O O vestido branco.

Natália

 

Os dias passam, e eu continuo com essa esperança boba de que, a qualquer momento, a porta vai abrir e vai entrar o homem que ele era. Aquele que me via no meio da multidão, que me fazia sentir segura só de sorrir. Mas, todo fim de tarde, quem volta é sempre a versão atual dele.

Nesse dia, ele chega mais cedo. Não avisa, só sinto a mudança no ar do apartamento. O barulho da porta fechando não é um clique, é um som seco e pesado que parece ocupar todo o espaço. Ele não pede licença para estar aqui; ele toma o lugar. Cada passo no assoalho de madeira é firme, calculado, com uma autoridade que me dá um frio na barriga — não de medo, mas de uma expectativa que eu odeio sentir.

Estou na cozinha, de costas, terminando o jantar que, de novo, imaginei ser especial. Sinto a presença dele antes de vê-lo, a densidade que se instala. Quando me viro, ele está parado no batente, uma sombra imponente contra a luz suave do corredor.

Ele é alto, e a presença dele parece sugar o oxigênio. O terno italiano, impecável, veste seus ombros largos com uma precisão quase cruel, mostrando a força que ele tenta esconder sob o tecido caro. As mangas da camisa branca estão dobradas, expondo antebraços fortes, marcados por veias que falam de um vigor contido, uma virilidade de luxo. O relógio de ouro — presente de aniversário de casamento — brilha no pulso. O cabelo escuro, com os primeiros fios grisalhos discretos, está perfeito. Ele nunca parece descontrolado. E é essa calma absoluta, esse domínio próprio, que o torna perigosamente atraente.

— Oi — digo, a voz mais baixa do que eu queria, cheia de uma esperança que tento esconder.

— Oi.

A voz dele é grave, um barítono que sinto mais no corpo do que nos ouvidos. Ele coloca as chaves na bancada de mármore com um cuidado exagerado, quase um ritual. Tira o relógio e o deixa ao lado, como se estivesse encerrando um ciclo, um dia inteiro de batalhas longe de mim. Suspira fundo, um suspiro que parece carregar o peso do mundo. E não me olha. Os olhos dele passeiam pela cozinha, pela bancada, pela janela — por qualquer lugar, menos o meu rosto.

— Comprei uma coisa para você.

A frase me pega de surpresa. Meu coração, um traidor ingênuo, dispara antes que eu consiga pensar. Uma faísca de esperança acende no meu peito.

— Para mim? — pergunto, sem conseguir segurar o sorriso, a alegria sincera de uma criança.

Ele concorda com a cabeça, ainda sem me olhar nos olhos, e estende uma sacola elegante, de papel grosso e fosco, discreta e cara demais para ter logo. Pego com as duas mãos, com uma delicadeza quase reverente, como se o gesto dele — e não o que está dentro — fosse o verdadeiro presente.

O vestido é branco.

Não um branco qualquer, ofuscante. É um marfim limpo, suave, um tom que parece quase luminoso sob a luz da cozinha. O tecido é leve, uma seda que dança ao ser tirada da sacola, caindo com uma delicadeza que promete desenhar o corpo sem expor, sugerir em vez de revelar. É inocente sem ser bobo. Elegante sem esforço. Um vestido que me faz sentir escolhida de novo.

— Amor… — minha voz sai baixa, um sussurro íntimo, carregado de uma emoção que me assusta. — É lindo.

— Que bom.

Ele não sorri, mas os olhos dele me percorrem por um milésimo de segundo — um escaneamento rápido e possessivo que me deixa em brasa. Ele passa por mim, o rastro do perfume caro me envolve por um instante, e segue para o quarto, como se entregar o presente fosse um ponto final, e não um convite para algo mais.

Fico parada no meio da cozinha. O silêncio do apartamento me engole de novo enquanto seguro o vestido contra o corpo. Algo tão bonito, um gesto tão inesperado, deveria vir com mais. Mais calor, mais palavras, mais… dele. E, mesmo assim, eu sorrio. Porque sorrir é mais fácil do que perguntar. Porque a esperança é um vício difícil de largar.

Penduro o vestido na porta do armário. O tecido cai em uma cascata perfeita, como se tivesse sido feito sob medida. Olho por alguns segundos, esperando sentir aquela felicidade completa, sem as dúvidas que assombram meus dias.

A felicidade vem. Mas vem pequena. Tímida. Como tudo, agora.

Vou para o quarto e o encontro sentado na cama, já trocado, de moletom e camiseta. Está encostado na cabeceira, as pernas esticadas, o rosto iluminado pela luz fria da tela do celular. Não parece apressado. Mas também não parece disponível. É como se estivesse ali só em corpo, enquanto a mente já está em outro lugar — outra reunião, outro problema.

Encosto no batente da porta por um instante. Uma hesitação que não deveria existir entre nós. Talvez eu espere que ele me olhe primeiro, que me veja ali, parada, esperando.

Ele não me vê.

— Você comprou por quê? — pergunto, tentando manter o tom leve, casual, como se o presente não tivesse virado meu mundo de cabeça para baixo. — Não é meu aniversário, nem data de nada.

Ele levanta o olhar devagar, como quem é puxado de volta de um lugar distante, a contragosto. O celular, no entanto, continua na mão — uma barreira invisível entre nós.

— Amanhã tem a festa na casa do Lacerda — diz, com a voz neutra. — Vai ser um evento mais formal.

— E você pensou em mim — sorrio, porque ainda preciso me agarrar a essa crença, porque essa fé é o que me mantém de pé.

Há uma pausa. Mínima. Um atraso quase imperceptível na resposta dele. Mas eu sinto.

— Outro dia vi o vestido na vitrine de uma loja — responde, desviando o olhar por um segundo. — Achei… adequado.

A palavra cai entre nós como um peso, mal escolhida. Adequado. Não lindo. Não perfeito para mim. Apenas adequado.

Ele parece sentir o peso da palavra no ar e completa, como se tentasse consertar:

— Peço para ajustarem a barra e a cintura. Acho que fica melhor em você assim, mais acinturado.

Sorrio. É o que aprendi a fazer quando não quero perguntar mais, quando as perguntas se tornam perigosas demais.

— Combina comigo — digo, a voz firme, embora por dentro algo pequeno desmorone.

Aproximo-me e apoio a cabeça no ombro dele por um instante, buscando um contato que já não sei se tenho o direito de exigir. Ele não se mexe. Não me abraça. Não me afasta. Apenas permite — como quem tolera um gesto familiar, um hábito antigo.

É o tipo de contato que não cria intimidade. Apenas confirma o hábito.

— Vou tomar um banho — aviso, me afastando, sentindo o frio do espaço que se cria entre nós.

— Tudo bem — responde, os olhos já de volta à tela, a atenção já perdida para mim.

Saio do quarto com a sensação estranha e dolorosa de ter estado ali completamente sozinha, mesmo com ele presente. E, ainda assim, enquanto a água quente do chuveiro escorre pelo meu corpo, repito para mim mesma que está tudo bem.

Que ele se lembrou de mim.

Que amanhã temos uma festa.

Que o vestido é lindo e foi ajustado para mim.

Repito essas frases como quem ensaia uma nova verdade, uma nova crença. Mesmo sentindo, no fundo da alma, que algo essencial — algo vital — permanece sem resposta.

E que a palavra adequado continua ecoando em minha mente por muito, muito tempo.

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