O Vestido

Ricardo

Eu a conheço. Conheço demais.

E é exatamente isso que me assusta, que me consome, que me empurra para a beira de um abismo que eu mesmo criei.

O vestido branco a deixa luminosa, quase intocada. Jovem. Há algo de errado em como ela ocupa o espaço ao meu lado — não porque exagera, mas porque sobra futuro em seus olhos, em seus gestos, em sua essência, enquanto em mim já existe apenas o cálculo frio, a estratégia implacável, a resignação.

Ela ri de algo pequeno. Um som cristalino que me atinge como um golpe. Ajeita a bolsa no colo com uma delicadeza inconsciente. Cruza as pernas com naturalidade, sem esforço, sem peso. Há tempo nela. Tempo que eu já medi. Que eu já perdi. Que eu sei que não me pertence mais.

O tecido claro contra a pele dela me devolve uma verdade que tento empurrar para longe há semanas, meses, talvez anos: ela não combina com a contenção que virou a minha vida, com as paredes que ergui ao meu redor. Não combina com os limites que não escolhi, mas que me escolheram. Que me aprisionaram.

Comigo.

Com a idade que começa a se insinuar nas laterais do cabelo, nos silêncios mais longos que se instalam entre nós, nas decisões que já não incluem sonhos — apenas a manutenção de uma existência que se tornou vazia.

Eu comprei o vestido porque era bonito demais para ignorar. Para deixar passar. E porque, no fundo, eu precisava ver. Precisava olhar para ela assim — inteira, desejável, viva — e sentir o incômodo crescer, a culpa me corroer. Precisava confirmar que aquilo não é justo. Que não é equilibrado. Que não é certo.

Não para ela.

Não ao meu lado, carregando algo que ainda não tive coragem de dizer — e que não vou dizer.

Em vez disso, ajo. Tenho agido aos poucos. Esfriando gestos. Encurtando promessas. Deixando que o amor dela por mim aprenda a respirar com menos ar… enquanto o meu se cala junto, sufocado por segredos e sacrifícios.

Volto ao presente quando percebo que ela me observa. Os olhos questionadores fixos em mim.

— O que foi?

A voz é suave. Um convite à confidência que eu não posso aceitar.

— Nada — respondo rápido demais, a mentira escorregando fácil pelos meus lábios. — Só estava pensando.

— Em quê?

Ela insiste. A curiosidade aberta no olhar.

Respiro fundo antes de responder, buscando as palavras certas. As que a mantêm à distância. As que a protegem da verdade.

— Que você chama atenção sem tentar.

O incômodo cresce. Uma pressão surda se instala no meu peito.

Porque o vestido cumpre exatamente o papel que eu temi: escancara o quanto ela merece o melhor… e o quanto eu já não sei se pertenço a esse lugar. Se sou digno da luz que ela carrega.

Natália

Encosto a cabeça no banco, sentindo o coração aquecer com a frase dele, um pequeno alívio em meio à constante tensão. Gosto de saber que ele me vê. Mesmo quando não diz tudo, mesmo quando suas palavras são parcimoniosas.

— Você também chama atenção — respondo, um sorriso nos lábios. — Sempre chamou.

Ele inclina levemente a cabeça, como se aceitasse o elogio sem absorvê-lo por completo, como se houvesse uma barreira invisível que o impedisse de internalizar a admiração.

O carro segue. O silêncio retorna, mas não é um vazio. É um silêncio cheio de coisas não ditas, de sentimentos que pairam no ar, densos e palpáveis.

Observo o perfil dele sob a luz dos postes que passam: o nariz firme, a barba por fazer discreta que lhe confere um ar de mistério, os fios grisalhos nas laterais que ele insiste em manter perfeitamente alinhados, um sinal da sua busca incessante por controle. Há algo nele que transmite segurança. Controle. Força.

É isso que me prende, que me atrai, que me faz acreditar que, apesar de tudo, ele é o meu porto seguro. Não percebo o peso no olhar dele quando me encara por um segundo a mais do que o normal, um olhar que carrega uma profundidade que eu não consigo decifrar. Não percebo que, naquele instante, ele não me vê como esposa, como parceira, como a mulher que o ama. Me vê como prova. E como limite.

Sem saber, sorrio — acreditando que o vestido foi apenas um gesto de amor, um sinal de que ele ainda se importa, quando, na verdade, foi o primeiro passo dele para tentar se afastar de tudo o que ainda o faz sentir, de tudo o que o prende a uma vida que ele parece querer abandonar.

Seguimos em direção aos Jardins, o bairro nobre que exala sofisticação e discrição. As ruas mudam de ritmo à medida que avançamos, tornando-se mais silenciosas, mais limpas, mais contidas, como se a própria cidade se curvasse à imponência daquela região. Casas grandes surgem atrás de muros altos, suas fachadas imponentes escondidas por jardins iluminados com cuidado quase cerimonial, um luxo que não precisa se exibir, apenas existe em sua plenitude.

— É na casa do Augusto Lacerda — Ricardo diz, sem tirar os olhos da rua, a voz neutra. — Você já ouviu falar?

— Já — respondo. — Ele é… imponente.

Ele inclina levemente a cabeça, concordando.

— É. E difícil.

Gosto de ouvi-lo falar de trabalho. Do jeito como a voz dele ganha firmeza, como cada palavra parece medida, segura, carregada de autoridade. Gosto da autoridade natural, da certeza tranquila de quem sabe exatamente onde pisa, de quem domina o mundo ao seu redor. Não é o dinheiro que me encanta. Nunca foi. É ele sendo ele. É a forma como o mundo parece se organizar ao redor da presença dele, como se tudo se encaixasse em seu lugar quando ele está por perto.

O carro para diante de um portão alto. Discreto. Imponente. O segurança reconhece Ricardo imediatamente, antes mesmo que o vidro seja totalmente abaixado. Um aceno respeitoso, quase automático, um reconhecimento da posição e do poder dele.

O portão se abre sem perguntas, revelando um caminho sinuoso que leva à entrada da mansão. Ele estaciona, desce primeiro, contorna o carro com passos firmes e abre a porta para mim, um gesto de cavalheirismo que, apesar de tudo, ainda me faz suspirar.

— Obrigada — digo, segurando a mão dele por um segundo a mais do que o necessário, um toque que busca conexão, uma confirmação.

Ele permite. Só um segundo. Depois solta, a mão se afastando com uma delicadeza que parece mais uma fuga do que um simples desprendimento.

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