O presente

Natália

 

Os dias seguem, e com eles, a minha esperança teimosa de que a qualquer momento a porta se abrirá e o Ricardo de antes entrará por ela. Aquele cujos olhos me encontravam na multidão, cujo sorriso era um porto seguro. Mas os dias seguem, e é sempre o Ricardo de agora que chega.

Ele chega mais cedo naquele dia. Não há aviso, apenas a mudança sísmica na atmosfera. O som da porta se fechando não é um estalo comum; é um rugido contido. Um som seco, pesado, que ecoa pela sala como se o próprio apartamento se curvasse à sua presença. Ricardo não pede licença para entrar no espaço que ele mesmo construiu; ele o reivindica. Cada passo seu no assoalho de madeira nobre é calculado, firme, carregado de uma autoridade que faz meu coração errar a batida, não por medo, mas por uma antecipação visceral que eu odeio admitir.

Estou na cozinha, de costas para a entrada, finalizando os preparativos para um jantar que, mais uma vez, eu esperava que fosse especial. É quando o sinto. Antes de vê-lo, sinto a mudança na atmosfera, o ar que se adensa. Viro-me e o encontro parado no vão da porta, uma silhueta esculpida contra a luz suave do corredor.

Ele é alto, de uma presença que rouba o oxigênio. O terno italiano, cortado sob medida, abraça seus ombros largos com uma precisão quase cruel, evidenciando a força bruta que ele tenta esconder sob o tecido caro. Ele dobrou as mangas da camisa branca, revelando antebraços poderosos, marcados por veias salientes que sugerem um vigor contido, uma masculinidade lapidada pelo luxo. O relógio de ouro, um presente meu de aniversário de casamento, ainda brilha em seu pulso. O cabelo escuro, com os primeiros e charmosos fios grisalhos nas laterais, está perfeitamente alinhado. Ricardo nunca parece fora de controle, e é justamente essa calma absoluta, esse domínio sobre si mesmo, que o torna tão perigosamente sexy.

— Oi — digo, a minha voz saindo mais suave do que eu pretendia, carregada de uma expectativa que luto para esconder.

— Oi.

A voz é um barítono grave, uma vibração que sinto mais no baixo ventre do que nos ouvidos. Ele deixa as chaves sobre a bancada de mármore com um cuidado excessivo, quase cerimonial. Tira o relógio e o coloca ao lado, como se encerrasse um ciclo, um dia inteiro de batalhas travadas longe de mim. Respira fundo, um suspiro que parece carregar o peso do mundo. E não me olha. Seus olhos varrem a cozinha, a bancada, a janela, qualquer lugar, menos o meu rosto.

— Comprei uma coisa para você.

A frase me pega completamente desprevenida. Meu coração, um traidor ingênuo, reage antes que a minha razão possa contê-lo. Uma pequena chama de esperança se acende no meu peito.

— Para mim? — pergunto, e não consigo evitar o sorriso que se espalha pelo meu rosto, a alegria genuína de uma criança.

Ele assente, ainda sem me encarar diretamente, e estende uma sacola elegante, de um papel grosso e fosco, discreta e cara demais para precisar de um logotipo estampado. Recebo-a com as duas mãos, com uma delicadeza reverente, como se fosse um artefato frágil. Como se o gesto dele, e não o conteúdo, fosse o verdadeiro presente.

O vestido é branco.

Não um branco qualquer, ofuscante. É um branco limpo, suave, um tom de marfim que parece quase luminoso sob a luz da cozinha. O tecido é leve, uma seda que dança conforme eu o tiro da sacola, e cai com uma delicadeza que promete desenhar o corpo sem expor, que sugere em vez de mostrar. É virginal sem ser ingênuo. Elegante sem esforço. Um vestido que não grita por atenção, mas a recebe naturalmente.

Um vestido que me faz sentir escolhida de novo.

— Ricardo… — minha voz sai baixa, um sussurro quase íntimo, carregado de uma emoção que me surpreende. — É lindo.

— Fico feliz.

