Eu sangro sozinho. É o meu mecanismo de defesa.
Vítor franze a testa, mas não ousa me impedir. Ele sabe que o tempo de Ricardo decidir por mim acabou.
O hospital tem aquele cheiro estéril de medo e desinfetante. Caminhamos pelos corredores brancos e cada passo meu é um batido de tambor de guerra e angústia. Quando entro no quarto, vejo Ricardo antes que ele perceba minha presença.
Ele está menor. Pálido. O homem que sempre pareceu ocupar todo o espaço agora parece frágil naquela cama impessoal. Fios, tubos, o bipe rítmico das máquinas... o cenário da sua vulnerabilidade.
O ar foge dos meus pulmões.
Ele vira o rosto devagar. Nossos olhos se chocam. Não há alegria no rosto dele. Há susto. Há o pânico de quem foi pego em uma mentira.
— Natália...?
A voz é um sussurro rouco, desprovido de qualquer autoridade.
Fico parada na porta. O abismo entre nós ainda é vasto.
— Você não ia me contar — afirmo. Não é uma pergunta, é o veredito.
Ele engole em seco, o pomo de adão se movendo com dificuldade.
— Eu... — ele começa, mas desvia o olhar. —