Perspectivas e Sombras

Ricardo

O vestido branco deixa ela iluminada, quase limpa demais. Jovem demais. E isso me incomoda — não porque ela faça esforço, mas porque ela simplesmente é assim. Ela entra no meu lado e parece que traz futuro junto.

Eu não tenho isso.

Em mim sobra cálculo. Sobra cuidado. Sobra essa mania de prever tudo, de não errar. Sobra o peso de quem já viu coisas demais e aprendeu a chamar de “controle” o que, às vezes, é só cansaço.

Ela ri de uma bobagem. É um som leve, bonito, e me pega de jeito. Como se desse um golpe rápido no meu peito.

Ela ajeita a bolsa no colo sem pensar. Cruza as pernas com naturalidade. Tudo nela parece fácil. Existe tempo nela. E eu sinto, com uma clareza amarga, que esse tempo já não é meu.

O branco do tecido contra a pele dela me j**a uma verdade na cara, uma que eu venho evitando há muito tempo: ela não combina com a vida que eu montei. Não combina com as regras. Nem com essas paredes que eu levantei ao meu redor.

Ela não combina comigo.

Com esse homem que começou a envelhecer por dentro antes do corpo. Com os fios grisalhos que eu finjo não notar. Com os silêncios que ficam mais longos entre nós. Com decisões que não falam mais de sonho — falam de manter as coisas de pé.

Eu comprei esse vestido porque ele era bonito demais para passar. E porque eu precisava ver. Precisava olhar para ela assim — inteira, viva, desejável — e sentir a culpa crescer. Eu precisava confirmar o que eu já sei: que não é justo.

Não para ela.

Não comigo.

Ela está aqui, do meu lado, sem saber o peso real disso. Sem saber do que eu ainda não tive coragem de dizer. E eu pretendo continuar sem dizer. Pelo menos por enquanto.

No lugar disso, eu faço o que venho fazendo: vou reduzindo aos poucos. Esfriando a mão. Encurtando promessas. Dando menos. Fazendo o amor dela aprender a viver com pouco… enquanto o meu próprio sentimento se cala, preso num lugar onde eu escondo tudo o que não posso admitir.

Percebo que ela está me olhando.

— O que foi?

A voz dela é suave, como se fosse fácil falar comigo.

— Nada — eu respondo rápido demais. — Só estava pensando.

— Em quê?

Ela insiste. Os olhos dela têm curiosidade e confiança — e isso me aperta.

Eu respiro, procurando uma frase segura. Uma frase que não abra a porta.

— Que você chama atenção sem tentar.

E eu sinto o incômodo aumentar na hora.

Porque esse vestido faz exatamente o que eu temia: mostra o quanto ela merece o melhor… e o quanto eu já não sei se eu sou esse “melhor”. Se eu ainda pertenço a essa luz.

 

 

 

 

Ela

 

Eu encosto a cabeça no banco e sinto meu coração esquentar com o que ele disse. É pouco, mas é muito pra mim. Eu gosto de saber que ele me vê. Mesmo quando ele fala pouco. Mesmo quando ele mede as palavras.

— Você também chama atenção — eu respondo, sorrindo. — Sempre chamou.

Ele inclina a cabeça, como se aceitasse o elogio sem deixar ele entrar de verdade. Como se existisse uma barreira ali.

O carro segue. O silêncio volta, mas não é vazio. Tem coisa dentro dele. Coisa que eu não consigo enxergar direito.

Eu olho o perfil dele passando pelas luzes da rua: o rosto firme, a barba por fazer, os fios grisalhos bem arrumados. Ele parece seguro. Forte. Controlado.

E é isso que me prende. Não é dinheiro. Não é status. É ele. A sensação de que, com ele, tudo fica mais organizado. Mais estável.

Eu não percebo quando o olhar dele fica pesado por um segundo. Não entendo o que tem ali. E também não desconfio que, às vezes, ele não me olha como esposa. Ele me olha como limite.

Eu sorrio, achando que o vestido foi carinho. Um sinal de que ele ainda se importa. Eu não imagino que, pra ele, isso pode ter sido o começo de uma despedida.

Vamos entrando nos Jardins e tudo muda. As ruas ficam mais calmas, mais “certinhas”. As casas grandes aparecem por trás de muros altos, com jardins iluminados, como se tudo ali fosse sério demais pra fazer barulho.

— É na casa do Augusto Lacerda — Ricardo diz, sem tirar os olhos da rua. — Você já ouviu falar?

— Já — eu respondo. — Ele é… importante.

Ricardo concorda, pouco.

— É. E difícil.

Eu gosto quando ele fala de trabalho. A voz dele muda. Fica mais firme, mais segura. Eu gosto disso nele — essa certeza de quem sabe onde pisa.

O carro para num portão alto. Discreto, mas imponente. O segurança reconhece o Ricardo na hora, antes mesmo de o vidro baixar todo. Faz um gesto respeitoso.

O portão abre sem perguntas.

Ele estaciona, desce primeiro e vem abrir a porta pra mim. Esse cuidado ainda me mexe, mesmo depois de tudo.

— Obrigada — eu digo, e seguro a mão dele um segundo a mais do que precisava. Um pedido silencioso de conexão.

Ele conclui o gesto, deixa… mas logo puxa a mão de volta. De um jeito suave. E, por algum motivo, parece mais fuga do que pressa.

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