Natália
O quarto está mergulhado numa penumbra calculada quando entro. Não é o escuro confortável de quem busca o sono ao lado de alguém amado. É um escuro escolhido, imposto, controlado. A luz da lua mal ousa invadir pelas frestas das cortinas pesadas, criando sombras longas e distorcidas que dançam nas paredes, como segredos que se recusam a ser revelados.
Ricardo já está deitado. De costas para mim, o corpo perfeitamente alinhado sob o edredom de seda, como se até o descanso obedecesse a uma lógica fria e implacável que não admite falhas. Ele não dorme. Nunca dorme assim. Eu o conheço. Reconheço o jeito: a respiração medida, o silêncio tenso demais para ser paz, o ar pesado que preenche o espaço entre nós, mais denso que o próprio breu.
Fecho a porta devagar, com um clique quase inaudível que, ainda assim, parece ecoar no silêncio opressor. Nenhum som de sua parte. Nenhuma palavra. Apenas a quietude que me engole, me lembrando do abismo que cresce entre nós.
Tiro o vestido branco c