Ele não sorri, mas seus olhos percorrem meu corpo por um milésimo de segundo, um escaneamento rápido e possessivo que me deixa em brasa. Ele passa por mim, e o rastro do seu perfume caro me envolvendo por um instante, e segue em direção ao quarto, como se o gesto de entregar o presente fosse um ponto final, não um convite para algo mais.

Fico parada no meio da cozinha, o silêncio do apartamento me envolvendo novamente, segurando o vestido contra o meu corpo. Algo tão bonito, um gesto tão inesperado, deveria vir acompanhado de mais. Mais calor, mais palavras, mais… dele. E, ainda assim, eu sorrio. Porque sorrir é mais fácil do que perguntar. Porque a esperança é um vício difícil de largar.

Penduro o vestido na porta do armário, e o tecido cai em uma cascata perfeita, como se tivesse sido feito sob medida para mim. Observo-o por alguns segundos, esperando sentir aquela felicidade inteira, completa, sem as ressalvas que têm assombrado os meus dias.

Ela vem. Mas vem contida, tímida. Como tudo, agora.

Sigo até o quarto e encontro Ricardo sentado na cama, já trocado, vestindo uma calça de moletom e uma camiseta. Ele está recostado na cabeceira, as pernas estendidas, o rosto iluminado pela luz fria da tela do celular. Não parece apressado. Mas também não parece disponível. É como se estivesse ali apenas fisicamente, um corpo presente cuja mente já partiu para outro lugar, para outra reunião, para outro problema a ser resolvido.

Encosto no batente da porta por um segundo, uma hesitação que não deveria existir entre nós. Talvez esperando que ele levante os olhos primeiro, que me note ali, parada, esperando por ele.

Não se levanta.

— Você comprou por quê? — pergunto, tentando manter o tom leve, casual, como se o presente não tivesse revirado o meu mundo. — Não é meu aniversário, nem data de nada.

Ele ergue o olhar devagar, como quem é trazido de volta de um lugar muito distante, a contragosto. O celular, no entanto, permanece em sua mão, uma barreira invisível entre nós.

— Amanhã tem a festa na casa do Lacerda — diz ele, a voz neutra. — Vai ser um evento mais formal.

— E você pensou em mim — sorrio, porque ainda preciso acreditar nisso, porque essa crença é o que me sustenta.

Há uma pausa. Mínima. Um atraso quase imperceptível na sua resposta. Mas eu sinto.

— Outro dia vi o vestido na vitrine de uma loja — responde ele, desviando o olhar por um segundo. — Achei… adequado.

A palavra cai entre nós como um objeto pesado, mal escolhido. Adequado. Não lindo. Não perfeito para você. Adequado.

Ele parece sentir o peso da palavra no ar e acrescenta, como se tentasse consertar:

— Pedi para ajustarem a barra e a cintura. Achei que ficaria melhor em você assim, mais acinturado.

Sorrio, porque é o que eu aprendi a fazer quando não quero perguntar mais, quando as perguntas são perigosas demais. — Combinou comigo — digo, a voz firme, embora por dentro eu me sinta desmoronar um pouco.

Aproximo-me e apoio a cabeça em seu ombro por um instante, buscando um contato que já não sei se tenho o direito de pedir. Ele não se move. Não me envolve com o braço. Não me afasta. Apenas permite, como quem tolera um gesto conhecido, um hábito antigo.

É o tipo de contato que não cria intimidade. Apenas confirma o hábito.

— Vou tomar um banho — aviso, me afastando, sentindo o frio do espaço que criei entre nós.

— Tudo bem — ele responde, os olhos já de volta à tela, a atenção já perdida para mim.

Saio do quarto com a sensação estranha e dolorosa de ter estado ali completamente sozinha, mesmo com ele presente. E, ainda assim, enquanto a água quente do chuveiro escorre pelo meu corpo, digo a mim mesma que está tudo bem.

Que ele lembrou de mim.

 

Que amanhã temos uma festa.

 

Que o vestido é lindo e foi ajustado para mim.

Repito essas frases como quem treina uma nova verdade, uma nova religião. Mesmo sentindo, no fundo da alma, que algo essencial, algo vital, ficou sem resposta. E que a palavra "adequado" continuará ecoando na minha cabeça por muito, muito tempo.

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