do que ele oferece.

— Você conhece meu gosto — eu digo. — Ou talvez me conheça melhor do que imagina.

Ele não responde de imediato. O maxilar contrai de leve — um gesto pequeno demais para ser acaso, grande demais para eu ignorar. E eu sinto, com uma clareza desagradável, que eu acertei em algum ponto que ele preferia manter intocado.

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