A Chegada

Natália

O eco suave do meu salto no piso polido do hall parece sincronizar-se com o ritmo contido do meu coração, uma batida ansiosa que se recusa a acelerar, mantendo-se em uma cadência quase melancólica. Ana segue à frente, sua energia contagiante abrindo caminho, enquanto Clara caminha ao meu lado, um apoio silencioso em meio à expectativa crescente.

O ar da noite, denso e perfumado, invade o espaço pelas portas de vidro que se abrem automaticamente, trazendo comigo a essência inconfundível de São Paulo: o asfalto quente, o perfume caro que flutua das pessoas apressadas, o murmúrio constante do movimento que nunca cessa.

São Paulo pulsa diante de mim, uma metrópole insone, um organismo vivo que respira e se move em um ritmo frenético. Os faróis dos carros riscam a avenida em linhas contínuas de luz, traçando padrões efêmeros no tecido escuro da noite. Pessoas entram e saem de edifícios imponentes, conversam ao telefone com uma urgência silenciosa, vivem suas vidas em uma velocidade vertiginosa. Tudo acontece rápido demais, penso, como se o mundo tivesse uma pressa incompreensível, enquanto eu me sinto suspensa em um instante, um lapso de tempo onde a realidade parece se dilatar.

Então, eu o vejo. Ricardo. Uma figura imponente, quase escultural, encostado ao lado do carro, o vermelho vibrante do automóvel contrastando de forma dramática com o preto impecável do seu terno sob medida. Alto, com postura reta que denota confiança e controle, os ombros largos preenchendo o tecido caro. A presença dele ocupa o espaço antes mesmo de qualquer palavra ser proferida, um campo de força invisível que atrai todos os olhares.

Ele segura o celular em uma das mãos, mas guarda no bolso com um movimento fluido e decidido assim que nossos olhos se encontram. Um gesto que, para mim, carrega um significado oculto.

O olhar dele muda. Não sorri de imediato, não com a espontaneidade que tanto espero. Primeiro, ele me observa, um escrutínio lento e deliberado que percorre cada detalhe: do vestido branco que envolve minha delicadeza, ao rosto que tento manter sereno, da postura ereta que me esforço para sustentar, ao modo como paro diante dele, uma mistura de vulnerabilidade e determinação.

Há um segundo de silêncio absoluto, um vácuo no burburinho da cidade, como se o mundo diminuísse o volume apenas para que existamos naquele momento, sozinhos em nossa complexidade.

Então, o sorriso vem. Contido. Controlado. Mas real. Um leve curvar dos lábios que não alcança os olhos, mas que, ainda assim, é um sinal, uma confirmação.

— Boa noite — diz ele, a voz baixa, firme, um sussurro que parece destinado apenas a mim.

— Boa noite — respondo, a voz um pouco embargada pela emoção contida.

Ana suspirou alto demais, de propósito, quebrando a tensão com um toque de humor. 

— Meu Deus... — ela murmura. — Isso devia ser ilegal.

Clara ri, cruzando os braços, um gesto de resignação divertida. 

— Eu vou fingir que não conheço vocês dois. É humilhante demais.

Ricardo lança um olhar rápido para Ana e Clara, educado, mas distante, que não convida à intimidade. Sinto o ar entre nós se estreitar por um instante, como se ele delimitasse o espaço só para nós dois.

Em seguida, ele abre a porta do carro para mim com um gesto preciso, quase protocolar. Meu coração dispara com o contraste entre a formalidade do movimento e a intensidade silenciosa do momento. 

— Você está linda — ele diz, sem elevar o tom, como se a frase fosse um segredo compartilhado só entre nós, um presente sussurrado.

Meu peito aperta, uma mistura agridoce de prazer e melancolia que me deixa momentaneamente sem fôlego.

— Obrigada — respondo, a voz saindo baixa, quase trêmula, tentando conter tudo o que sinto.

Entro no carro, o interior luxuoso e perfumado me envolvendo imediatamente. Antes que a porta se feche, volto o olhar para Ana e Clara, um brilho cúmplice nos olhos.

— Depois eu conto tudo — digo, tentando segurar o sorriso.

— Não esquece de respirar — Ana avisa, com um sorriso leve.

— E de lembrar quem você é — Clara completa, a voz mais séria, um lembrete que guardo comigo.

A porta se fecha, e o mundo parece encolher, confinando-me a este espaço íntimo. O cheiro do perfume dele — couro, algo amadeirado, familiar demais — me envolve por completo.

Ricardo dá a volta, entra e ajusta o cinto com uma calma quase exasperante, como se não tivesse acabado de me desarmar com um único olhar. O carro arranca suavemente, deslizando pela avenida, e sinto cada curva, cada luz da cidade refletindo em nós dois, tornando tudo ao redor irrelevante.

— Desculpa a demora — ele diz, focado na rua, os olhos fixos no horizonte. — O trânsito resolveu testar minha paciência hoje.

— Tudo bem — respondo. — Valeu a espera.

Ele inclina a cabeça de leve, como se tivesse ouvido mais do que eu disse.

Seguimos pela avenida iluminada. As luzes passam rápidas pelo vidro, refletindo no painel, no relógio caro no pulso dele, na linha firme da mandíbula.

— As suas amigas são... expressivas — comenta.

Sorrio.

— Elas gostam de você.

— Percebi.

Silêncio.

Confortável. Cheio.

Ele ajusta o volante, passa a mão pelos cabelos com aquele gesto quase imperceptível que sempre denuncia concentração — ou algo que ele prefere não dizer.

Dentro do carro, o cheiro do perfume dele me envolve. Familiar. Seguro.

— Eu acertei na escolha do vestido — ele diz de repente.

A frase vem neutra demais para ser apenas um elogio.

Olho para ele, surpresa.

— Acha mesmo?

— Acho — responde. — Ficou... adequado.

Adequado.

A palavra não é ruim. Mas não é quente. Não é do tipo que faz o peito se expandir. Ainda assim, sorrio.

— Você conhece meu gosto — digo. — Ou talvez me conheça melhor do que imagina.

Ele não responde de imediato. O maxilar se contrai levemente, um gesto pequeno demais para ser acaso.

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